PAÍS DOS RICOS E DOS MISERÁVEIS
Fotomontagem: Iza Calbo
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Mesmo sabendo dos aprontes, a história da lixeira de quase R$ 1 mil, é dose. Aliás, três lixeiras. Serve para colocar o quê mesmo? Papel higiênico? Que merda literal hem?
Gastos do reitor da Universidade de Brasília (UnB), Timothy Mulholland. Mas isto foi só um pouquinho de sujeira no ventilador. Os gastos de R$ 470 mil na montagem do apartamento, pagos com recursos da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), foram contestados pelo nobre senhor.
Afirmou ele que a mobília e decoração custaram R$ 350 mil. "Não se mobília uma casa de qualquer maneira. Tem linhas de estética para poder ter um conjunto harmonioso". Informação prestada ao Jornal Nacional. E mais: "A determinação que demos e que foi seguida até onde foi possível averiguar é que fosse comprado material durável e é claro que havia uma linha estética", afirmou o gastador.
No sábado (9/02), estudantes fizeram um protesto em frente ao prédio onde mora o reitor. Afinal, alguns itens nas contas chamaram a atenção. Exemplos: um abridor de latas de R$ 190, um saca-rolhas de R$ 859, e três lixeiras com preços de quase R$ 1 mil, cada.
Por quê? Disse o gastador que o imóvel não serve apenas como moradia. É também um local de encontro com professores, cientistas e delegações estrangeiras, onde se trata de assuntos de interesse da universidade. (???????????) Particularmente, não entendi a justificativa.
Sem nenhum constrangimento, completou: "Aquilo foi feito propositadamente com a finalidade institucional e foi montado institucionalmente". A Finatec, que pagou a decoração do apartamento do reitor, recebeu nos últimos seis anos R$ 23 milhões da UnB. Na lista de 130 órgãos públicos, a UnB é a recordista no repasse de dinheiro para a fundação. Fato investigado pelo Ministério Público.
"Através dos custos fica claro que há a possibilidade da duplicidade de pagamentos a docentes da UnB. Docentes que são pagos pela universidade para prestar esse serviço de dedicação exclusiva não podem prestar serviços sendo pagos por outra fonte intermediada pela Finatec", revelou o promotor do MP Ricardo Antônio de Souza.
O advogado da Finatec, Francisco Queiroz Neto, disse que o trabalho é feito fora do horário do expediente. "Todos os profissionais da UnB que prestam serviço eventualmente na Finatec fazem fora do horário do serviço. É pra fazer isso eles precisam de autorização do chefe do departamento a que eles estão vinculados e do próprio reitor", afirmou.
Enquanto isso continua aparecendo os gastos absurdos dos cartões corporativos e, como de praxe, o presidente Lula não viu, ouviu nem mesmo tem algo a declarar.
Pessoalmente tenho vergonha de estar acompanhando todas estas histórias transformadas em pizza ao final. Agora, doente e fora do mercado de trabalho, ninguém do INSS transforma meu benefício em aposentadoria; o dono pede o apartamento e o aluguel está custando os olhos da cara e, por falar em olhos, meu amigo Adailton de Jesus Conceição – acompanhei uma perícia dele – depois de ter ficado cego do olho esquerdo num acidente de trabalho em 1996, teve em novembro o benefício cortado por uma médica que sequer leu os laudos. Ele tem a minha idade, está com glaucoma no olho esquerdo; dois bloqueios no coração; teve um AVC, mas não consegue fazer uma tomografia pelo SUS; está com depressão e, não bastasse, é hipertenso, negro, pobre e só tem o segundo grau.
Na perícia do dia 31/01, a médica disse que ele tem ótima visão do olho que restou; fez uns testes neurológicos – eu acho – não deu a mínima para o fato de ele estar se sentindo mal e mandou ver o resultado após dez dias. Ele só precisava de um saca-rolhas por mês para manter a mulher e as duas filhas. Mas não. Como ela é perita, enxerga estava nos trinques, cheia de parta 950 – daquelas boas – pode determinar – levando ou não os laudos de oftalmologista, neurologista e psiquiatra – se o cara tem capacidade laborativa. Na mesma noite, ele deu entrada na emergência de um hospital público com muita dor de cabeça e dormência num lado do corpo. O médico deu uma injeção e mandou levar para casa. Terá sido um novo AVC?
Olha, este País é uma vergonha. Estou profundamente triste com tudo. Acho que vou jogar no bicho. É que dia 8 – o INSS mudou as datas de pagamento e tome multa – após pagar aos credores restou R$ 13 na minha conta. Borboleta, sem dúvida. Ou, então, muita falta de sorte. Nem sei mais para quem rezar. Se passar alguém por mim com pinta de Jesus eu colo!
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*IZA CALBO é jornalista e escritora freelancer em Salvador (BA)
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