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*Clique AQUI para acessar o arquivo de crônicas // Este autor escreve às terças-feiras

» NITERÓI, 28 DE AGOSTO DE 2006

Amor virtual

Estranho, meu bem, esse amor virtual. Mas, repare: o cursor pulsa como um coração descompassado; a luminosidade da tela, para quem sofre da doença incurável do romantismo, pode muito bem lembrar o banho de lua que outrora iluminava o rosto da amada.

Diferente, minha querida. Os dedos, que antigamente se entrelaçavam, convertendo-se, com toques sutis, na fagulha que acendia a fogueira de corpos sedentos de paixão, transformaram-se nos ágeis instrumentos que possibilitam o sopro de vida digital. A vida, literalmente, na ponta dos dedos...

O amor e, sobretudo, a paixão sempre se valeram da irresistível magia do segredo. Em tempos de antanho, como já acentuaram os machados e alencares, entrever um tornozelo possibilitava ao espírito fazer incríveis piruetas no circo da imaginação comandado pelo desejo. Mais recentemente, meu doce, bastavam coxas bem apresentadas ou – maravilha! – uma calcinha ligeiramente vislumbrada para que se construísse toda a reputação do onanismo nacional.

Esse segredo, minha cara, está aí como nunca. Você se esconde de mim, mas ao mesmo tempo viaja em minha direção. Depois de ingressar nas entranhas da sua máquina, você corre pelas imensas, longuíssimas, intrincadas vias informáticas e entra em meu computador, emergindo na tela, resumida na magia das palavras.

Você se mostra, mas se mantém oculta - como eu. E, assim, podemos gozar dos benefícios inigualáveis do anonimato.

Nossa paixão é tanto mais intensa quanto maior é nosso ocultamento, disfarçado sob camadas e camadas de mentiras virtuais.

Antigamente, o romantismo perenizava-se nas cartas, eternizava-se em papel e tinta, minha menina. Ainda hoje, podemos contemplar o amor representando em palavras grafadas com tinta agora esmaecida. Amantes cuidadosos (as mulheres, quase sempre) colecionaram e guardaram em maços perfumados as missivas que nos revelam os amores impossíveis, as paixões envergonhadas e as rusgas inconseqüentes.

Hoje, minha adorada, nossos e-mails têm a fugacidade das próprias promessas de amor; são etéreos como perfumes que se esvaem; são tão imateriais quanto a substância das promessas.

Ah - dirá você, minha princesa – e o contato físico, a gostosíssima simbiose dos corpos, a necessária troca de carícias e fluidos, de cheiros e toques, a volúpia da penetração?

De fato, minha paixão, não há como negar essa imensa perda, pois só nos resta mesmo a “platonice” deste amor virtual e pós-moderno. Mas, em compensação, ele nos manterá a salvo dos desgastes físicos: você jamais verá crescer meu barrigão de chope e prosperidade; nunca verei em você a crueldade da celulite e das estrias.

Disporemos, sempre, é verdade, apenas do insípido e do inodoro. Porém, com certeza, poderemos ganhar a eternidade de um retrato de Dorian Gray, maravilha a que teremos direito pagando o preço caríssimo da venda de nossa alma real ao diabo eletrônico.

Dependeremos, ó doce e oculta amada, mais de um processador rápido e eficiente do que de dois frágeis corações sujeitos à falibilidade das emoções. Estaremos à mercê da energia que constitui e alimenta nossos corpos virtuais, que podem fenecer por causa de uma simples falta de luz!

Nosso amor, tanto intenso quanto fugaz, profundo quanto oculto, é fruto de nosso tempo; da maravilha e do terror inseparavelmente existentes na tecnologia. Isso faz também a delícia dessa paixão tão sem compromissos e sem amarras, desse intercurso fictício e estranhamente belo.

Aí está você, minha querida, corporificada na tela, em palavras e frases. Nossos encontros são provavelmente mais freqüentes do que o seriam se vivêssemos um amor de carne e osso, em que talvez não estivéssemos tão disponíveis.

No milagre do anonimato, diluímos bastante nossos defeitos; podemos beirar a perfeição; dizer somente o que interessa ser ouvido; escutar, silenciosamente, apenas o que julgamos importante ouvir.

Temos e teremos sempre – ou pelo menos enquanto desejarmos – a qualidade inigualável do segredo. Nossa existência virtual jamais fará concessões a nenhuma substancialidade, que agride e desgasta. Existência? Quem é cada um de nós, cara amada? Somos um ou somos muitos que assumem uma única máscara, a mesma persona? Homem ou mulher, realmente? Pois podemos ser tudo: feios, belos, altos, baixos, gordos, magros, compromissados ou livres como passarinhos, ricos ou pobres, seres sacrossantos ou consumados canalhas.

Estranho, estranhíssimo amor, esse que vivemos, minha adorada, que tudo permite, menos a violência de transformar-se em realidade. Pois, quais vampiros que se dissolveriam se fossem atingidos por um simples raio de sol de uma manhã dourada, nosso amor morreria tragicamente – como muitos semelhantes já morreram – quando fosse perdida, por desejo, simples impulso romântico ou vontade transformada em necessidade, sua condição de amor ficticiamente puro.

Apesar de tudo, seja, pois, abençoado nosso amor virtual.

Deixo-lhe aqui muitos beijos. Que posso chamar apenas de Bjs

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    J. Carino é professor universitário aposentado, consultor e escritor, sendo autor de “Olhando a Cidade & Outros Olhares” (UniverCidade Editora, 2004), livro de crônicas sobre os bairros do Rio de Janeiro, com apresentação de Ruy Castro. Para conhecer mais sobre o autor visite a sua página www.jcarino.com.br


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