Um Novo Olhar
Cidades são como pessoas: não se dão a conhecer logo ao primeiro olhar.
Como em relação a pessoas, as cidades exigem a convivência; o olhar tem de ser qualificado pelo viver cotidiano; precisa ser temperado no caldeirão do dia-a-dia.
Pessoas mudam com o tempo, para melhor e para pior; cidades também. No caso das cidades, as transformações urbanas – das avenidas aos prédios, das praças às ruas, das árvores às praias, dos becos aos ônibus – vão lhes conferindo nova face, que o olhar vai descobrindo a cada dia.
Gosto de manter-me consciente dessa possibilidade permanente de um olhar renovado, transformando o já visto na novidade, o já exaustivamente contemplado na experiência do novo. E isto geralmente surpreende e encanta.
Estas reflexões surgiram-me mais uma vez, dia desses, cruzando a Linha Amarela. Num momento de calma – coisa cada vez mais rara nessas viagens através do medo em que se transformaram as passagens pelas vias expressas - não fiz nada demais: só prestei atenção, e observei o quanto tais vias nos oferecem a chance de um novo olhar sobre a cidade.
Dirigindo-me à Barra, na altura de Jacarepaguá, dei-me conta de que, durante dezenas de anos, minha visão da igreja de Nossa Senhora da Peña, com sua beleza arquitetônica e significação sacra – aquela possível a todos, esta reservada aos crentes – mudou radicalmente quando a via expressa, rasgando as entranhas dos bairros, ofereceu novo ângulo, uma visão por detrás, como se fora a visão de uma alma que se aproxima furtiva e sorrateiramente do sagrado. Certamente nunca foi esta minha visão de menino encarapitado no bonde que levava a esse bairro, então muito distante. O que se via era a frente da igreja, com sua escadaria, numa visão lógica e correta a que na certa almejaram os que a construíram.
Acontece isso em muitos lugares onde aplico esse novo olhar possibilitado pelas mudanças no traçado urbano do Rio. A Linha Vermelha, por exemplo, nos permite ver a Praia de Ramos de um novo ângulo, antes reservado apenas aos que passavam de barco nas águas poluídas da baía. Se, pelo lado da Avenida Brasil, hoje nem se vê mais a praia de outrora, engolfada pelo crescimento tentacular da favela (hoje, em tempos de politicamente correto, chamada eufemisticamente “comunidade carente”, como se nomes mudassem a realidade da miséria), desse novo ângulo a praia ainda existe, como existem imaculadas, nada poluídas, minhas lembranças.
Fico imaginando: como seria a visão antiga da cidade sem os túneis que a ampliaram, criando Copacabana, Ipanema, Leblon e, muito mais recentemente, a Barra? E, sobretudo, que novos olhares tais obras permitiram? Que novas facetas da cidade, nessa recriação pelo olhar, foram descortinadas?
A ponte Rio-Niterói é outra mudança que possibilitou ampliar a visão das duas cidades, das praias, de toda a Baía da Guanabara – espetáculo até então oferecido apenas aos que viajavam na lentidão romântica das barcas.
Podemos imaginar como seria a visão dos antigos cariocas antes da Avenida Presidente Vargas, e o Centro sem a Rio Branco? Depois que surgiram essas e novas ruas e avenidas, novas visões possibilitadas por novos olhares foram criando uma outra cidade, mosaico de novos ângulos para se ver, lugares para se transitar, moradas para se viver.
O Aterro do Flamengo é outro exemplo. Difícil imaginar a cidade sem ele. Como era tudo antes que o desmonte do Morro do Castelo trouxesse a imensa quantidade de terra que, vindo lá de cima, fosse acomodada na longa extensão hoje existente de pistas, passarelas e jardins?
Sei que registros sempre foram feitos: dos traços fiéis ou interpretativos dos pintores à implacável fidelidade das câmeras fotográficas. Porém, isto jamais substituiu em nós a capacidade de comparar o passado imaginário de nossas lembranças com a realidade de nosso presente.
Claro que as mudanças trazem a tragédia das picaretas. Além da poeira que inunda os pulmões, demolições também atingem os corações para os quais aquela casa, aquela esquina, aquela rua eram a própria vida traduzida em cidade e o próprio sentido de pertencimento.
Mas, como sabemos que a vida flui como um rio conduzido pela inevitável passagem do tempo, resta-nos fluir também. Isto pode ser feito juntando-se as lembranças do ontem com as novas impressões do hoje. E estas surgem com nossa capacidade de lançar novos olhares.
Saiamos, pois, para as ruas de nossa cidade dispostos a ver o novo, com atenção e compreensão. Com isto, quem sabe, ainda ganharemos a maravilhosa possibilidade de lançar um novo olhar também para dentro de nós.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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