SONHANDO ENCONTRAR UM MEIO DE FICAR RICO DA NOITE PARA O DIA SEM ROUBAR DE MADRUGADA!
Arte: Francci Lunguinho
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Curtidor das boas frases, mesmo não sendo essa uma frase boa, mas simples provérbio, um dos mais tolos, peço licença aos meus dois leitores para citá-lo pela primeira vez em uma das minhas mal-traçadas: "cabeça fazia é oficina do capeta!". Por que o provérbio? Bom, como dizia o Jack, o Estripador - olhem aí que beleza! -, vamos por partes.
Pois bem, para que o capeta não fizesse dessa cabeça sua oficina nessa quarta-feira, estando ela nesse dia tão vazia quanto todos os dias vazias estão as cabeças da Carla Perez e da Wanessa Camargo, tratei logo de inventar o que fazer: descobrir um meio de ficar rico da noite para o dia, sem que seja preciso roubar de madrugada.
Lembrei do Brecht e de sua famosa e hoje exaustivamente repetida frase "muito melhor que roubar um banco é fundar um banco". Lembrei apenas. Pois, logo depois da lembrança, me bateu a fraqueza dos fracos (sic) e oprimidos. Um banco daria muito nas caras, muitas sujas, daqueles que me vêem como um sujeito honesto e, mais que isso, orgulhoso de haver herdado toda essa honestidade do seu velho pai Heráclito de Almeida. Fundar um banco...
A idéia ainda balançou este escriba. Imaginei-me só paletó e gravata, charuto cubano na boca, babando vinte e quatro horas. Isto é, o charuto e os ex-crotos que legalizaram os meus negócios em família, tutti buona gente. E me vi desfilando num último modelo de quatro rodas. Num banco, seria como a famosa raposa tomando conta do galinheiro. Só uma coisa, uma e apenas uma: ficaria péssimo na fotografia. Nunca gostei das caras de gansters dos donos de bancos. E a minha cara, a nova, por força da profissão, teria que mudar.
Sem a idéia fixa da fundação de um banco na oficina quase vazia da cabeça, o capeta em oficinas outras, a idéia fixa de enriquecer da noite para o dia, sem roubar de madrugada, continuou. E descobrir um meio que justificasse todos os fins, continuou a ocupar essa oficina. Uma Ong! Por que não criar uma Ong para estudar, por exemplo, a influência dos raios solares na menstruação da fêmea do mosquito da Dengue?! As Ongs, como muitos sabem melhor que este escriba, inocente ainda nessas falcatruas, recebem dinheiro pelas janelas e portas da cozinha.
Mais fácil e dependendo das circunstâncias, renderia mais que um banco. Melhor: daria menos dor de cabeça. Simples. Bastava a pose de sujeito sério e defensor da natureza. Essa, a artificial, a sua, pois a natural, embora tão perversa quanto qualquer outra, é menos triste. O fundador de uma Ong, obrigatoriamente, para melhor enganar a torcida, teria que ser fã do ministro Carlos Minc, e detestar Pitbull sem corrente e focinheira. Ser amigo declarado dos animais, seria muito bom. Inclusive dos humanos.
Para aprender a disfarçar mais ainda as suas péssimas intenções, para eles, claro, pois, para você que deseja enriquecer são as melhores do mundo, assim como o samba do Noel Rosa que não se aprende no colégio, você precisa ir até onde os sem-terra estão, e aprender com alguns deles o que o seu dia-a-dia nunca vai lhe ensinar: viver de peixe, sem nunca ter usado um anzol. Seja um artista, não espere que eles venham até você.
Uma Ong, depois de reconhecida, é uma boca maior que a desse mundo que se cair um dia no meu vaso sanitário não pensaria duas vezes para puxar a descarga. Uma boca maior que mil bocas do Emílio Santiago num mesmo agudo escancarado de sua Saigon. Por aqui tenho encontrado ongueiro que embora não sendo o dono da marca, mas apenas simples convidados a comer o bolo pelas beiradas, só anda de roupa e sapato de marca, e faz barba e cabelo em casas de massagem.
Também poderia criar uma Ong em defesa dos pobres e sonhadores onanistas que sofrem por acreditar que as suas homenagens a Onam resultarão, mais tarde, em montes de pelos que em nada têm a ver com aqueles do desejado - com exceções, claro -, belo e escalado Monte de Vênus. Seria, sem dúvidas, uma novidade. E assim como acontece todos os dias, sabendo que o povo vive torcendo para descobrir algo diferente debaixo desse sol maior, ou mesmo fora desse tom, em pouco tempo a Ong mãe daria vários filhotes. E tudo ficaria em casa.
Mas, como vem acontecendo comigo nos últimos dias, uma observação muito justa e feita por um dos meus dois leitores, descartando tudo que me parece mera ilusão do momento, se penso, insisto nesse pensar, acabo penso e, para não cair, logo desisto. E foi assim, pensando nessa quarta-feira, principalmente nela, que desisti dessas duas boas idéia que poderiam fazer deste escriba um sujeito rico da noite para o dia, sem ter que sair por aí roubando, numa boemia ilícita, pela madrugada.
Uma igreja?! Sendo do tipo calça-de-veludo-ou-bunda-de-fora, também deixaria a idéia, como a pedra do Drummond, no meio caminho. Ou disputaria dízimo por dízimo com a Igreja Universal, ou não faria sentido criar apenas uma igrejinha entre amigos. Nesse caso, seria apenas mais um caminho, pois, o pedágio, iria todo para os cofres do Bispo Macedo. Não daria certo. Desisti.
E quando a oficina da cabeça parecia esvaziar, oferecer-se de pernas - cabeça tem pernas? - abertas às artes do capeta, eis que uma boa idéia, sem nada parecer com aquela outra da cachaça, mormente agora com essa leizinha - quase não bebo, pensem bem - forçar de barra em detrimento de uma educação ainda que tardia, respondeu presente: por que não trocar a fundação de um banco, pela fundação de um Partido Político?! Se dá dinheiro?! Botem dinheiro nisso. Uma loteria acumulada e dividida entre poucos amigos, porém com toda a família. Senão, vejamos.
Na última notícia que os meus olhos famintos de letras pescaram, o Tribunal Superior Eleitoral havia repartido 42% do Fundo Partidário entre as 28 legendas registradas. Se vocês acham que não vai dar certo, lembrem-se do "Gerson a gente tem que levar vantagem em tudo". Vai dar, sim! Se continuarem achando é porque não sabem que neste lucrativo - para eles - ano de 2008 míseros R$ 135.614.982,00 (leiam com atenção) serão destinados aos partidos entre amigos. Se é fácil fundar um partido? Mais que uma quadrilha. Basta um registro em cartório e as assinaturas de um rol de amigos dispostos a ganhar um dinheirinho fácil.
É analfabeto? Não se preocupe. Se você conhece duas ou três palavras mais que a candidata do município de Itamaracá, a "cantora" Gretchen, está aprovado. Estamos, pois, conversados: o PBDC está criado. No princípio, o verbo na ponta da língua, pensei em PPQP. Esse, porém, que logo caiu na boca do povo, foi criado e não pegou. Por isso, vou de PBDC. O que significa? Espero que um dos meus dois leitores descubra e conte, via imeio, para este escriba que espera enriquecer sem tomar partido de ninguém.
Até Quinta, Isabelas.
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*Humberto de Almeida é escritor.
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