EM DEFESA DO ANDAR
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Aprender a andar é uma das maiores conquistas do ser humano. Se duvida, caro leitor, veja a grande manifestação de alegria que domina uma criança quando consegue dar seus primeiros passos. Aquelas passadinhas vacilantes representam uma vitória maior, a superação de um espaço quase infinito, no sentido da vida e da conquista da liberdade.
Pois estamos renunciando a essa nossa condição de bípedes, de seres que triunfaram sobre os outros animais, ao conseguirem a proeza de se porem de pé.
Quase deixamos de andar. A bela palavra “andarilho” parece ter perdido o sentido. Praticamente já não existe mais gente que cobre grandes distâncias usando apenas seus pés ágeis e suas pernas curiosas e ansiosas para enveredar pelas estradas e caminhos, subindo e descendo montes, atravessando grandes distâncias.
Porém, pior que isso: não andamos mais nem as pequenas distâncias que nos separam do bairro do lado, ou mesmo dos quarteirões mais distantes, ou ainda da esquina da outra rua.
Não contam aqui, leitor, as caminhadas regulares feitas por exigência médica ou estética. Isto é exercício, não caminhada no sentido existencial, a que dá prazer, a que corresponde a nossa capacidade de locomoção mais elementar.
Hoje, temos quatro ou dois pneus, ao invés de pernas e pés. Andar, um prazer, tornou-se um sacrifício. A imobilidade, companheira da preguiça, impera; o sedentarismo é uma doença, mesmo quando justificado com os argumentos mais convincentes – falta de tempo, medo de assaltos, calçadas escangalhadas, ruas esburacadas.
O prazer de andar é insubstituível. Andando, vemos e ouvimos tudo; sentimos o vento no rosto; nossos narizes sentem tanto os perfumes das flores quanto o cheiro fétido do lixo ainda não recolhido e espalhado por um gato noturno e vagabundo.
Para andar de forma consciente e prazerosa, precisamos que nossos sentidos estejam alertas, e que nossa mente esteja disposta a sintonizar-se com tudo o que encontramos pela frente, de bom e de mau: sorrisos e algazarras de crianças, caras feias dos mal-humorados, lentidão dos que têm dificuldade de andar, fumaça dos veículos, buzinas que azucrinam, animaizinhos simpáticos infelizmente presos a coleiras, gente engravatada e com cara de responsável, gente largadona de chinelos e bermudas com cara de quem não tem o que fazer...
Andar, simplesmente andar, é muito bom. Mover o corpo em passadas, se possível lentas, cadenciadas, é gostoso. E não precisamos nem estar presos à necessidade de chegar. Eu, às vezes, mesmo tendo um lugar para onde ir, finjo que não o tenho. Entrego-me ao andar, simples andar, puro andar, que é um passear no ritmo da vida e de todas as coisas. Sim, reparem que a vida e as coisas têm um ritmo, um andar que não se molda às nossas necessidades, por mais pressa que tenhamos. Nós é que temos de nos adaptar a esse andar, a esse fluir que acontece independente de nós. Por que, então, simplesmente não nos ajustarmos a esse andar?
Não tenho tempo para passear, poderá dizer você, caro leitor, sorrindo do que considera ingenuidade deste cronista. Mas será que esse tempo não existe mesmo? Ou será que existe uma incapacidade de reconhecê-lo ou de construí-lo a despeito das urgências do cotidiano?
Será que faz mesmo muita diferença, em certos percursos, nossa ida de carro ou a pé? Observe que, com freqüência, chegamos antes andando do que submetidos à lentidão infernal dos engarrafamentos. E mesmo quando ganhamos tempo, é comum termos de esperar pelos outros lá no lugar aonde vamos.
O fato é que todos podemos andar. Os saudáveis, os adoentados, os jovens, os velhos, os de meia idade. Pode-se andar com chinelos, sapatos de salto alto ou baixo; andar bem lentamente ou mais rápido, em passinhos miúdos ou largas passadas.
Conheço muito gente que anda redescobrindo o prazer de andar. Gente que agora vai a pé até o shopping, que caminha até a feira, que anda diariamente um pouco a esmo.
Tente, caro leitor. Tentemos todos readiquirir o prazer de andar. Quem sabe, não somente nossos pés e pernas, nosso corpo todo, mas também nossas almas não se reaproximarão também da pureza, da alegria, do encantamento daquela criança que ensaia, maravilhada, seus primeiros passos?
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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