Cenário por Cenário...
Há alguns dias, aconteceu mais uma etapa das corridas aéreas promovidas pelo fabricante do Red Bull, aquele energético “que te dá asas”. Desta feita, o espetáculo da disputa entre os aviõezinhos que parecem de brinquedo conduzidos por intrépidos pilotos aconteceu em Monument Valley, nos EUA.
Além da interessante modalidade de disputa – que realmente mobiliza a atenção da gente -, pude rever pela TV o cenário em que, na minha juventude, John Ford me transportou do escurinho do cinema para a bela paisagem que servia de fundo aos faroestes.
Naquele tempo, transportado pela magia do cinema, e ainda imune ao “politicamente correto”, eu vibrava com a bravura do mocinho – exímio exterminador de índios – e com a corrida das diligências, que, muitas vezes, tombavam e levantavam a incrível poeira vermelha (na imaginação, claro, pois os filmes eram em preto e branco) naquela terra fisicamente tão distante, mas tão próxima, de meus olhos extasiados e dos sonhos de heroísmo que ultrapassavam de muito a mesmice de uma vida pobre e suburbana.
O cenário, vejo com muito mais clareza agora do que então, era um personagem fundamental, quase tão importante quanto os dois metros de bravata do John Wayne.
A corrida aérea me permitiu ver que Monument Valley continua a oferecer uma paisagem única e deslumbrante. Só não ficou, para mim, absolutamente espetacular porque se estabeleceu uma inevitável comparação com o cenário em que a corrida foi realizada no dia 21 de abril: a praia de Botafogo, com vistas do Flamengo e a Urca ao fundo.
Ah, olhados assim, comparativamente, aqueles pequenos e bonitos aviões pareciam deslocados em Monument Valley. Apesar da imponência da paisagem em torno, parecia que faltava alguma coisa. E faltavam, realmente.
Onde as águas azuis-esverdeadas de nossa deslumbrante Baía de Guanabara, que faziam contraste com os aviõezinhos de cores berrantes – vermelhos, laranjas, verdes, azuis...?
Onde aquela multidão vibrante, latinamente envolvida com as acrobacias, criando imediatamente torcidas pelos pilotos, gritando a cada vôo rasante, a cada manobra arriscada ou toda vez que os cones de demarcação eram atingidos? Em Monumental Valley, ficou quase constrangedor ver a meia dúzia de gatos pingados olhando a corrida lá de cima de um dos mirantes naturais. Isto sem falar naquele índio de fachada, falsamente paramentado, fazendo caras e bocas ditadas pelo patrocinador. Quanta distância da nobreza das danças da chuva e da guerra, ou dos sinais de fumaça para facilitar o cerco aos cara-pálidas, que ficaram gravados em minha memória desde menino!
Ah, John Ford, que épicos faria você se tivesse à disposição o cenário de nossa Cidade Maravilhosa. Os aviõezinhos, que parecem de brinquedo, voaram por sobre o mar e as montanhas, fazendo as câmeras mostrar a beleza do Pão de Açúcar, os barcos na enseada, as caprichosas e quase sensuais curvas do Aterro. Voaram soltando sua fumaça programada contra o azul de um céu de anil como não existe em nenhum outro lugar. Sobrevoaram as contenções de pedra e as árvores em que os mais ousados se encarapitavam para ver o espetáculo, formando um cordão humano, uma multidão compacta irmanada naquela manhã tão deslumbrante em cores e luz que só pode ter sido feita pelos deuses para demonstrar que nossa cidade é realmente linda e maravilhosa.
Vendo essas corridas, lembro-me sempre do “Melo Maluco”, ás da aviação brasileira do passado, ícone dos aviadores nacionais, que justificava plenamente seu apelido, chegando até a passar debaixo de pontes com seu pequeno avião!
O tal energético pode não dar asas, mas essas corridas as deram à minha imaginação apoiada em memórias gostosas. Memórias dos filmes vistos pelo menino, nos cinemas “poeira”, dos faroestes em que ainda era possível ter uma visão maniqueísta de mocinhos e bandidos, de bem e mal, de justiça e injustiça – coisa cada vez mais difícil nestes tempos tão violentos e destruidores de toda ética.
De qualquer modo, não tenho dúvidas: cenário por cenário, sou mais o do Rio de Janeiro. Sempre.
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J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br
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