OS VIZINHOS, ONDE ESTÃO?
Onde estão os vizinhos? Não falo desses que, embora morando no mesmo prédio, ou às vezes no mesmo andar, são para nós na verdade ilustres desconhecidos. Falo dos verdadeiros vizinhos, aqueles do passado, que dignificavam o que chamamos convivência, o “viver com”.
Distância com freqüência nada tem a ver com proximidade ou distanciamento físicos. Estar de fato perto é uma coisa misteriosa, e o estar longe também. Por isso, no campo, um vizinho podia estar a léguas de distância mas absolutamente próximo do coração, o lugar na gente onde a vizinhança pode se transformar em amizade.
Na cidade, vizinhos eram de porta com porta, ou de janela com janela. Essa proximidade forjou a imagem dos vizinhos bisbilhoteiros, aqueles que metiam o nariz na vida alheia, mas com uma recíproca verdadeira.
Não obstante, a vizinhança criava, também, verdadeiras famílias ampliadas. Irmão, filhos e primos de uma família misturados com os das outras famílias, num amálgama fascinante. Isto fazia com que a partilha de felicidades, angústias, sonhos e realizações familiares se espalhassem, envolvendo também os vizinhos.
Vizinhos nos traziam exemplos. Encarnados nessa gente tão próxima, exemplos se transformavam em eficazes ensinamentos a seguir ou a evitar. “Aquele filho do vizinho que bebe, fujam dele!” “Vejam aquela filha da vizinha, que sirigaita!” “O filho da vizinha tem boas notas, e não esse boletim cheio de notas baixas de vocês!” E iam por aí os avisos e conselhos baseados nos vizinhos.
Vizinhos se integravam à nossa vida; passavam a fazer parte dela quase como íntimos. Casamentos, nascimentos, batizados e separações nos mobilizavam. Era muito comum que os vizinhos participassem mais desses acontecimentos que os parentes, geralmente morando mais distantes.
Quando aconteciam mudanças de vizinhos para outros bairros, era uma comoção, muitas vezes regada a lágrimas. Quase sempre, os vizinhos participavam desse bota-fora ajudando a carregar as tralhas dos que se mudavam. E era muito comum que lembranças fossem deixadas com os vizinhos. Vasos de plantas, por exemplo, em geral tinham esse destino, ficando os vizinhos incumbidos de manter vivos e viçosos aquele comigo-ninguém-pode, aquela samambaia, aquela espada-de-São-Jorge...
E, mesmo depois que se mudavam, os vizinhos continuavam presentes em nossa existência. As visitas, de parte a parte, aconteciam, muitas vezes anos a fio e, em casos extremos, por toda a vida.
Novos vizinhos, em geral, apesar de demonstrações superficiais de simpatia inicial, eram recebidos com certa desconfiança. Mas somente até que o conhecimento se aprofundasse e a integração se desse. Então, o ciclo do relacionamento com vizinhos recomeçava com os novos moradores.
Onde estão vizinhos assim hoje? Apesar da proximidade física - porque os novos apartamentos obrigam agora a uma convivência forçada em espaços diminutos - aquela proximidade física, e mesmo simbólica, do passado quase nunca se estabelece. Nossos vizinhos de porta não são de fato vizinhos, nem os de andar, muito menos os de prédio. Mesmo nas alamedas de condomínios – que de certo modo procuram substituir a convivência que havia nas ruas de bairros – não temos vizinhos. Toda essa gente, a quem cumprimentamos por obrigação, é de fato desconhecida; sua vida é opaca para nós, como somos indevassáveis para todos eles.
A pressa, a insegurança, ou o simples desinteresse, nos impedem de construir a vizinhança, como ela era realmente construída no passado, com os tijolos da amizade e a argamassa do interesse e das vidas que se entrelaçavam na real convivência humana, com suas alegrias, confianças e desconfianças, brigas, confraternizações, sofrimentos e felicidades partilhadas.
Para mim, os símbolos máximos da vizinhança ficaram sendo o ovo, o sal e o fermento. Entre vizinhos, era comum pegar um ovo com D. Fulana, emprestar um pouco de sal para D. Sicrana, ou garantir o fermento em cima da hora de alguma vizinha fazer o pão ou o bolo. E, quando os pratos ficavam prontos, aos vizinhos era garantida sua parte. Depois de provar, lá vinha a vizinha trazendo de volta o prato que levou o pedaço de bolo. Nele, uma gostosa fatia de pudim e muitos elogios, que encarnavam o verdadeiro espírito da vizinhança.
Onde se encontram vizinhos assim hoje em dia?
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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