ESTRANHAS TARTARUGAS
Arte: Francci Lunguinho
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A toda hora a televisão nos mostra agora umas estranhas tartarugas. E não é no Animal Planet não, caro leitor. Já me explico.
Grande parte do mundo político e considerável número de empresas chafurdam, de braços dados, no mar de lama da roubalheira nacional do dinheiro público. Sucedem-se as Operações: Furacão, Lacraia, Saia Justa, Anaconda, Sanguessuga, Navalha, Xeque-Mate... Cada vez que esses escândalos vêm à tona, a TV mostra as ações da Polícia Federal, quase sempre abrangendo vários estados, na captura dos investigados e no recolhimento de provas que os incriminam. Nesses momentos é que podemos ver as estranhas tartarugas.
Em muito boa hora, a lei garante aos suspeitos o benefício de não terem seus rostos mostrados. Então, vale tudo para não mostrar a cara.
A cena é sempre parecida. Os geralmente jovens agentes, rapazes e moças, musculosos eles, elegantes elas, em seus uniformes negros, cercam os detidos, cabendo a um dos policiais a condução do preso ou da presa pelo braço.
Eis aí as estranhas tartarugas. Para evitar que seus rostos sejam exibidos pela indiscrição das máquinas fotográficas e câmeras de televisão, os presos lançam mão de qualquer coisa que possa impedir que suas caras sejam vistas.
Casacos e paletós, cachecóis e mantas, cobertores e jornais... Qualquer anteparo serve, desde que as caras sejam protegidas, desde que se impeça que a opinião pública veja e grave o semblante daqueles que estão sob suspeição.
Os donos dessas caras transformam-se, assim, nas estranhas tartarugas. Quando vão sendo conduzidos e topam com os fotógrafos e cinegrafistas, enfiam suas cabeças debaixo de agasalhos, jornais, panos, o que lhes for dado pegar na hora em que são presos.
Muitas vezes, julgando-se já fora do alcance das máquinas e câmeras, os suspeitos relaxam e põem novamente suas cabeças para fora. Mas, nesse instante, um fotógrafo ou cinegrafista mais insistente, capta-lhes o rosto que, com freqüência para mim assustadora, exibe o sorriso da impunidade ou a carranca altaneira da arrogância.
Longe de nós, não é caro leitor, reclamar do amplo direito de defesa ou da execração pública antecipada. Mas, dadas as clamorosas evidências, do monte de gente apanhada com a boca na botija, diga lá se você já não teve vontade de estar ali por perto, na hora de uma dessas prisões, para arrancar um desses casacos, cobertores e jornais, e sair brandindo com ira cívica esse troféu, enquanto o ladrão do dinheiro público fica com sua cara desnudada perante os olhos da nação.
Tartarugas (as verdadeiras) me encantam. Sejam as grandes, com suas imponentes carapaças, sejam as pequeninas, que correm ainda desajeitadas pela areia logo depois da eclosão dos ovos, demandando o mar, na desesperada e nem sempre bem-sucedida luta pela sobrevivência.
Os olhos de pálpebras caídas das tartarugas me comovem, parecendo sempre conter um quê de tristeza ancestral. Seus pescoços enrugados me lembram a nobreza das rugas dos avós. Por isso, certamente, os seres humanos atribuem-lhes a imagem de sabedoria e, nas fábulas, de repositórios de verdade e integridade.
Nada mais distante disso que essas estranhas tartarugas que vemos agora na mídia. Na maioria esmagadora dos casos, seus pescoços saem de colarinhos brancos ou de golas de caros casacos femininos, lembrando-nos que a elegância das roupas não tem nada a ver com a elegância da honestidade e da integridade. E, ao encolherem seus pescoços, esses estranhos quelônios de duas pernas, buscam escapar à claridade da exibição de suas caras acanalhadas pelas maracutaias.
Confesso, caro leitor, meu desejo quase incontrolável de agir como um predador, pelos menos simbólico, dessas estranhas tartarugas. Mas reconheço, desencantado, que elas se escondem, não somente ocultando o rosto sob anteparos, mas também entrando em suas carapaças de impunidades, ainda mais inexpugnáveis quando significam a tal imunidade parlamentar.
Resta a esperança de que, um dia, essa espécie das estranhas tartarugas seja extinta, ficando apenas as tartarugas verdadeiras a nos lançar olhares belos e melancólicos.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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