PARABÉNS, CIDADE MARAVILHOSA!

Olhar o Rio é olhar de frente a beleza em sua forma mais exuberante encarnada numa cidade. Isto todos sabemos, como o sabem também, mergulhados em perplexidade, extasiados, encantados, todos os turistas, brasileiros ou estrangeiros, que a vêem e sentem que não há exagero em chamá-la “Cidade Maravilhosa”.
Mas será que nossa cidade continua assim, mesmo sofrendo as mazelas de todas as imensas cidades que a modernidade urbana construiu, ironicamente, para melhorar a vida dos que as habitam?
Afirmo que sim. Continua aí a deslumbrante floresta, teia verde rendada que desce da montanha e quase encontra o mar, mesmo agredida pela favelização, que pendura casas e vidas nas encostas mais íngremes.
O mar, cavalheiro rumoroso com seu vozeirão de ondas que quebram contra os rochedos, continua cortejando a cidade, beijando incessantemente as areias e lançando no ar o perfume afrodisíaco da maresia.
As garotas de Ipanema, e de todos os outros bairros, continuam essa “coisa mais linda que vem e que passa num doce balanço, caminho do mar”. Mesmo quando seu passo sensual e sua brejeirice morena ficam abalados pela proximidade de um “arrastão”.
A Lagoa permanece esse espelho divino. E reflete, como sempre, um céu como outro não há, de um azul inacreditável, que de dia serve de cenário para nossa contemplação do vôo das gaivotas, e de noite é o fundo do estojo onde brilham as estrelas e passeia a lua, que ainda faz com que o luar, passando pelos buracos do
telhado, salpique o chão de estrelas, como diz a canção.
O Centro, apesar da falta de amor com que se cuida do patrimônio histórico neste país, mantém seus prédios lindos, ruas fantásticas, como a do Ouvidor, nas quais, se a gente tiver ouvidos de ouvir, ainda escuta o fru-fru das saias das damas que passeiam na dimensão da memória.
A Lapa, rediviva, junta ao que vem do ontem a fervilhante presença de jovens de hoje, em casas de espetáculo onde se relembram e se renovam o samba e o chorinho.
Apesar de envergonhado pela decadência, que levou tanta gente de classe média para os bairros chiques, o subúrbio continua vivo, colorido, pujante de esperança, inclusive de que a violência desmesurada se vá para sempre algum dia, como se foram tantas outras desgraças que se abateram sobre a cidade.
Copacabana, Ipanema e Leblon continuam lindos lugares, ditando moda, modelando costumes, atraindo gente, no que contam com a cumplicidade de bairros mais novos, como a Barra e o Recreio.
O trânsito é, cada vez mais, um inferno particular e coletivo. Porém, em que outro lugar do mundo, da janela do carro preso nos engarrafamentos, se podem ver paisagens como no Rio, mesmo quando é um olho lá na beleza e outro cá no ladrão?
O Maracanã continua fervilhando em jogos memoráveis, mostrando que, no Rio, o amor à prática de esportes, o fascínio pelo imponderável traduzido no jogo, o desafio de, ganhando ou perdendo, continuar torcendo, continuar acreditando, são
coisas arraigadas no povo que vive neste belíssimo pedaço de chão.
As escolas de samba, mesmo reféns da ganância empresarial ou alvos da lavagem do dinheiro que corre nas mãos de traficantes e bicheiros, mobilizam as comunidades, sustentam a tradição do samba e oferecem o maior espetáculo da Terra.
Violência e beleza, pressa e calma, miséria e riqueza, ceticismo e crença, caos e ordem, tudo isso, assim, misturado, convive nessa Cidade Maravilhosa a despeito de tudo, fazendo do Rio de Janeiro lugar único, inigualável, inesquecível.
A cidade, bela e faceira, aniversaria. E a carioquice, ao mesmo tempo, se eterniza e se renova, nos que o são por nascimento ou nos que tiveram a ventura de tornar-se cariocas por adoção.
Parabéns, Cidade Maravilhosa! Parabéns, cariocas!
...........................................................................................................................................................
J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
Voltar | Capa
|