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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 17 DE ABRIL DE 2007

198 ou duas vidas bem vividas

Embora a maioria de nós a deseje, a longevidade não está ao alcance de qualquer um. Apesar das opiniões de doutos especialistas – demógrafos, médicos, etc. – o que acaba sendo decisivo é uma bruta sorte, com a mão leve do destino escolhendo um número relativamente pequeno de sujeitos que terão uma vida bem comprida.

Porém, não basta viver mais; fundamental, certamente, é ter uma vida bem vivida. E, para alguns, essa vida longa é ainda sinônimo de notoriedade em toda a sua trajetória.

Dois brasileiros estão vivendo agora o tempo que os aproxima dos cem anos. Eles são bem diferentes. Tudo indica que a única coisa que pode aproximá-los é justamente sua longevidade, além do fato de terem se notabilizado em suas respectivas trajetórias.

Esse dois brasileiros são Dercy Gonçalves e Oscar Niemayer. Ambos completaram 99 anos.

Dercy, como sabemos, é um monumento da cultura artística nacional. Embora não se constitua uma unanimidade, por conta de seu comportamento desabrido, suas atitudes polêmicas – como aquela de mostrar os seios em pleno Sambódromo, num enredo em que era merecidíssimamente homenageada – todos são unânimes em reconhecê-la como uma grande dama do teatro, do cinema e da televisão.

Niemayer também é quase uma unanimidade, exceto para os que o consideram um “dinossauro” ideológico, ao manter sua intransigente defesa do comunismo. Apesar disso, é reconhecido mundialmente com um gênio da arquitetura.

Dercy brilhou sempre, e para isto lutou contra todos os preconceitos, desde quando, menina rebelde e desejosa de materializar seu sonho de ser artista, largou a cidadezinha natal, Santa Maria Madalena, acompanhou um circo mambembe e não somente chegou ao estrelato, mas arrebentou com todas as resistências e abriu caminho para o reconhecimento, a emancipação e o respeito pelas mulheres na vida artística.

Niemayer, saindo de um patamar sócio-econômico bem mais elevado, nem por isso lutou menos, brigou menos e defendeu menos ardorosamente suas idéias inovadoras. E também abriu caminhos que levaram não apenas ao reconhecimento de sua genialidade, mas ao respeito pela arquitetura brasileira.

Ver Dercy nas chanchadas do cinema nacional é ver um vulcão de inventividade, de improviso, de muita espontaneidade. No teatro, seus “cacos” ajudaram a demolir aquele ranço europeu de interpretação pomposa e enfatuada. Na TV, não precisamos lembrar mais nada senão sua completa e imediata identificação com a linguagem do povão.

As curvas de Niemayer igualmente nos encantam pela invenção, e nos conduzem num vôo de liberdade, que contaminou até o peso e a rudeza do concreto, tornando-o leve e conferindo-lhe movimento.

As palavras de Dercy, com freqüência chocam. Seu famoso recurso aos palavrões, de tão bem colocados em seus discursos diretos e desabridos, mudou a relação de praticamente todo mundo com a linguagem chula, ao ponto de serem absorvidos até por pessoas muito tradicionais.

Niemayer fala pouco, baixo e compassadamente. Sua discrição é notória. Mas seus traços na prancheta são igualmente contundentes, como xingamentos lançados contra visões arquitetônicas tradicionais, poluídas por volutas ou sufocadoras dos seres humanos e agressoras da paisagem.

Dercy tem o palco. Ou todos os palcos onde a energia criativa da artista explode e contagia. Niemayer tem Brasília como seu maior palco, onde encenou em concreto o sonho do “presidente bossa-nova”, cidade ímpar, cujo brilho arquitetônico incomparável não é empanado nem pelas mazelas que cercam o poder central.

Dois brasileiros longevos, criativos, inovadores, iconoclastas. Nesta medida, Dercy e Niemayer encarnam a própria brasilidade, como se tivessem vindo ao mundo não somente para permanecer nele por muito tempo, mas para expressar duas facetas da alma brasileira.

Quase cem anos cada um! É tempo à beça. Dercy e Niemayer, cada um a seu modo, cada qual do seu jeito, não somente foram testemunhas de uma boa parte de nossa história como ajudaram a escrevê-la.

Que eles permaneçam entre nós ainda por um bom tempo, dando-nos exemplos de vidas bem vividas.

Luz na ribalta! Luz suave na prancheta! Parabéns Dercy! Parabéns Niemayer!

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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