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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 14 de agosto DE 2008

Gretchen: Uma Candidata Abundante Roçando Numa Pedra Que Canta



A senhora Maria Odete Brito de Miranda, conhecida no mundo pela abundância dos movimentos dos quadris pelo nome artístico de Gretchen, chamada por muitos de dançarina e excelente cantora, o mesmo nível de Preta Gil, Wanessa Camargo, Kelly Key e tantas outras que ainda não descobriram o quanto são geniais, depois de trinta anos de sucesso, segundo a própria, livre e espontaneamente, está dizendo adeus à profissão.

Depois de muito rebolar, segura de sua inestimável contribuição à história da nossa mais legitima Música Popular Brasileira, vai enveredar pelo campo político, prometendo fundos e mundos, principalmente esses primeiros, candidatando-se à prefeitura da vizinha cidade de Itamaracá (PE), logo ali, bem pertinho da minha Província das Acácias, capital Parahyba, pelo Partido Popular Socialista (PPS).

Na Ilha da cirandeira Lia, onde estive um dia desses, nem para encontrar Lia, pois Lia está sempre por aqui, nem para dançar ciranda, pois de ciranda não gosto, mas por um simples mudar de ares, os itamaracaenses (assim mesmo) pouco falam na velha (aos 49 anos, mesmo sem rebolar, ainda quebra um galho) ex-rainha do bumbum. "Eu gosto da Grete (sic) dançando, balançando a bunda para a gente vê. Pra prefeita ela não dá não", disse-me um jovem eleitor e vendedor de cervejas da praia do Sossego.

Embora a vontade não fosse tanta, mas interessando no papo do andarilho comerciante, resolvi pedir uma latinha. Um papo molhado desce melhor, pensei. Senti, também, que o sol por ali, nessa época, apesar de estados vizinhos, em nada se parecia com o meu sol parahybano neste mesmo mês de julho. É mais preguiçoso.

Enquanto a cerveja descia lentamente, meio a um papo um tanto despretensioso, disse para ele que a cantora - as aspas, nunca esqueçam, são indispensáveis - Gretchen, morando na cidade há dez anos, embora nem um dos itamaracaenses soubessem me informar com segurança onde ela estava residente e domiciliada, estava candidata à prefeitura de sua ilha, e pronta para mostrar que, assim como Maguilla e Tiririca, também era intelectual.
 
Mesmo com a sua agenda cheia, continuei, meio a esses trinta anos de balançar com sucesso sua cabeça pensante, conseguiu ler um livro do começo ao fim. Um livro muito difícil. Leu Cartas a um Jovem Político, obra-prima do intelectual e mestiço Fernando Henrique Cardoso, aquele do pé na sala e outro na senzala. E se Deus quiser, quando chegar o dia da eleição, uma vez que se livrou das quase intermináveis epístolas - mesmo não sabendo, gosta de falar difícil, diz que causa boa impressão -, já estará sabendo o significado das três letrinhas (PPS) que identificam o seu partido.

Nesta altura do campeonato desconfiei que o bom itamaracaense e vendedor de cervejas estava pensando que este escriba era mais um cabo eleitoral da popuzuda. Se desconfiava por sua vez, ele estava desconfiado.

Pouco a pouco, porém, fui mostrando que nunca me dei bem com esse tipo de patente.  Nada de cabo. Se fui soldado, foi por acaso, uma solda desnecessária. Em minha bela Província das Acácias, assim como sempre vivi, cheguei ao exército inteiro. E se a Gretchen prometer que eleita dará um show, toda semana, portas abertas, no salão nobre da prefeitura?
 
Não adiantou. Em matéria de abundância, disse preferir hoje a Mulher Melancia.

O itamaracaense estava desconfiado. Depois de ouvir toda a minha abundante defesa, votará num candidato da Ilha. E quem sabe no candidato do dono do depósito de bebidas que financia as suas vendas. Um cara legal. Se não vender todas as cervejas que carrega na caixa de isopor, ele receberá. E sem cara feia.

Acha Gretchen "uma mulher arretada" pra ver rebolando, mostrando o que tem em abundância. É bem diferente de um Gilberto Gil que sai por aí apregoando que o "melhor é deixar pra trás". Gretchen, ao contrário, o que tem atrás põe na frente de tudo. Mas, insistindo, pergunto-lhe se sabe o que significa a palavra Itamaracá. Balança a cabeça negativamente. Pedra que canta. Não daria um bom casamento, uma pedra que canta e uma bunda dançante? Ele sorri. Eu também.
 
Tinha razão de estar desconfiado. Eu parecia mesmo estar tentando, embora cabo eleitoral, como já falei, não fosse, demovê-lo de votar em outro candidato que não fosse a Gretchen. E nesse papo molhado lembrei que a "cantebum" - aquela que canta com a bunda - bem que poderia formar uma dupla com o seu ídolo Frank Aguiar, deputado paulista pelo seu partido, cãozinho dos teclados que aprendeu marcar o ritmo de seu forró de plástico com latidos típicos de cães vira-latas. Nenhum voto no mundo pagaria a chance de se ouvir, numa mesma noite, obras-primas como Freak le boom boom e Conga, conga, conga, interpretadas pela cantora Gretchen, agora prefeita de Itamaracá, e Mulher entretanto Madura e Valeu Boi Sucesso Valeu a Vaca, pelo fenomenal compositor e cantor  Frank Aguiar.

Por adorar línguas, que não disse se frita ou ao molho pardo, um tira-gosto típico da região, como prefeita, Gretchen seria perfeita. O eleitor e vendedor de cerveja, sossegado como a praia em que cerveja vendia, nada entendeu. Eu brincava. A verdade é que a cantora, com exceção da língua pátria, muito difícil para ela, disse que se eleita ou não estava pensando em estudar línguas.

Está aprendendo aos pouquinhos a língua de Camões, que ela chama de Camonge, e que melhor seria se fosse a do Drummond. Somente agora aprendeu que o sujeito não pode, mesmo em caráter litigioso, separar-se do verbo. Sobre a língua pátria, porém, foi modesta. A sua última obra-prima, um filme pornô que lhe rendeu uns bons trocados, está aí para mostrar. Embora entre calada e saia muda, provou que é boa de língua.

O itamaracaense tudo ouvia calado. E quando me preparava para solfejar para ele um dos clássicos da candidata, lá do outro lado, uma madame quase ilha, cercada de  banha por todos os lados, o chamou. Não esperou um segundo chamado. Pegou a caixa de isopor, sacudiu-a no ombro, e saiu antes que eu dissesse que Gretchen também era o nome da canária favorita de Pio XII.
 
Depois da eleição, ainda na ressaca da urnas, voltarei  à ilha para assistir a um show de Gretem. Espero que nesse dia o imortal Frank Aguiar esteja presente. E aproveitarei, como não poderia deixar de ser, para terminar o meu papo com o bom vendedor de cervejas, que a pressa não me permitiu perguntar-lhe o nome.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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