BEIJOS
Beijos são sublimes. Qualquer beijo tem a essência do amor, mesmo quando escondido por detrás da volúpia, ou quando oculta a traição, pois a verdadeira substância do beijo é a verdade dos sentimentos, escondida muitas vezes daqueles que beijam.
Lábios que tocam a pele fazem sempre dois contatos: um físico, outro transcendente. E ambos têm ingredientes impossíveis de medir ou sequer entender completamente.
Em sua dimensão física, o beijo não somente embarca os que o praticam numa viagem de sensações. Mais que isso, transforma quem beija num receptor de delícias e num ofertante de gostosuras, traduzidas, em quem beija e em quem é beijado, num turbilhão que é, ao mesmo tempo, tato, olfato e visão – que enxerga paraísos tão completos que não podem ser confinados apenas nos limites das sensações corporais. Beijar é viajar com o corpo para muito além do corpo.
A dimensão transcendente é a própria alma do beijo. Ao se beijar, não se está de fato aqui; está-se voando entre as nuvens do desejo transformado também em pensamento; ou contemplando, com os olhos do espírito, as paragens onde se encontram o carinho, o afeto, a amizade, a ternura.
Beijar a fronte é dignificar o beijo, envolvendo-o, ao mesmo tempo, nas sedas dos cuidados. É assim que mães e pais beijam seus filhos.
Beijar o corpo inteiro em meio ao ato de amor é tentar matar a sede no oásis da satisfação do desejo, enquanto se sofre com o sol abrasador do areal de paixão em que se mergulha.
Os que beijam sem sinceridade não estão de fato aí, no beijo; perderam-se há muito nos descaminhos da mentira, que os seqüestra, arrancando-os do lugar de verdade onde o beijar habita; estão condenados a morar para sempre nas cavernas escuras da falsidade.
O beijo leve, na face, aquele reduzido ao gesto mecânico popularizado como cumprimento, mesmo esse contém todas as virtudes do beijo. Observe que ele assusta os que não estão preparados para a efusividade contida nessa forma de saudação. É por isso que tal beijo não impera onde a cultura impôs a camisa-de-força da formalidade.
O beijo pode simbolizar a indignidade, como o beijo de Judas. Porém, esse não é um beijo realmente; é antes uma punhalada, que assassina mais ainda quem beija do que quem é beijado.
Lamentável é quando o beijo se banaliza, numa ambigüidade que tenta, por um lado, manter a sublimidade do beijo e, por outro, multiplicá-lo e transformá-lo apenas numa seqüência vazia de contatos físicos empobrecidos ao máximo pelo desconhecimento quase total de quem é beijado.
Beijos assim parecem uma tentativa desesperada de achar a verdadeira essência do beijar, que não obstante fracassa, porque essa dimensão essencial foge levada pelo vento da promiscuidade.
O verdadeiro beijo é entrega. É risco. É doação e aceitação.
O beijo consola os aflitos, ameniza dores físicas e morais, alegra os tristes, soergue os deprimidos.
Perder-se num beijo é encontrar-se com alguém lá no mais fundo das duas almas, onde a verdadeira humanidade de cada um se aninha, e onde a dimensão da humanidade com o outro se constrói.
Não há como o beijo para celebrar a paz – dos sentidos, da cessação de desavenças, ou simplesmente, como uma forma indireta de fazer as pazes consigo mesmo. É por isto que até os maiores celerados beijam e se deixam beijar...
Pobres dos que não beijam. Coitados dos que banalizam o beijos. Ai dos que os negam, ridicularizam, corrompem, aviltam. Esses impedem que a essência amorosa dos verdadeiros beijos penetre em sua vidas, tornando-as mais amorosas e mais deliciosas.
Hoje se beija até em série, no automatismo do “ficar”, que é pouco exigente e nega o compromisso no jogo dos afetos. Que pena!
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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