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» NITERÓI, 26 DE FEVEREIRO DE 2008

EM BUSCA DA TARDE SUBURBANA

Arte: Francci Lunguinho

Na tarde suburbana, eu passeava meu descompromisso, depois da manhã consumida no estudo.

O sol forte, ainda longe de ceder ao frescor da noite, exigia o abrigo dos ficus, árvores tão suburbanas quanto suburbanos sempre foram os pardais.

Havia sempre cães ladrando na tarde. Latidos roucos de cães supostamente ferozes, por detrás das cercas ou grades de jardins tranqüilos; latidos finos de cadelinhas covardes, que depois se transformavam em fêmeas parideiras, eternizando a linhagem dos vira-latas.

A fábrica apitava, um imperativo sonoro que marcava o fim do almoço e, no fim da tarde, a alforria do término de mais uma jornada de trabalho.

A rua de terra era esverdeada aqui ali pelo capim na beira de valas ou pela grama mais ou menos bem cuidada defronte das casas simples. Árvores frondosas, de galharia farta, como as mangueiras, também ofertavam folhagens verdes, além da generosa oferta de seus frutos, que eram a própria encarnação da delícia. Isto sem falar das goiabeiras, das jaqueiras, das tamarineiras...

Carros, havia tão poucos nessas ruas perdidas em bairros afastados, que sua passagem disparava a curiosidade, como hoje a massa de veículos provoca o medo.

A passarinhada também colaborava com a sinfonia da tarde, sobretudo quando a luz dourada – uma cor de ouro velho – da tarde ia enfraquecendo e cedendo lugar, devagarinho, ao lusco-fusco crepuscular. Quem não viu uma árvore suburbana coalhada de pássaros, numa incrível algazarra sonora, não viu um dos mais bonitos e simples espetáculos da natureza.

Vento da tarde, sabem todos os que tiveram infâncias felizes, é fundamental para que as pipas transformem o céu suburbano num mural de cores sobre um fundo azul.

Lembro de minhas tardes suburbanas como um pulsar de vida. Não da vida frenética das manhãs, que parecem sempre cheias de energia, responsáveis pelos impulso que garantirá toda a operosidade do dia. Esse pulsar das tardes sempre me pareceram sintonizados com a calma, afeiçoados ao descanso, numa redução de ritmos talvez destinada a fazer a transição para a instauração da alma criativa, meditativa, ou então festeira, da noite.

No verão, o estio permitia os passeios; no inverno, induzia ao recolhimento, à contemplação da rua, vista das janelas, o que também acontecia nas tardes chuvosas.

Padarias e tarde parecem fazer parte de um complô destinado a despertar aquela vontade irresistível de combinar um café gostoso com um pão quentinho. E isto também nada tem a ver com o café da manhã, que é nutrição, enquanto o lanche da tarde é... curtição, de cheiros e de sabores.

Ah, doces tardes suburbanas... Ah, gostosa vagabundagem da meninice... Elas ainda existem por aí. Nós é que talvez não tenhamos mais olhos aguçados, narizes sensíveis, mãos sujas e pés descalços para encontrá-las e vivenciá-las.

No fundo, lá no fundo da alma, de cada um de nós há uma tarde dessas, esperando para ser resgatada pelo esforço de nossa memória.

Mãos à obra, caro leitor!

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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