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*Iza Calbo edita o blogue: http://www.izacalbo.blogspot.com/

» SALVADOR, BA, 6 DE JANEIRO DE 2008

Carta de uma mãe aos filhos que fazem uso de drogas lícitas ou ilícitas

Fotomontagem: Iza Calbo

“Meu filho começou a sair com os amiguinhos muito cedo. Ia brincar perto de casa e freqüentava a escola. Com 12 anos, as saídas começaram a se estender mais que o esperado. Soube, então, que ele já estava fumando cigarros dados pelos amigos ou comprados com o dinheiro da merenda. Depois, ele chegou em casa estranho. Estava bêbado.

Conversamos, eu e meu marido, longamente com ele. Mas lá estavam os amigos da esquina. As idas à escola se tornaram escassas. Um dia, descobrimos um pacote estranho em meio às roupas dele. Era maconha. Estava, segundo disse, guardando para um amigo. Logo, estava fazendo uso. Aos 14, 15 anos, ele começou a chegar em casa agressivo. Novos amigos apareceram. Idas ao shopping, roupas de marca...

Já estava usando, além do cigarro, do álcool e da maconha, cocaína. Nossa vida se transformou num inferno. A cerveja, puxava a cachaça e assim por diante. Muitas vezes ele sumia por vários dias. Onde arranjava o dinheiro? Não sabíamos. Depois, descobrimos que estava se prostituindo.

Os “amigos” foram rareando, a cocaína também e aí veio o crack. Daí para as ruas, foi um pulo. Em pouco tempo, ele já estava em meio aos bêbados e drogados sem-teto, fazendo “bicos” em troca de ninharias. Até pensamos que haveria uma chance de recuperação. Rezamos, aconselhamos. Muitas pessoas boas apareceram para ajudar. Mas ele tinha recaídas. Como não somos ricos, não podíamos bancar clínicas de recuperação. Também não havia, por parte dele, força de vontade para abandonar o vício.

Um dia, recebemos um telefonema e saímos como loucos para o Instituto Médico Legal. Aos 26 anos, ele levou três tiros de um traficante. O corpo estava ali, inerte. Era o nosso pequeno menino, sem ar e sem mais nenhuma perspectiva de ser algo além de um drogado. Choramos e o enterramos. Infelizmente, a dor cedeu lugar ao alívio. Ele não estava mais se matando aos poucos.

Guardo a foto dele da primeira comunhão. Um anjo. E guardo no coração e colado nos olhos a imagem dele naquela mesa fria, sujo, morto em sua juventude e levando com ele uma parte enorme de nossas vidas. Ele se foi, mas nunca deixará de estar entre nós. É uma parte arrancada das entranhas de quem o amava de fato”.

Nota da autora: Esta é uma carta fictícia, mas muitos pais poderiam ter escrito tal mensagem. Aquela cervejinha, a maconha que muitas vezes experimentamos na faculdade, as más companhias que, por não conseguirem mais se matar sozinhas, querem estar acompanhadas, estão por toda a parte. Há casos de superação. Há quem consiga dizer não. Portanto, se você é jovem e usuário de drogas, lícitas ou ilícitas, pense que a “felicidade” por elas propiciadas são meras ilusões, fugas, curtição que a nada levam, enfim... Pense duas vezes antes de começar qualquer coisa na vida, sobretudo o primeiro gole e o primeiro trago. Afinal, porque será que cigarro e bebida são tão acessíveis e baratos, além de liberados pelo governo? Porque eles geram impostos. Mas eles também detonam em alguns a vontade de ir além. Só que aí já entram em cena os policiais truculentos, os traficantes, a dependência. E esta, em nenhuma situação, vale a liberdade de poder viver sem se matar ou matar quem nos ama.

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    *IZA CALBO é jornalista (aposentada) e escritora


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