O MATA-MOSQUITOS
Montagem
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Naquele tempo, eu era apenas um menininho curioso, preocupado, como toda criança, em desvendar os segredos do mundo. Embora sua figura ímpar continue gravada fundo na minha memória com o estilete do tempo, que grava o indelével, seu nome se perdeu lá no fundo do passado. Falo do mata-mosquitos.
Era um negro retinto, de pele reluzente e um sorriso alvíssimo de dentes perfeitos. Tinha mãos enormes – pelo menos é o que ficou na cabeça deste menino a quem era sempre reservado um afago e a inevitável pergunta: - Você gosta de estudar?
Por que perguntava isso? Talvez por ver sempre em minhas mãos algum livro de histórias, gibi ou os livros do colégio. Ele mesmo, por certo, nunca terá tido a oportunidade de juntar conhecimento à sua imensa sabedoria prática.
Era elegante, muito elegante em sua farda de brim cáqui. Na cabeça, um quepe do mesmo tecido, porém enfeitado com pala e aba de material plástico preto reluzente, que era o próprio símbolo da autoridade. Uma autoridade incontestável, mas exercida com suavidade, sempre entremeada de sorrisos.
Trazia um equipamento: um pequeno tanque de metal do qual saía uma mangueirinha com bico na ponta. E era com esta espécie de beija-flor mecânico que ele percorria o pequeno jardim de nossa casa pobre de subúrbio.
Era hábil e meticuloso em seu trabalho. Com a mão esquerda, apertava uma espécie de êmbolo na tampa do tanque, enquanto, com a direita, ia fazendo o bico penetrar nas frestas, nos espaços por detrás dos vasos cultivados com tanto carinho por minha mãe, e entre as plantas, no canteiro.
Então, vaporizava tudo, metodicamente, com destreza e rapidez. E um cheiro forte inundava o ar. Um cheiro que ainda está aqui comigo, em minhas narinas, quando relembro, mas que não sei dizer de que mistura de substâncias químicas emanava. Para mim tinha, naquela época, e tem ainda hoje, o odor do mistério.
Eu ficava um pouco afastado, seguindo seu conselho dado de forma suave, com a didática dos que desejam ensinar sem impor. Explicava então, com carinho, que aquela mistura de cheiro forte era venenosa, porque se precisava matar os mosquitos, que os mosquitos traziam doenças, que eu precisava crescer e me manter forte e saudável, pois que gostava de ler e com certeza e ainda iria ser um doutor... E por aí seguia, procurando meticulosamente as larvas de mosquito, enquanto me falava dos caminhos do meu futuro.
Não havia em seu espírito, em seu rosto, em suas mãos, os traços da raiva de um exterminador. Agia como se estivesse integrado à cadeia predatória da natureza, na qual a extinção dos mosquitos transmissores de doenças, pelo animal humano, é absolutamente necessária e urgente.
Mas se mantinha sempre calmo, com um sorriso permanente estampado no rosto.
Às vezes, quando se demorava um pouco mais no seu trabalho, cantava. Deviam ser modinhas antigas, porque nunca reconheci nelas aquelas músicas que eu, um contumaz ouvinte de rádio, vivia escutando.
Embora seu trabalho, e até o título de sua função, dissessem respeito aos mosquitos, quase sempre estendia seus conselhos às ratazanas, às baratas, e mesmo aos cuidados com a higiene. Lembrava que eu devia sempre lavar as mãos, sobretudo depois de mexer com a terra do quintal ou de chegar, imundo e suado, das intermináveis peladas jogadas na nossa rua de terra batida.
Depois de encerrar seu trabalho, o mata-mosquitos colava atrás de uma das portas um certificado de vistoria. Eu, de vez em quando, olhava aquele papel encimado pelo timbre oficial, cheio de retângulos onde ele inscrevia clara e cuidadosamente a data da visita e a próxima em que voltaria. E gostava de pensar que, daí a meses, o amigo mata-mosquitos viria novamente.
O mata-mosquitos, aquele negro elegante, gentil e sábio em seus conselhos e observações, que dignificava e tornava literal a expressão “servidor público”, desapareceu na voragem do tempo. Porém, ficaram para sempre as frases curtas que me dizia, as orientações que dava e o exemplo que significou.
Eu poderia dizer, caro leitor, que nada mais ficou. Infelizmente, ficaram os mosquitos, que continuam por aí, picando, inoculando e transmitindo doenças.
Será que, pelo menos, aquele mata-mosquitos, estará num céu sem pernilongos? Se estiver, ele mereceu.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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