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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 21 DE AGOSTO DE 2007

Marcas da Vida

Não sei se o leitor sabe o que é um leilão residencial. Trata-se daquela modalidade de leilão feita quando alguma família resolve leiloar seus bens, inclusive a casa onde reside. E funciona assim: o pessoal do leiloeiro cataloga cuidadosamente tudo na residência. Cada objeto é numerado e um catálogo é produzido, descrevendo-lhe as características, indicando-lhe as qualidades e também, quando é o caso, apontando-lhe os defeitos. Entre estes, por exemplo, a quase imperceptível rachadura numa peça de porcelana, que é eufemisticamente denominada “fio de cabelo”.

Em seguida, a casa é aberta à visitação para exposição das peças aos interessados. Nesta fase, a intimidade da família é devassada. O que era um espaço privado transforma-se num espaço público em relação aos potenciais compradores.

Geralmente, leilões assim são promovidos pelos herdeiros após a morte dos donos da casa. Porém, cada vez mais freqüentemente, as dificuldades estão levando as pessoas a essa solução mesmo em vida. Em alguns poucos casos, esse para mim tão cruel “desnudamento” chega a se dar na presença de um idoso ou de uma idosa, que ainda colabora, enaltecendo o que está sendo leiloado.

Percorrer uma residência em tais circunstâncias me causa constrangimento e, geralmente, tristeza. Ali estão objetos colecionados durante uma vida inteira. E a própria casa dá a medida do que eram e o que faziam aquelas pessoas. Muitas vezes é um apartamento imenso, um espaço antes ocupado pelo fausto, pela riqueza. É muito comum ver a divisão “classista”: uma área nobre, lugar dos donos da casa, e uma área destinada aos empregados. Certas residências têm cozinhas maiores que a área inteira de um apartamento comprado hoje a duras penas pela classe média: dispensa imensa; lavanderia colossal; vários quartos para empregados domésticos, para motoristas e para um mordomo, e por aí vai.

Tudo está ali, diante dos nossos olhos, exposto ao toma lá, dá cá mais elementar da troca financeira. Quem ontem teve tudo, hoje precisa de quase tudo, sujeitando-se a vender sua vida passada traduzida em seu lar com os objetos que o compõem.

Quando percorro um espaço assim, no caso de donos já falecidos, parece-me que sinto a presença deles. Quase posso vê-los aqui ao observar um quadro na parede. Quando o compraram? Por que o fizeram? De que gostavam nessa obra?

Aquela vetusta mesa de jacarandá, que tipo de refeições foram feitas nela? De que se falou? Quem se sentava nas belas cadeiras em torno dela? Quantas ceias de Natal aconteceram aí? Quanto aniversários foram aí comemorados? Mas também a quantas desavenças familiares esse mobiliário assistiu, e a quantos riscos o cristal grossíssimo sobre o tampo da mesa foi exposto por socos dos mais exaltados?

Aquele relógio de pêndulo na parede, disciplinado mecanismo, alheio à duração da vida das pessoas – tão breve, tão fugaz -, continua com seu tique-taque implacável, marcando a passagem do tempo.

As molduras de retratos, com finos entalhes na madeira nobre circundada de prata, que fotografias terão contido? Em alguns casos, os donos da casa lá estão também retratados em pinturas. Seu olhar altivo ainda se mantém, vindo do tempo em que mandavam, influenciavam, eram respeitados e talvez reverenciados – no tempo em que tinham fortuna e poder...

Algumas vezes, nos imensos armários dos quartos, ainda se podem ver os vestidos e as casacas. Em que festas terão vestido seus donos?

As malas de viagem também levam a pensar: onde terá ido essa gente? Que paisagens essas pessoas terão visto, que países e cidades terão visitado, em que hotéis terão se hospedado?

Uma coisa me comove em particular. Freqüentemente, essas residências têm um ou mais daqueles bonitos sofás antigos, imensos, cujo couro resiste bravamente à passagem do tempo. Meu olhar se detém nas almofadas. Quase sempre, numa ponta desses sofás, ou mesmo numa poltrona menor, a almofada do assento guarda, para sempre, uma depressão, uma parte mais afundada. Este é o indício de que ali, exatamente naquele lugar, o corpo de alguém se sentava. Era seu lugar preferido. O cantinho da dona da casa, para ver TV ou tricotar; ou o lugar, onde o dono da casa, enérgico, empreendedor, dinâmico, muitas vezes poderoso, na dimensão pública, escolhia para seu descanso, para ler os jornais, para usufruir sua vida privada, ao abrigo do mundo lá de fora.

O prosaico dessas depressões nas almofadas guarda, portanto, indeléveis, marcas da vida. Uma vida física que, quase sempre, já se foi, mas que ao mesmo tempo permanece ali, revelando-se em sua crueza e mostrando postumamente os que deixaram essas marcas.

Em momentos assim, gosto de pensar o quanto são importantes as marcas que deixamos pela vida. Não somente marcas como essas, físicas, mas especialmente as marcas simbólicas que retratarão o que fomos. Marcas na memória de nossos filhos, parentes, amigos, colegas, empregados; marcas nos textos que deixamos, nos ouvidos que nos ouviram, nos corpos que nos tocaram...

Cuidemos das marcas que deixamos. E regojizemo-nos por podermos deixar tais marcas. Pois triste demais é não deixá-las, mergulhando sem rastros no esquecimento.

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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