O Jogo dos Pedacinhos de Conversa
Gosto muito de prestar atenção a nosso universo auditivo. Refiro-me a todos os sons que entram por nossos ouvidos, compondo essa parte sonora do mundo que nos cerca e é tão fundamental para nossa vida.
Faça isso, caro leitor. De preferência com os olhos fechados, tente prestar completa atenção a todos os sons que ouve. A primeira constatação que fará é que vivemos mergulhados num barulhão, muito mais intenso do que o necessário e quase mesmo além do suportável. A poluição sonora é uma das pragas deste nosso mundo.
Mas meu tema aqui é outro. Observe, ao dedicar essa atenção aos sons, que recebemos, a cada momento, pedacinhos de conversa. Andando pela rua, na condução, no banco, em qualquer lugar, vamos ouvindo trechos de frases e palavras soltas.
Reparem como fica interessante interligá-las. O painel resultante, quase sempre meio louco, muitas vezes se apresenta inteligível, num todo coerente que, não raro, nos permite dar boas gargalhadas, embora também revele dramas, denuncie angústias, exiba medos, contradições e preocupações.
Ah, vale observar que esse caleidoscópio feito de pedacinhos de conversa se enriqueceu bastante com a chegada dos onipresentes celulares. Descontraídas, ou mesmo se torcendo para procurar a melhor posição para receber o sinal ou evitar ruídos, as pessoas vão entabulando suas conversas e nos oferecendo vasto material para construir nosso mosaico de conversas interligadas.
Em minha caminhada diária – prazerosa concessão aos exercícios aeróbicos – recolho sempre e monto meus painéis com pedacinhos de conversa. Eis um deles. Claro que o resultado é uma construção de minha própria percepção, mas que só foi possível dada a riqueza de conteúdo e de detalhes, bem como às possibilidades de alguns trechos se interligarem, criando um verdadeiro dominó sonoro. Deixo a cada um a oportunidade de criar seus próprios sentidos e interpretações.
- ...mas você não conhece ele direito, amiga...
- ...vai fundo, cara...
- ...hum... aquela calcinha entrando na...
- ...entrando na segunda esquina você vai ver à direita um posto de gasolina...
- ...o Olavo tava no posto de gasolina, os caras chegaram e foram rendendo todo mundo...
- ...esse mundo tá mesmo perdido, Dona Alzira...
- ...é... fiquei perdidão... apaixonado, brother... Toda hora com ela nos braços...
- ...Dói tudo... braços, pernas... Envelhecer é uma desgraça...
- ...com essas brigas, ainda vai acontecer uma desgraça... Ela tem um ciúme danado... ainda vai acabar dando um tiro nele ou levando um...
- ...Agora lá é tiro pra todo lado. Fui criado ali, Celso. Era um bairro mais do que tranqüilo. Eu só chegava de madrugada... Nunca tive problema... E lá em Caxias era a mesma coisa: voltada das noitadas pra levar a namorada e não tinha problema nenhum...
- ...Ah, nesse horário não dá, é um problema. Meu marido agora virou um velho medroso... é só medo de assalto... Eu não tô nem aí... A gente procura tomar cuidado, mas não dá pra ficar presa dentro de casa... A gente morre antes do tempo...
- ...tempo chato... chuva, chuva... Nem parece o Rio...
- ...que nada, cara, isso é papo de paulista e de mineiro... São Paulo e Minas já são tão violentos quanto o Rio, só que a mídia não dá... Tem interesse do pessoal do turismo dos outros estados, claro...
- ...Já pensou, eu na mídia? Pois é, a Flavinha fez um book e acabou conseguindo... É, por enquanto fez só uma ponta na Malhação... É (rindo muito), acho que teve teste do sofá nisso aí...
E lá vão os pedacinhos de conversa nos fazendo construir associações, criar sentidos. Eles dão ensejo à construção de uma trama de significações, pelo menos para nós plausíveis, interessantes, às vezes surpreendentes, e quase sempre divertidas.
Isso, sem dúvida, pode ser um prato cheio para sociólogos, psicólogos e até para psicanalistas. Porém – e isto é o que pode interessar à leveza de uma crônica -, a montagem do jogo é o que vale. E também a possibilidade de que cada um de nós se transforme numa espécie de voyeur auditivo, olhando por metafóricos buracos de fechadura sonoros, que só nos permitem bisbilhotar uma fresta da vida de cada um que fala perto de nós.
Que tal começar seu jogo agora, caro leitor? Que acha de começar a montar seu mosaico com pedacinhos de conversa?
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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