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*Iza Calbo edita o blogue: http://www.izacalbo.blogspot.com/

» SALVADOR, BA, 11 de ABRIL DE 2008

Nos tempos dos chips e da insensatez humana

Fotomontagem: Thiago Calbo

Algo me impede de escrever. Talvez esta impossibilidade de fazer a mente funcionar corretamente. Poderíamos ter chips programáveis para cada ocasião. Um para fazer as coisas do dia-a-dia; outro para lidar com imprevistos; um terceiro para apagar lembranças desagradáveis; um elementar para fazer sexo quando não se tem a menor vontade, enfim... Ah e um para diminuir o tom de voz das pessoas quando erram e teimam no erro. Que o futuro nos traga todas estas necessárias novidades. E um chip para entender a raça humana. Este, bem rápido, please!

Estava procurando um tema para colocar aqui. Pensei de novo na pobre Isabella, jogada do sexto andar após ser espancada impiedosamente. E na docilidade impressionante da mãe biológica ao abordar a morte trágica da única filha. Deus ,existe tanta fé assim? Poxa confesso ter ficado impressionada com a postura desta Anna Carolina, diante da outra Anna Carolina, atual mulher do pai da criança morta. “Prefiro não falar. A conhecia como tia Anna...” – disse algo do tipo.

Fico pensando a que teia este crime levará? Parece tudo tão estranho. E o pai, antes de se entregar na polícia, entrando numa lanchonete e batendo um papinho com o advogado. Coisa mais esquisita. Mas faz parte da raça humana não é mesmo? E eu? Bem, penso em várias coisas. Passei dois dias dormindo, sob efeito de medicação e foi um alívio. Dormir. Como isso é bom para quem não consegue. Contudo, estes dois dias adormecida me fez pensar, também, nas mortes provocadas por pessoas cada vez mais jovens e nas besteiras todas que esta vida tem.

Enquanto dormia, sonhei com coisas diversas e estranhas. Uma pessoa do meu passado estava deitada ao meu lado como se o tempo tivesse parado e tudo fosse ser resolvido sem traumas nem trocas. Como se aquela sensação de eternidade, cultivada em mim por aquela pessoa, estivesse de volta grudada pelas paredes da casa. Mas não estava.

Muito pelo contrário. Na casa, muitas caixas para colocar as coisas e preparar mais uma mudança, quisera a definitiva. Daí, deu uma preguiça daquelas e uma vontade de voltar a dormir. Mas para quê? Repegar o passado? Abraçar outra vez quem me arrancou a alma? Não. Não valeria a pena. Isto é consciência e estar consciente me aborrece, me deprime, me faz sentir raiva, ser sensata e, assim, não consigo sonhar.

Bem, que os chips cheguem rápido ao mercado para que eu possa adquirir o da inconsciência plena. E, a fim de evitar atrasos, um que me faça lembrar de cumprir prazos, ter inspiração, respirar menos urgentemente como ser o ar fosse acabar de repente.

Mas estamos no presente. Não vejo as borboletas que deixei espalhadas no quarto e nunca mais dei água-com-açúcar aos meus beija-flores... e eles se foram. Nunca mais fizeram uma serenata de agradecimento ao entardecer. Restaram meus cinco gatos, minhas dúvidas e medos e  a vontade de que saibamos o mais rápido possível quem matou Isabella. Não que isso vá mudar nada, mas talvez seja – para ela – a garantia de uma paz abortada.

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    *IZA CALBO é jornalista (aposentada) e escritora


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