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» NITERÓI, 5 DE FEVEREIRO DE 2008

LUSTRES

Arte: Francci Lunguinho

Lustres são lindos. Para mim, continuam fascinantes, embora não tenham  o lugar que tiveram durante séculos na funcionalidade das salas e salões. Mas, essas peças estilizadas que existem hoje em dia sem dúvida prestam reverência aos antigos lustres, como aqueles de que falava Machado de Assis em Quincas Borba: “Os lustres de cristal e ouro alumiando os mais belos colos da cidade”.

Eis que, nessa frase do mestre, beleza, sedução e lustres se combinam, quando a luz vinda de cima, indiscreta, realça a beleza do que os decotes deixavam entrever a nossos bisavós.

Impossível imaginar, por exemplo, os salões de Versalhes, com seu luxo e imponência inigualáveis, sem os lustres a banhar de luz os pares dançantes no eterno valsar dos nobres, rodopiando e fruindo o que melhor havia na vida, numa hoje inimaginável incorreção política e insensibilidade social.

Lustres eram o equivalente a um sol artificial, e só fizeram crescer em brilho com o advento da energia elétrica. Seus pingentes, desde os tempos das luzes bruxuleantes das velas até às lâmpadas de luminosidade constante e uniforme, multiplicam as fontes luminosas, num jogo de refração e reflexão de rara beleza.

Porém, não apenas os salões usufruíram da beleza luminosa dos lustres. As casas burguesas, antes as ricas, depois até as relativamente modestas, todas tinham seu lustre na sala, lugar da recepção aos convidados e, por que não, da ostentação.

Disseminado, o uso dos lustres atingiu quase todas as casas, como as da minha infância. E em minha memória mais recôndita, curiosamente, junto com o brilho do lustre, recordo-me de seu som quando o vento invadia a sala. Aquela música, um tilintar resultante do choque entre os pingentes, volta a meus ouvidos, como voltam tantos sons queridos.

Lembro-me também da trabalheira que dava a limpeza do lustre. Com intervalo de não sei quantos meses, chegava um dia em que a faxina da casa era tão radical que incluía a delicada e demorada limpeza do lustre. Então, uma escada bem alta era usada, por meu pai e minha mãe, para a cuidadosa limpeza de cada pingente, com um pano molhado que ia sendo passado meticulosamente em cada pecinha onde a poeira assentava sem nenhuma cerimônia e respeito pelo lustre, peça tão central e importante na decoração da casa.

Lustres em palácios, catedrais, na Confeitaria Colombo, em lojas chiques, nas gares das estações ferroviárias – era em lugares assim que os lustres luxuosos eram encontrados, jorrando sua luz intensa sobre as sombras do cotidiano ou mesmo sobre o prosaico dia-a-dia dos estabelecimentos comerciais.

Vivemos hoje o tempo das contrafações, das imitações grosseiras. O requinte dos lustres não poderia escapar disso. Nas lojas especializadas, lá estão eles, os arremedos de lustres, à espera de decoradores ou de simples compradores que viram, não se sabe bem onde –  talvez numa novela de TV -, aquela  peça central de irradiação luminosa pairando por sobre um belo jantar ou uma reunião elegante qualquer.

Já vi lustres autênticos em antiquários e em leilões. Dia desses, diante de mim, num fim de tarde luminoso, alguns raios de sol, dourados e vagabundos, atravessaram a vitrine, lançaram-se sobre as pequeninhas peças de cristal de um belo lustre e pareceram acendê-lo para uma festa como as de antigamente, nos palácios e nos salões. E eu quase pude ouvir aquela música criada pelo vento acariciando os pingentes...

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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br

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