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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 22 DE JANEIRO DE 2008

AS REZADEIRAS

Arte sobre fote de Catherine Krulik

Vivemos um tempo sem fé. Digo fé, não religiões ou seitas, que estas se multiplicam celeremente. Todo dia, novos “templos” e novas casas de oração surgem em cada esquina. Nada contra. Mas refiro-me àquela fé autêntica, àquela esperança autêntica, àquela confiança cega no advento de milagres que produzem curas de doenças, efetivas melhorias de vida, coisas assim, operadas no dia-a-dia pela mão da transcedência, na visão dos que crêem. Este tipo de fé já quase não vejo. E por isso me lembro das rezadeiras.

Onde andarão as verdadeiras rezadeiras? Creio que, mesmo nos fundões do Brasil, é difícil encontrá-las – essas sacerdotisas do cotidiano, prontas a tirar os comuns dos mortais dos seus pequenos apertos.

Minha avó rezava quebrantos, mau-olhados e machucaduras. Herdara isso de sua avó. Não era mais uma daquelas rezadeiras inteiramente mergulhadas em suas práticas curativas, mas ainda mantinha bem essa linhagem de representantes do sagrado, sendo ainda bastante solicitada pelos amigos e pelos vizinhos.

Desde que me entendi por gente, e depois já rapaz, eu me submetia às rezas de Vó Amélia, sobretudo quando surgia alguma machucadura. Alguns fragmentos de suas rezas ainda ecoam em minha memória, senão com a inteireza desse tipo de fé, que andei perdendo aí pelo caminho, mas com a magia das fórmulas das rezaduras.

Lembro-me das ocasiões em que os entrechoques nas peladas de rua, ou os tombos de patinete ou bicicleta, me presenteavam com inchaços bem doloridos e manchas acentuadamente roxas em alguma parte do corpo. Então, era “rezado” ou “benzido” por minha avó.

Interessante nessas rezas ou benzeduras é que a dimensão mágica e inefável se socorria de uma base bem material. Minha avó criava uma espécie de almofadinha com panos dobrados, que mantinha a poucos milímetros do lugar machucado, e era sobre ela que operava seus “passes de benzedura”.

“Assim mesmo te coso... Se é carne sagrada... Se te cozo com a agulha sagrada... Se é carne estragada... Se é osso torto”...

Infelizmente, a memória me trai quanto à íntegra dessa fórmula, recitada com voz ritual, monocórdia, cantante. E, enquanto entoava as palavras mágicas, minha avó ia cosendo o pano, no qual realmente enviava e tirava a agulha em que se prendia uma linha comum mas absolutamente nova, retirada para isso diretamente do carretel.

A reza continuava por bom tempo. Eu me lembro das muitas vezes em que, ao mesmo tempo em que via e ouvia minha avó fazendo sua rezadura, olhava os raios de sol da tarde decrescendo de intensidade, como decrescia a dor que a pancada tinha provocado.

Outro problema para o qual minha avó, como rezadeira, recebia muitas solicitações de benzedura era a “espinhela caída”. Muito interessante era observar como as pessoas rezadas saíam aliviadas, desempenadas, eretas, afirmando que sua “espinhela”, na verdade a espinha ou coluna vertebral, estava curada.

Podemos comparar esse tempo com o de agora, em que a coluna é tão acusada de muitas de nossas mazelas. Se não fossem os recursos científicos, não haveria, hoje, rezadeiras suficientes para resolver, com passes e rezas, o problema da “espinhela”, porque quase todo mundo que conheço reclama de problemas, mais simples ou mais complexos, com sua malfadada coluna.

E o “mau-olhado”? Esse, quase todo dia era rezado por minha avó. Quanta gente aparecia dizendo-se vítima daqueles olhares atravessados dos inimigos e dos invejosos, dos que desejavam lhes fazer mal, e que, realmente, segundo relatavam, estavam estragando suas vidas... com um simples olhar!

Ah, doces, românticas e crentes rezadeiras! Poucas autênticas restam. Em breve, não mais existirão. Então, estaremos todos condenados a receber apenas a ajuda, eficientíssima, porém nunca tão próxima da essência humana da crença, da fé, como as que proporcionavam as rezadeiras.

Quem ainda tem uma avó rezadeira, que a preserve e se socorra dela enquanto puder. E que seja mais cuidadoso que eu: decore, grave, registre as fórmulas de benzer. Assim, pelo menos no fundo da memória e da alma, terão como recorrer a essa dimensão mágica, a esse instrumento do sagrado, para quem tem fé autêntica.

Oxalá este mundo tão descosido, tão destruído pela violência, tão espezinhado pela miséria, tão vilipendiado pela podridão política, tão violentado em seus recursos naturais, ainda possa ser salvo por uma fórmula como aquela: “Assim mesmo eu coso...”.

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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