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» JOÃO PESSOA, 18 de setembro DE 2008

A Ingratidão Cega e Os Ingratos Também Merecem um Ensaio Sobre a Sua Cegueira!

Arte: Francci Lunguinho

Nesta quarta-feira que mesmo estando distante do carnaval me pareceu feita de cinzas, por aqui tudo escuro feito breu, leio o poeta Augusto dos Anjos e me descubro um sujeito sem quaisquer angústias e/ou problemas aparentes. Sou um sujeito que se não busca problemas, empresta aos amigos as soluções dos muitos problemas da vida resolvidos na privada de sua casa. Leio Augusto dos Anjos e sem nenhuma angústia, conforme o confessado (olha a assonância aí, minha gente!), me deparo com a ingratidão – esta pantera! – que foi a sua companheira inseparável. A poesia de Augusto dos Anjos, pelos menos para este escriba, às vezes que o meu poeta Mario Quintana chega à sala ela sai pela porta da cozinha. Se com o Mario ele morde o lábio, com o Augusto deixa o lábio mordido sangrar. E como sangra...

Nos bons e saudosos tempos de Heráclito de Almeida a Lei do Gerson ainda era uma idéia na cabeça de seus patrões e a vergonha uma herança maior deixada por Heráclito de Almeida para os filhos seus, entre os quais, orgulhosamente, este escriba se inclui. Lembro que a ingratidão era vista como uma forma de fraqueza. Somente os sacanas, membros do Movimento dos Sem Caráter e Sem Vergonha, ingratos, passeavam os seus rostos lombrosianos cheios de desprezo por uma gente bonita, séria e honesta. Desde os tempos mais remotos, o Goethe, todo iluminado e pedindo mais luz, já dizia que os homens hábeis - esqueceu de acrescentar "e honestos" - nunca são ingratos.

Por outro lado, esse o lado francês, o Honoré de Balzac que descobriu centenas de anos antes do Luiz Antonio que uma Mulher de Trinta bem conservada valia por duas de quinze, costumava dizer que toda a ingratidão provém da impossibilidade de pagamento da dívida. É fácil constatar o fato entre os muitos banqueiros que abrem os seus bancos durante o dia para o nosso dinheiro, e nos rouba esse mesmo dinheiro pela madrugada. O tipo do ladrão inteligente – convenhamos, existem muitos - e sabedor que somente se enriquece da noite para o dia roubando pela madrugada.

A gratidão, embora muitos continuem confundindo as coisas e tentando ficar livres da dívida dessa maneira, não se paga com dinheiro, cheque emprestado ou disposição para ser avalista daquele que lhe foi grato um dia. Os ex-crotos, mesmo que neguem dentro e fora das cadeias, esses que estão fora e formam uma maioria esmagadora, sabem que a gratidão não requer do pagador o uso do dinheiro que ganhou com as ingratidões praticadas em vida, ficando ricos, mais ex-crotos ainda e sem quaisquer vergonhas na cara.

E o que é o pior que ingratidão? Segundo o teólogo Henri Ward Beechert, outro sujeito que assim como o escriba é puto e meio e botem puto nisso com a ingratidão, muito pior que a ingratidão é ter que suportar a gratidão. Ou seja, o ingrato sabe que o grato nunca receberá em dinheiro, com juros e correção monetária, a gratidão feita.  Recusa-se a receber em dinheiro o bem que fez. E sem querer condena o ex-croto e ingrato a passar o resto da vida sofrendo no corpo magro e na barriga cheia de chope. Na consciência, porém, nem pensar. Os ex-crotos e ingratos não têm consciência.

Este escriba por mais que tente, esforce-se até o saco dizer "basta, pois se não se estouro!", nunca conseguiu ser ingrato. Mas sacana que também nunca foi confessa que não é do tipo de aproveitar a máxima da imbecil história do "amor com amor se paga", e pagar com gratidão a ingratidão que lhe fora feita. T'áqui pra eles! Deu pra imaginar o tamanho do dedo médio levantado? O tempo de oferecer um lado da face ainda não batido depois de batido o outro acabou com o ingresso do revólver no progresso (viva o Noel Rosa!) para acabar com a valentia.

Hoje, com o Machado de Assis na moda, nada melhor que lembrar o Bruxo do Cosme Velho. Em suas memórias que não eram ainda as do seu Brás Cubas, o mulato teimoso – ora, lugar de mulato era na cozinha - costumava dizer que a ingratidão é um direito que não se deve fazer uso. Bonito, não? Um direito errado (sic) por quem insiste em usá-lo.  E, por isso mesmo, sujeito a uma boa pena. É ou não de fazer dó?

Lembrando o quão em vida fora grato aos amigos, embora muitos tenham sido sacanas e ingratos com ele, lembro também o quanto sofreu de ingratidão o meu irmão, hoje quase ji-paranaense, que foi obrigado a deixar sua terra para sobreviver e hoje viver numa terra que nunca será sua. E como esquecer o nosso saudoso Livardo Alves, o autor da cantada e decantada Marcha da Cueca, sendo chamado para cantar de graça em praça pública como se palhaço, com todo respeito a esses profissionais, ele fosse?  Vou morar noutra cidade fazendo minhas as palavras do perturbado Martinho Lutero: "Existem três cachorros perigosos: a ingratidão, a soberba e a inveja. Quando mordem deixam uma ferida profunda."

Por fim, sobrevivendo entre os ingratos e os poucos gratos dessa minha quarta-feira com cinzas num céu se preparando para abrir as comportas, esperando a hora de meter o meu voto numa urna molhadinhha como tapioca untada de manteiga da terra por todos os lábios, deixo com vocês a muito boa sacada do espanhol Miguel de Unamuno sobre a ingratidão: "Não dês a ninguém aquilo que te peça, mas aquilo que achas que necessita; e suporta logo a ingratidão."

E não é que o sujeito, assim como macaco daquele velho programa humorístico, está com a razão?

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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