» ARQUIVOS |
» Ir para Crônica atual »
» Crônicas anteriores »
» Contato: carino10@yahoo.com » Outros textos: Contos | Poesias |

*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 8 DE MAIO DE 2007

O Telemarketing e Eu

Hannah Arendt, a grande filósofa alemã, discutindo as relações entre as esferas de vida privada e pública, demonstrou o quanto o âmbito da vida privada foi invadido pela esfera pública. Os gregos e romanos, ensina, delimitavam muito bem a diferença entre a vida pública, ou seja, aquela dos negócios públicos, onde se discutem as questões que interessam a todos, e a esfera privada, íntima, dos assuntos particulares. A vida privada era preservada dessa invasão por parte da esfera pública. Nesta, cada um agia, abertamente e em conjunto com os demais, em favor da cidade, ou seja, agia como “cidadão”. Já a vida privada, que cuidava dos negócios de interesse do âmbito restrito da vida da família, ou da vida pessoal mais íntima, devia ser preservada a qualquer preço.

Um dos preços que se teve de pagar pela modernidade foi justamente este: a invasão da vida privada pela vida pública.

Podemos afirmar que em nossos dias essa invasão atingiu um paroxismo. Praticamente não existe vida privada.

Deixando a filosofia política de lado, podemos dar um exemplo comezinho: o telemarketing, essa praga da propaganda para venda direta, que assalta os telefones de qualquer um em qualquer dia e a qualquer hora.

Reclamar não adianta; enfurecer-se, muito menos. Por isso, só nos resta tentar criar defesas, que pelo menos atenuem essa praga invasora, na hora em que as malditas ligações nos atingem.

Tenho meu método, que - combinado com o de amigos abrigados na mesma trincheira defensiva - partilho com vocês.

Eu mesmo nunca atendo essas ligações. No momento mesmo em que percebo tratar-se do famigerado telemarketing, mudo a voz e me transformo num personagem, que passa a atender o chamado. Eis alguns desses personagens.

O gago. Neste caso, é já começar com “Po-po-po-po-is na-na-na-não”. E seguir assim em todas as respostas. A operadora ou o operador do outro lado da linha vai deixar você em paz rapidinho.

Outro personagem bom fica reservado para quando o operador de telemarketing é homem. Aí, entra em cena o velho pederasta. Com aquela voz arrastada de um “velho de guerra” em dar em cima de rapazotes: “Oi, meu querido... Mas que voz sensual você tem... Produto? Ah, o produto que desejo é você, meu bem... Você tem namorada?” E a coisa segue por aí. O cara vai desligar logo. Bom, este personagem só envolve um risco, o do operador também ser adepto do homossexualismo... Aí, ao invés de resolver um problema, você pode ficar com dois.

A velhinha surda é ótima. Com sua voz melosa e com jeito de quem está sempre mastigando as palavras junto com a dentadura, ela diz: “Banco? Que banco? Bando da pracinha”. Ou confundir propositadamente os sons das palavras: “Segurar” em lugar de “celular”; “Fedorento” ao invés de “financiamento”. A operadora vai agüentar muito pouco tempo falando com essa simpática velhinha surda como uma porta.

Falando em velhinhos, gosto muito também do caseiro velho. Explico. Você atende e o operador quer falar com o dono da casa. Aí, você responde com voz arrastada de velho empregado: “Ah, minha filha, o patrão e a patroa viajaram. Eles vivem viajando. Mas, pra pagar a gente é um inferno... Eu sou aposentado e doente. Veja, minha filha, tenho reumatismo, sou diabético e tomei um tombo e tive que operar a perna. Você pensa que eles ligaram? Que nada! Continuo trabalhando pra burro, carregando peso, capinando o jardim... E sinto muita dor...” E você continua desfilando um rosário de dores, mazelas e amarguras. Duvido se a operadora não vai desligar num instante.

Todos nós temos cá dentro uma Dercy Gonçalves, não é mesmo. Pois então aproveite e atenda com a personagem de uma velha bem desbocada. A cada pergunta, um palavrão bem encaixado contra a falta de grana, contra a falta de tempo, contra seu patrão, contra seus filhos. Isso tudo tendo o cuidado de mostrar ao operador do outro lado da linha que não é a ele que você está xingando. O sujeito vai ficar constrangidíssimo e você vai se livrar rápido de mais uma ligação indesejada.

Para afungentar com rapidez o operador, recomendo o eco. Funciona assim: tudo o que ele ou ela disser, você repete: “Alô, quem fala?”. Você repete no mesmo tom: “Alô, quem fala?”. “Está me ouvindo”, diz a voz. “Está me ouvindo”, repete você. Num instante você vai se ver livre.

Tem muitos outros personagens. Um rico e esnobe que passa grosseiramente a ligação para o mordomo atender; uma mulher que mal fala o português e que, apesar disso, tenta entender a proposta que está sendo feita; o garotão que aproveita para dar uma cantada gentil na operadora... Ah, e o garotinho insuportável, com voz de geniozinho, que se recusa a chamar a mãe e tenta dar a entender que sabe do que se trata e pode ele mesmo resolver tudo.

Recursos mais extremos são as longas viagens e a morte. Tenho mandado meus filhos e minha mulher para o Japão com certa freqüência: “Ah, lamento, mas meu filho não vai poder atender e aproveitar essa oferta. Ele foi estudar no Japão...”. E a definitiva e fúnebre opção é reservada a operadores de telemarketing muito chatos, desses que sei que ligarão novamente tentando me achar: depois que a vozinha metálica da operadora diz meu nome e pergunta se estou, falo com voz compungida: “Lamento, mas ele morreu no mês passado”.

Cabe observar que ajo assim como repúdio à invasão de minha privacidade, mas que isso não diminui meu respeito e admiração por aqueles que, movidos pela necessidade de trabalhar, são obrigados a exercer essa função lamentável. Aliás, só não perdôo o operador ou a operadora que insiste em vestir a camisa da sua empresa mesmo percebendo que será inútil. Esses podem, muitas vezes, conhecer minha veemência, contundência e revolta contra essa praga do telemarketing.

Também respeito, claro, aqueles cujo modo de ser é retratado nos personagens que criei.

E você, caro leitor, que personagens usa quando essas ligações invadem sua vida?

  • .................................................................................................................................................................................
    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


Capa | Topo

 
 
+ Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Luz & Sombras | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Festival do Rio 2008 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Moda | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's & Fanzine | Infantil | Infantil| Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise - Joaquim Palmeira | Oise - Wilmar Silva | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais | TvCB.
2006/2008 © SCB - Sistema Crônicas Brasileiras de Radiodifusão Ltda -. Todos os direitos reservados.