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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 4 DE SETEMBRO DE 2007

E Se a Gente Pudesse?

E se a gente pudesse andar por aí atento somente à beleza da paisagem e ao rumor do vento, sem a preocupação com a violência?

E se a gente pudesse percorrer ruas e calçadas, sem o furor ameaçador de ônibus, vans, automóveis, motos, e sem que a falta de educação e de sensatez deixasse tão pouco espaço para nossa passagem?

E se a gente pudesse andar no transporte coletivo apenas olhando pela janela a beleza da cidade, de prédios monumentais ou de casas simples, sem o temor mais do que justificado dos assaltos?

E se a gente pudesse, ainda, ouvir o cantar de pássaros no momento em que a tarde desmaia, ao invés de apenas ensurdecer com a barulhada, muito além do necessário e do tolerável, que nos envolve?

E se a gente pudesse conversar com amigos, colegas e conhecidos sem que eles, atracados a seus celulares e se contorcendo em busca de um bom sinal, deixassem de ouvir de fato o que dizemos e  de nos olhar, olhos nos olhos?

E se a gente pudesse sentir somente o perfume de flores nos jardins das praças, sem que as narinas fossem aspiradores de sufocação, na inalação da fumaça, e sensores do fedor de montes de lixo, do mau cheiro que reflete tanto a insensibilidade quanto, sobretudo, a falta de higiene espalhada por aí?

E se a gente tivesse tranqüilidade para ver sair e voltar de casa maridos, esposas, filhos, amigos, colegas, sem a constante angústia de pensar que eles possam ter um encontro marcado com a morte por tiros certeiros ou balas perdidas?

E se a gente pudesse fazer coisas gostosas e baratas, como ir à praia, sem ter de driblar as fezes que bóiam na água, ou fugir do assédio dos camelôs, ou correr dos arrastões na areia?

E se a gente pudesse cultivar nossa vaidade ancestral da espécie, usando colares, pulseiras, anéis, relógios e trecos que nos agrada exibir, sem que mãos larápias os viessem roubar?

E se a gente pudesse comprar confiantes – coisas para usar ou para comer -, sem ser enganados pelos gananciosos, iludidos pelos mentirosos ou envenenados pelos inescrupulosos?

E se a gente pudesse ler jornais, ver televisão e ouvir rádio, sem se sentir idiotizado ou agredido pela absoluta má qualidade de programas, falta evidente de conteúdo e utilização de linguagem chula e deseducativa?

E se a gente pudesse ver e ouvir coisas brasileiras com mais freqüência, ao invés da enxurrada de baboseiras e do lixo impingido pela indústria cultural estrangeira?

E se a gente pudesse passar mal e ser atendido na rede pública de saúde com o mínimo de pressa, gentileza e competência, ao invés de mofar em filas de hospitais e postos de saúde, tendo de brigar não somente com o sofrimento e a dor, mas também com a insensibilidade, a precariedade das instalações e a falta de aparelhos, material e medicamentos?

E se a gente conseguisse ver, realmente, a aprendizagem séria e densa acontecendo em escolas e universidades, públicas e privadas, ao invés do descalabro que nos empurra cada vez mais na direção da vala comum dos povos analfabetos, precariamente preparados e tecnologicamente atrasados?

E se a gente ainda pudesse votar e ver eleitos homens e mulheres dignos, que fizessem do cuidado e empenho com a coisa pública seu ideal, ao invés de transformá-la no pote cheio para saciar sua sede de poder, ou numa arca lotada com o dinheiro do povo que pode ou deve ser saqueada?

E se não fosse tudo assim como está sendo?

E se a gente ainda pudesse ter esperança?

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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