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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 11 DE SETEMBRO DE 2007

AS COISAS PELO CHÃO

Montagem sobre foto

Quando caminhamos pela rua, nosso olhar pode ser altivo, aquele olhar firme, perscrutador das coisas e das pessoas, olhar próprio dos conquistadores, dos fazedores, dos que agem.

Mas nosso olhar pode ser também um olhar que esquadrinha o chão, como o olhar dos envergonhados, ou dos tímidos, ou dos que fazem dos olhos que vêem o instrumento de contato direto entre seu próprio interior e o mundo cá de fora. Este é o olhar dos meditativos, ou simplesmente dos que sentem prazer na sintonia que pode estabelecer-se entre o que se vê e o que se sente; entre o que se apresenta ao olhar e o que o pensamento faz com o que é apresentado, reconstruindo, reinterpretando, reinventando ou revestindo com o manto da imaginação. Este é também, claro, o olhar dos poetas.

Sem a profundidade dos meditativos, e menos ainda sem a pretensão de ser poeta, gosto de lançar esse segundo tipo de olhar quando ando pelas ruas. E ele me traz uma miríade de coisinhas singelas que a visão vai colhendo pelo chão, e que acabo transformando em pretexto para divagações.

Vejo palitos de fósforo, embora cada vez menos depois do advento dos isqueiros descartáveis. Riscado, cumprida sua missão, lá está um palito, numa reentrância da calçada. Quem o terá usado? Um velho e inveterado fumante, para misturar suas recordações com gostosas baforadas? Uma mulher de meia idade, que usa os cigarros para tentar atenuar dores de amor? Ou algum rapaz ou moça, fumante novato que reedita, no gesto de fumar, sua necessidade de pavonear-se diante da parceira ou do parceiro, ou de simplesmente ingressar e manter-se na “turma”?

Aos palitos, seguem-se as pontas de cigarro, que suscitam essas mesmas reflexões, além da mais terrível: para que câncer terão contribuído? Caídas ali na calçada, essas guimbas não têm mais o glamour que contém o cigarro inteiro, soltando sua fumaça entre dedos longos que os sustentam com elegância. Ficou apenas o resto da armadilha química que representam.

Vejo latas de cerveja ou de refrigerante – as que escapam à rapidez dos catadores. Íntegras ou amassadas, lá estão em seu alumínio pintado com cores fortes e apelativas dos fabricantes. Quem a terá bebido dessa lata de cerveja? Lançada de um carro a quem terá ajudado a toldar os sentidos e, talvez, embaraçar os reflexos? Uma de refrigerante, a quem terá engordado um pouquinho mais? Também, em ambos os casos, como terá a bebida simplesmente se transformado em prazer, compensando malefícios e riscos?

Palitos de sorvete. Quando os vejo, sabe o que provocam em mim? A nostalgia dos dias mais quentes do verão.

Há pouco tempo, vi uma chupeta. Era linda em seu plástico cor-de-rosa iluminado ao sol. A que bebezinha terá pertencido? Fantasio que fosse muito clarinha e de cabelos louros encaracolados. Lá ficou a recompensa enganosa da menininha, oferecida talvez em lugar do seio farto e insubstituível ou da mamadeira que pelo menos alimenta.

Dia desses vi uma camisinha. Terá protegido? - logo pensei. Tomara que sim.

Às vezes, essa “garimpagem de olhar” mostra surpresas. Passando numa pracinha, um novelo de lã azul apareceu-me caído ao lado de um banco. Imediatamente, me veio a imagem de uma vovó que tricotava para um netinho. Onde estaria essa vovó agora? Teria dado pela falta entre seus novelos? Os sapatinhos ou o casaquinho teriam sido acabados? Já estariam sendo usados? Confesso que também gostei de ver que ainda há quem tricote nas pracinhas...

Outra agradável surpresa foi encontrar uma bola de gude entranhada numa rachadura da calçada. Essa me abaixei para pegar. O contato com sua superfície geladinha de vidro e a visão de sua superfície amarela e translúcida levaram-me, imediatamente, para o gostoso tempo dos jogos da minha infância.

Papéis há sempre muitos, de variadas cores e formas. Gosto de imaginar que, juntos, poderiam formar um belo caleidoscópio de papelada. Apesar de lembrar quantas belas árvores terão sido derrubadas para abastecer nosso desperdício...

Plásticos estão igualmente por aí, pelo chão, em grande quantidade. Quando a vassoura caprichosa dos garis não os consegue remover, eles permanecem ali, firmes, como pedacinhos coloridos não degradáveis. Desagradável constatar, mas muitos artefatos plásticos como esses levarão mais tempo para se desfazerem que a duração de nossa própria vida...

Lindas, espalhadas pelo chão, são as folhas. De tamanhos, cores e formatos diversos, trazem um romantismo de beleza natural às calçadas, como um presente para os nossos olhos oferecido para a natureza que se renova.

Quando puder, caro leitor, experimente esse olhar para as coisas pelo chão. Com certeza descobrirá seu próprio tesouro, feito de lixo, lembranças e imaginação.

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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