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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 26 DE JUNHO DE 2007

Do Engenho ao Engenhão

Um dos estádios que estão sendo construídos para as competições dos Jogos Pan-americanos ganhou o nome de um conhecido dirigente esportivo brasileiro, que foi por longos anos presidente da CBF e chegou a presidente da FIFA. Mas o carioca, com sua alma crítica e irreverência habitual, sapecou-lhe um apelido, pelo qual será conhecido para sempre: Engenhão.

O nome vem do bairro onde o estádio se situa: Engenho de Dentro. Pelas imagens que tenho visto na TV, e pelo que pude observar dia desses passando à noite pela Linha Amarela, trata-se de uma bela construção, com suas linhas modernas, arrojadas, sobressaindo em meio ao mar de casas e prédios suburbanos.

O Rio de Janeiro, desde a época do Brasil Colonial, seguiu os padrões da colonização portuguesa, que dividiu a terra descoberta em sesmarias. Estas imensas extensões de terra, para grandes plantações - no sudeste com cana-de-açúcar e depois com absoluto predomínio do café - acabaram gerando as subdivisões em enormes fazendas. Estas, por sua vez, com a marcha da urbanização, foram sendo retalhadas em áreas menores que, por sua vez, originaram os bairros.

O nome “Engenho de Dentro” originou-se da existência de um grande engenho naquelas terras. Essa obviedade comprova a determinação cultural e sócio-econômica dessas unidades produtivas, tão bem visitadas, literariamente por José Lins do Rego e sociologicamente por Gilberto Freyre.

Duas outras instituições marcam a história do Engenho de Dentro. A primeira foi a Estrada de Ferro Central do Brasil, que até o advento da República era a Estrada de Ferro Dom Pedro II. A ferrovia, iniciada em 1858, teve sua maior oficina situada no Engenho de Dentro. Aliás, o Engenhão foi construído justamente no grande terreno onde ficava essa oficina.

A outra instituição foi o hospício criado em 1852, que igualmente homenageou o imperador, recebendo seu nome, denominação que, com a mudança republicana, foi alterada para Hospício Nacional dos Alienados.

Vemos que o bairro tem história. E me parece interessante essa longa trajetória desde o engenho até o Engenhão. Vejo aí, metaforicamente, a cara do Brasil, surgida lá longe, nos tempos remotos da escravidão. O gemido da moenda dos engenhos era o mesmo gemido da dor das chicotadas nas costas da força de trabalho escrava.

Mas essa não foi uma história só de gemidos. A criatividade brasileira acabou por impor-se. Seria impossível manter os mesmos “engenheiros” portugueses, hábeis artesãos com a madeira e nos segredos da ferraria, consertando as engrenagens em que se moía a cana – além de “moer” seres humanos nas desumanas jornadas de trabalho também. Então, os nascidos no Brasil foram assumindo essas funções e imprimindo nelas o jeitinho brasileiro, a criatividade desta gente dos trópicos, mestres também na engenharia de viver.

Permito-me, agora, caro leitor, um vôo de imaginação para ligar esses vários pontos reunidos pelas coincidências da vida nesse Engenho de Dentro e seu estádio.

Juntemos a engenharia artesanal dos engenhos; a criatividade dos artesãos brasileiros; o esforço físico dos trabalhadores, desde os engenhos até os dias de hoje; a assim denominada “loucura” dos alienados, com sua espantosa criatividade, magnificamente demonstrada e preservada pela grande Dra. Nise da Silveira, com seu Museu de Imagens do Inconsciente, e sua maravilhosa obra de humanização dos manicômios, surgida a partir do hospital do bairro; a engenharia das oficinas da Central do Brasil, com mestres e aprendizes capazes não somente de consertar as locomotivas, mas todos os mecanismos, superando a própria criatividade dos ingleses em sua fabricação.

Porém, juntemos mais. Agreguemos o esforço, a criatividade, a garra e o desejo de bem representar o Brasil, trazidos pelos atletas. Lá estarão os atletas negros, com sua ancestralidade diretamente ligada aos engenhos e às senzalas. Mas também os atletas mulatos, pardos e brancos,  num testemunho inegável da miscigenação. E ainda os atletas descentes de todos os imigrantes que também fizeram do Brasil esse cadinho onde tudo se mistura, tudo se modifica, tudo se renova, tudo se reinventa.

Torcer acho que todos nós torceremos. Porém, mais importante ainda me parece olhar o Engenhão com um olhar mais abrangente e profundo. Um olhar que ultrapasse as negociatas dos dirigentes esportivos por todo o mundo, inclusive no Brasil; que suplante mesmo a óbvia contaminação comercial do esporte; que supere as ameaças de violência. Um olhar que possa contemplar e admirar nossa trajetória de nacionalidade, desde o engenho até o Engenhão.

Claro que, se além de tudo isso, nosso olhar puder ver vitórias em todas as modalidades esportivas, muito melhor!

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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