E SE TUDO FOSSE AO CONTRÁRIO?
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E se tudo fosse ao contrário?
E se este teclado onde escrevo a crônica me escrevesse? O que, e como, diria de mim, vingando as horas e horas em que o fustigo sem dó, buscando a palavra justa e a frase perfeita?
E se este copo me bebesse? Seria eu um conteúdo líquido palatável, ou lhe daria uma ressaca daquelas, fazendo-o jurar que não beberia mais?
E se o automóvel nos guiasse? Dirigiria ele por outros caminhos, ao léu, fugindo espavorido para lugares amplos, por estradas desimpedidas, cruzando paisagens verdejantes, bem diferentes dos enfumaçados engarrafamentos em que o metemos?
E se os celulares telefonassem quem fala neles? Sua vingança provavelmente seria falar só coisas profundas e importantes, com voz pausada e frases pensadas, longe das bobagens, maledicências, inutilidades, intrigas e falsidades para as quais são muito utilizados.
E se os alimentos nos comessem? Será que o fariam com vagar e consciência do que estivessem ingerindo, ao contrário desse engolir de fast food, que faz da alimentação apenas uma obrigação em meio à correria do cotidiano?
E se os cães passeassem seus donos? Será que os arrastariam pelas coleiras insensivelmente, os censurariam por latir, por atender ao cio ou por tentarem pura e simplesmente ser felizes como animais? Será que os vestiriam ridiculamente com roupinhas para cães, e conversariam com eles, como se eles fossem um receptáculo obrigatório, inteligente e paciente, para suas mazelas de gente?
E se nós acordássemos os despertadores? Será que eles acordariam de péssimo humor e ficariam com vontade de nos quebrar a cara pela interrupção daquele sonho maravilhoso que jamais teriam outra vez?
E se as ruas, avenidas e estradas nos andassem? Será que elas nos caminhariam assim automaticamente, sem perceber que ao caminhar construímos os caminhos, e os fazemos maus ou bons?
E se as flores nos florescessem, como seria? Será que elas sentiriam em nós algum perfume e ficariam pasmas diante de nossas cores? Ou será que só veriam em nós negrume e espinhos?
E se os pássaros nos cantassem e se, para conseguir isso, nos mantivessem no cativeiro de gaiolas diminutas, sem que pudéssemos ouvir nosso canto ecoando na amplidão dos campos, entre as árvores, com a cumplicidade do murmurejar dos riachos?
E se as camas nos dormissem, suportando a agitação de nossas insônias, como seria isso?
E se os instrumentos nos tocassem? Que aconteceria se descobrissem nossa desafinação na vida, nosso som abafado, nossos timbres fracos?
E se os livros nos lessem, como nos decifrariam?
E se as palavras nos falassem, seríamos poesia ou linguajar grosseiro?
E se a chuva nos chovesse, encontraria ela, em nós, as gotas das lágrimas e as nuvens de preocupação? Será que haveria ao fundo raios e trovões nos tornando assustadores?
E se tudo fosse exatamente assim, ao contrário, isso poderia ser o certo?
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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