Quando um leão é o maior amigo e amor de um homem
Fotos: Divulgação
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Recebi por e-mail um vídeo no qual dois rapazes partem para a África a fim de rever o leão criado por eles até quando deu. Eles o devolveram à vida selvagem, mas foram desaconselhados a tentar o reencontro. Os especialistas avisaram aos dois homens que o leão não os reconheceria e iria atacá-los. Após um ano longe do animal, eles cederam à saudade e foram tentar achar a “cria”, batizada como Christian.
A história envolve os decoradores John Rendall e Anthony ‘Ace’ Bourke. Eles estavam na seção de animais exóticos da Harrods em 1969 quando se encantaram pelo bichinho enjaulado. Levaram o bichano para o apartamento e conseguiram um jardim de aluguel para Christian correr. Mas Christian cresceu.
Eles colocaram uma câmera para filmar a aventura. O leão veio lentamente na direção deles e pulou no pescoço de um; depois no do outro. Não para matar, mas para abraçá-los. Eles ficaram emocionados e o leão não sabia em quem fazer carinho primeiro. No youtube há várias postagens e detalhes da história.
Então, após assistir a imagem tão linda e emblemática, fica cada vez mais claro – ao menos para mim – como as relações com os animais são importantes, pois há amor, compreensão e inteligência nos laços estabelecidos entre os “donos” e seus bichos. Bem diferente da relação entre os homens, estes seres ditos racionais, muita vezes incapazes de manter vínculos com pessoas com as quais conviveram anos a fio.
Se a relação envolve sexo, então, é impressionante como o homem se mostra rancoroso, se afasta, ignora a intimidade, muitas vezes de décadas... E sempre tem o (a) atual para fazer esta “inimizade” sem sentido seguir adiante, incorporando à relação já terminada a impressão de não ter sido válida; colocando a nova relação sempre como a mais sólida e a mais benéfica.
Obviamente, há casos e casos. Há relações terminadas por motivos imperdoáveis – sejam estas de amizade ou de amor – e nada desta história de “perdoar é divino”. Um homem que trai a confiança da mulher com quem dorme e vice-versa, não merece nenhum tipo de divindade.
Um pai capaz de violar a inocência de um filho ou de uma criança, independentemente do grau de parentesco, também se distancia do divino. E aviso: não sou a favor da pena de morte, porque acho muito pouco para pedófilos mais especificamente. A prisão perpétua, com trabalho diário, é muito mais eficaz. Não há nada mais cruel que a perda da liberdade.
Quando os jovens do vídeo devolveram o leão de estimação à vida selvagem, deram ao animal a maior prova de amor: a liberdade. E isto vale para os relacionamentos humanos. Não há mal maior para quem vive a dois.
Quando privamos a liberdade do outro, estamos supondo uma posse inexistente. Casais ciumentos matam a relação. Casais grudados demais, também. Não existe no amor esta tal “unicidade”. Cada um é um. Se não há respeito neste aspecto, roubamos o ar do parceiro, criamos para ele (a) uma vida à parte.
Se a pessoa não tiver muita proximidade com a família nem for cheia de amigos, pior. A pessoa mais popular acaba transferindo família e amigos para o novo (a) parceiro (a). E, num belo dia, a relação termina e a pessoa sai e leva todo aquele mundo tecido pelas circunstâncias de ter estado junto. Como os “parentes” e “amigos” alheios são humanos, tendem a acompanhar o amigo (a) original e, quase sempre, repetem isso no novo relacionamento.
O que vemos, então, é a banalização não só das relações envolvendo sexo, mas das envolvendo amizades fictícias. As pessoas te encontram na rua, mas você não faz mais parte daquele círculo. Logo, se educadas, te cumprimentam. Se radicais, te ignoram.
Por estas e outras, se não puder criar um leão, adote um gato, um cachorro, um hamster, um beija-flor para beber água em sua casa quando estiver com vontade.
Mas se quiser se aventurar a criar “parentes” e “amigos”, seja cauteloso, porquê até os filhos, cedo ou tarde, se distanciam e, não raro, esquecem dos pais. Ou até lembram de colocá-los em asilos para, passado o tempo, esquecer também de visitá-los.
Radical? Arranja um tempo e vá a uma instituição para idosos. Lá, você encontrará histórias alegres e tristes. Alegres quando os pais justificam ser esta a única solução achada pelos filhos. Tristes, quando os pais se sentem desprezados e adorariam ter nascido leões.
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*IZA CALBO é jornalista (aposentada) e escritora
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