Nobreza do Bronze
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O bronze talvez seja o mais nobre dos metais. Sua textura, brilho e resistência tornam-no único, tanto na dimensão utilitária quanto sob a visão da arte.
Esculturas em bronze povoam a história humana desde a Antiguidade. E, antes disso, uma Idade do Bronze marcou importante fase da história cultural da humanidade.
A história da guerra também se fez com o ferro e o bronze, antes que o moderno aço se impusesse. Não obstante, isto não dispensou o bronze de seus papéis de resistência combinada com maciez, para a construção de artefatos e de armamentos.
Escudos de bronze também acompanham o homem nas suas refregas milenares. Elmos e armaduras povoam tanto a dimensão guerreira da convivência humana quanto a dimensão imaginária, em que igualmente vivem os guerreadores.
Mesmo nas cidades modernas, são de bronze as estátuas, de bom ou de mau gosto, que habitam as praças. É sobre o bronze que os pombos e os pássaros despejam sua iconoclastia em forma fecal, que escorre e suja, ridicularizando os monumentos a heróis de meia-tigela e as poses de risíveis ditadores.
Somente o ouro e a prata rivalizam com o bronze.
O ouro, com sua escassez e brilho, ganhou a condição do metal por excelência cobiçado. É belo e valioso, mas se ganhou em suntuosidade perdeu em nobreza.
A prata, igualmente escassa e também brilhante e objeto de cobiça, apresentou-se especialmente como o suporte metálico das moedas e das imagens e peças sacras em geral. Ou seja: objeto de cobiça em termos de dinheiro e poder na Terra e alvo de desejo por encarnar as representações sagradas.
Porém, nenhum desses dois metais internalizou mais a dimensão de nobreza como o bronze. Até a luz do sol, esbatida no bronze, parece ganhar uma luminosidade ímpar e nobre.
Por que será, então, que o bronze, sob a forma de medalha, não é tão respeitado como deveria? Aos que chegam em primeiro lugar, entrega-se o ouro; a prata, aos que vêm logo depois, no honroso segundo lugar. Ao bronze, deu-se a missão de homenagear os que chegam em terceiro. E estes quase sempre não parecem tão contentes com o bronze que lhes enfeita o peito.
Raramente se observa uma vibração condizente com a honra de um terceiro lugar. Quase nunca é demonstrada a satisfação com essa posição. O que se vê quase sempre é uma contrariedade mal disfarçada, que parece afirmar que “dois tiveram melhor desempenho”.
Observem em qualquer competição, agora mesmo no PAN. Os que alcançam o terceiro lugar no pódio muito raramente demonstram satisfação equivalente a dizer ou pensar que “muitos se colocaram em quarto, quinto, sexto etc lugares”.
Os medalhistas de bronze, regra geral, parecem tão contrariados com a perda do primeiro ou do segundo lugares que deixam o constrangimento abafar um grito de vitória, esquecendo-se de que a vitória não está apenas lá no lugar mais alto, ou um pouco abaixo, no segundo lugar. Ela se espalha, se dissemina por todo o pódio, fazendo do terceiro também um lugar de honra.
No mundo em que vivemos, a competição destrutiva, nada salutar, se tornou profissão de fé – nos negócios, no trabalho em geral, nas escolas e faculdades, na política, e até na arte ou mesmo no furor proselitista das religiões. Com isto, chegou-se ao paroxismo representado na frase: o primeiro é o primeiro, os demais não são ninguém.
Meditem sobre isso, atletas e demais competidores em geral. Tentem resgatar no esporte a nobreza do bronze, o que significa homenagear também aqueles que, a despeito de seus esforços – muitas vezes até maiores que o dos vencem ou ficam em segundo lugar – acabam ficando com o terceiro lugar.
Respeitar e festejar a nobreza das medalhas de bronze é respeitar e homenagear todos os que competem e perdem com dignidade. Ou melhor, não perdem; ganham a dignidade dos que quase chegaram lá; dos que foram vencidos pelos detalhes, ou por golpes de má sorte, ou pela preparação insuficiente, ou sabe-se lá o porquê.
Nobre é o bronze. Nobres são os que ostentam com orgulho o bronze de suas conquistas, que acaba sendo uma liga nobre de perseverança, amor à competição sadia e amor ao esporte, temperada pelo respeito a toda a condição humana, esteja ela em que lugar estiver no pódio da vida.
Parabéns aos medalhistas, especialmente aos que conquistaram suas belas e grandemente significativas medalhas de bronze.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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