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carino10@yahoo.com

» NITERÓI, 19 DE FEVEREIRO DE 2008

UMA BOA GARGALHADA

Arte: Francci Lunguinho

Quero uma boa gargalhada. Não falo de um riso, ou mesmo de um sorriso. Não. Falo de uma gostosa, imensa e ruidosa gargalhada.

Hoje vi uma mulher gargalhando. Mesmo sua interlocutora, que tudo indicava provocou aquela monumental demonstração de alegria, apesar de partilhar da hilaridade, parecia perplexa, e um tanto assustada diante do ataque de riso.

Era uma daquelas gargalhadas que sacodem o corpo, congestionam o rosto e provocam as chamadas lágrimas de alegria.
Sorrir é algo tímido, uma demonstração de alegria que parece pedir desculpas aos circunstantes, num mundo onde imperam caras crispadas e testas franzidas.

Rir é mais ruidoso; é algo que extrapola a alegria contida nas convenções sociais. Rir contamina, contagia, ultrapassa a expressão individual e pessoal da alegria, indo na direção do coletivo e do impessoal.

Gargalhar supera tudo isso. Creio que supera até a relação, que parece sempre imprescindível, entre o conteúdo do que provoca o riso e o próprio riso.

A gargalhada, por definição, foge ao controle, não somente de quem gargalha, mas de todos os que são atingidos pelo ato de gargalhar. E, falando destes, eles são basicamente de dois tipos: os que se mantêm alheios a uma explosão de gargalhada, e os que cedem, passando a expressar uma espécie de cumplicidade total com quem gargalha.

Gargalhadas assim, intensas, ruidosas, contagiantes, são muito raras. Por isso, também são preciosas e almejadas.

As gargalhadas de que falo também não são aquelas que, embora barulhentas, contagiantes, desopilantes, são provocadas, por exemplo, por um bom espetáculo de humor. Estas perdem um quê de inusitado que as gargalhadas espontâneas apresentam. Gargalhadas assim parecem um simples resultado previsível, planejado, provocado, do espetáculo. Tais gargalhadas, caro leitor, parecem artificiais, e não originais, já tendo existido, já tendo sido antecipadas, podemos supor, pelo menos no interior de quem as concebeu e escreveu. Por isso, aquelas gargalhadas enlatadas das claques, gravadas ou ao vivo, parecem tão tristes, tão melancólicas.

Nosso corpo mostra-se muito mais propenso a abandonar-se a uma boa gargalhada que nossa mente. As convenções que nos domam, em nome da convivência social, são impotentes diante de uma sonora, grandiosa e incontrolada gargalhada.

A boa gargalhada sacode o corpo, acelera o coração, torna a respiração ofegante e, em certos casos, impede até que se controle a eliminação de fluidos corporais. Muita gente, possuída por uma gargalhada autêntica, pode molhar as calças...

Uma boa gargalhada é tão poderosa no controle de nosso corpo que isso permitiu a expressão “morrer de rir”.

E aqui podemos pensar em contradições. Morrer e chorar são coisas tristes, mas a gente fala tanto em morrer de rir quanto em chorar de rir. Será que os limites entre a tragédia, a dor, a felicidade e a alegria, expressadas nas gargalhadas, não serão bastante tênues?

O mundo é trágico, quando pensamos nas guerras, doenças e em todas as mazelas a que estamos sujeitos pelo simples fato de termos nascido e de existirmos. Mas, a gargalhada é a inteira suspensão dessa tragicidade, por segundos, mas para valer. Durante uma boa gargalhada, nos libertamos, somos como que lançados nos braços da vida, sem medo, sem prevenções, sem pudores e convenções.

Não é comum acontecerem gargalhadas assim. Esses são presentes que ganhamos da vida muito poucas vezes ao longo de nossa trajetória no mundo. Vamos aproveitá-los, com pena daqueles que vivem a vida toda sem esses presentes, esses momentos hilários e preciosos.

Eu quero, eu preciso, eu sinto falta de uma boa gargalhada. Você não, caro leitor?

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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br

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