ESTRELAS DA TERRA
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Fogos de artifício são as estrelas da Terra. Claro, não se comparam à majestade das estrelas do espaço infinito. Mas, reparem: compõem, aqui perto de nós, um espetáculo em ponto menor que também nos encanta pela beleza efêmera das luzes que nascem e morrem, do brilho intenso que logo dá lugar à escuridão.
Onde terá nascido, de fato, o fascínio por essas luzes brilhantes e encantadoras? Sabemos que os fogos de artifício foram um presente dos chineses, com sua alma de povo oriental mergulhada em espiritualidade, porém combinada com a praticidade dos inventores de coisas, inclusive da pólvora.
Mas o fascínio vem de antes, de muito antes. Ele nasceu, com certeza, quando o primeiro ancestral humano, além de descobrir o fogo e torná-lo um dos mais eficazes instrumentos da civilização, deixou que seu olhar e seu coração de poeta se enlevassem com o brilho do fogo, primeiro num incêndio que consumia a campina, depois no bastão incandescente que tinha em sua mão.
Fogo encanto. Fogo divindade. Fogo ajuda inestimável: para cozinhar, para aquecer, como arma eficaz. E fogo para iluminar, tanto como utilidade quanto como beleza.
Talvez, mais precisamente, aquelas fagulhas que saltavam, indomadas, de um tição da fogueira tenham inoculado na mente ainda em formação dos hominídeos a paixão que mais tarde criaria os fogos de artifício.
Em muitos lugares pelo mundo, nas mais variadas cerimônias, os fogos de artifício desempenham papel central. Não obstante, em nenhum lugar essa moderna cerimônia com fogos adquire a grandiosidade dos espetáculos de pirotecnia realizados na passagem do ano, no Brasil, e especialmente nas praias do Rio, tendo à frente Copacabana.
Tempo e fogo: duas coisas fascinantes para os seres humanos. Pois nesses espetáculos elas se reúnem.
A contagem regressiva que esgota, simbolicamente, o ano que finda e anuncia um ano novo mobiliza multidões. São minutos que arrepiam, desde os céticos até aos que acreditam numa renovação completa de tudo, como se um novo ano representasse não apenas um registro de calendário mas também uma limpeza, uma quitação, um ajuste de contas favorável com o ano que fica para trás.
O fogo dos fogos de artifício também traz a idéia de depuração. Além da beleza imensa, o espocar dos fogos e seu brilho maravilhoso regravam, no coração e nas mentes das pessoas, a marca da esperança, que aliás é indelével: ela pode estar aparecendo apenas tênue ao final de cada ano, mas fica renovada com essa cerimônia de luzes, brilhos e cores.
Aos poucos, sobre o fundo de veludo negro da noite, os fogos de artifício - essas estrelas da Terra que imitam as estrelas do infinito - vão fazendo desabrochar, aqui e ali, flores de luz. Logo, são muitas as luzes, as cascatas de brilho intenso, as explosões, os silvos e o ribombar de trovões controlados.
Então, o céu se ilumina completamente; nossas estrelas da Terra se refletem no espelho mágico das águas do mar ou de lagos e lagoas por esse Brasil afora. Neste momento, somos todos a própria esperança, e talvez encarnemos a mesma esperança daqueles nossos ancestrais fascinados com o fogo. E o calor dos fogos no céu se transmuta no calor dos abraços entre os humanos que assistem a esse espetáculo inigualável.
Poucas coisas me parecem tão lindas quanto o reflexo do brilho dos fogos de artifício nos olhos de uma criança. É como se os fogos, essas estrelas da Terra, trouxessem aqui para perto de nós o brilho de todas as estrelas lá do espaço infinito, onde é permanente o espetáculo dos fogos de artifício da Criação. E esse brilho transforma-se numa poderosa centelha de esperança.
Oxalá o brilho e as cores das nossas estrelas da Terra penetrem fundo, como esperança, bondade, amor, em nossos corações, e assim permaneçam por todo o Ano Novo.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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