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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 10 de julho DE 2008

NO VOTO NINGUÉM SE PERDE, OU COMO ESCOLHER O SEU SANGUESSUGA!

ESTAVA ENSAANDO umas mal-traçadas a respeito do pedreirenese João Batista do Vale, um das melhores referências do nosso caldeirão musical verde e amarelo, quando o meu rádio, sintonizado numa velha FM local, tocou a Cowboy Fora da Lei do nada folclórico Raul Seixas. O Cowboy é uma musiquinha alegre e de letra bem feitinha. Pensei. Em seguida, lembrei que até esta data não tinha escolhido os candidatos que não irão merecer o meu voto para prefeito da Província das Acácias. Temos seis.  E pelo que se anunciam, nove fora, para o escriba, vai ser igual a zero.

A letra do descobridor de que é preferível ser uma metamorfose ambulante a continuar com aquela velha opinião formada sobre tudo - "Mamãe, não quero ser prefeito ser que eu seja eleito/ E alguém pode querer me assassinar/Eu não preciso ler jornais/Mentir sozinho eu sou capaz..." – ficou, até agora, na minha cabeça. Esqueci, pois, pelo menos enquanto escrevo estas mal-traçadas, o João do Vale que conheci em nosso Teatro Santa Roza, muito bom-papo e ótimo copo, para contribuir para um país com menos ex-crotos brincando de representantes da gente. Assim, dando exemplos dos crotos e ex-crotos nos quais nunca votei, ressaltei o cuidado que se deve tomar na hora de meter a sua bronca na urna. Voltarei com o João do Vale nas próximas mal-traçadas.

Pepitta E. Larápio - Apesar do diploma de datilografia e haver terminando o curso primário sem nenhuma repetição, continua um homem simples e roubando menos do que merece.  Não gosta que falem do seu passado. "Merda mexida, fede muito mais" é a sua frase de cabeceira. Foge de mulher casada, como o diabo da cruz. Principalmente se ela for casada com ele. As coisas dele são "preto no branco". Por isso, embora nunca tenha confessado, um Pelé na área do campo da penitenciária, prefere as mulheres brancas. Um amigo – leia-se comparsa - que disse colocar a mão no fogo por ele, cumpriu a promessa, mas acabou queimado dos pés à cabeça. Seu passado é conhecido e comentado.  Em especial, pelos velhos companheiros de cela, que ainda sentem a sua falta. Na hora de votar, não esqueça: melhor um Larápio amigo, a um ladrão anônimo.

Jones Perma: A cidade toda o conhece. É famoso por copiar assinaturas e usá-las em causa própria. Persistente, como o Governo deseja todo brasileiro, não desiste nunca. Se você não votar nele é capaz até de roubar-lhe o voto. Diz, cheio de orgulho, que nunca foi honesto na hora de declarar a sua renda - o imposto fica com a gente, nunca esqueça. Muito orgulhoso, costumar alardear por aí que jamais praticou um só ato honesto em sua vida. Eleito, promete lutar por uma Lei que regularize esse meio de sobrevivência, pois acha que não existe ainda. Um lembrete: seu número é 171. Roubou de um companheiro de cela.

Xuxu da Serra - Vote nela certo de que, mesmo não eleita, receberá algo em troca. Diferente de muitos outros políticos deu nesta vida mais do que recebeu. E sem esperar nada em troca. Dá porque quer, ninguém tem nada com isso. O eleitor, com ela, vota duas vezes: um voto na urna do TRE, e outro na urna dela. Boa comerciante lucra em toda transação. Recebe o grosso com prazer, dá um balanço para gozação da platéia e fica com o liquido. Eleita, promete continuar trabalhando e dando para todos. No exercício do mandato, provando que cumprirá tudo que disse na campanha, dará aos amigos o fundo de garantia. Um alerta: o xuxu dela, apesar da ausência do ch, dá do mesmo jeito.

Gerson, o Direita do Ouro de Tolo – Vote nele, e aprenda a tirar vantagem em tudo nessa sua vidinha de replay. Logo cedo descobrirá que ser pobre é uma merda.  Honestidade é como virgindade: depois que se perde, acabou. Se ela fica sem uma coisinha de nada, o sacripanta sorri com cara mais filhodaputa do mundo. Se muitas dizem que nessa perda a dor é menor do que o gozo, com o falso honesto, sobretudo aquele que está sofrendo uma barbaridade por estar honesto e continuar pobre, a coisa é diferente. Um alívio. Não dói nadinha. É como na história do primeiro sutiã. O sujeito nunca esquece aquele dia. Mas, voltando ao Gerson, o Direita de Ouro de Tolo, ou você fica rico da noite para o dia, roubando de madrugada, ou passará o resto da vida pelas madrugadas bêbedo, fugido e mal pago.

Ali Babão - O bom nesse candidato é que você o elege junto com mais quarenta amigos dele e do alheio. Sabendo que você é o seu eleitor, toda a sua família vai poder dormir e acordar cada dia mais pobre, mas com segurança. Ali, que é o daqui, não precisa de Partido para se candidatar. Basta a força da quadrilha, digo, dos amigos. Sendo bom matemático saberá dividir muito bem o lucro com todos – sempre os amigos – que contribuíram para a sua eleição. Se os candidatos que você conhece roubam, mas negam, vote em Ali. Em ali você vota sabendo que, embora não faça nada, como muitos, ele rouba e não assume o roubo. Um sujeito sincero. Nunca negará que roubou, mas que está roubando. E, se eleito, vai roubar mais ainda.

Paul M. Aluff - Apesar do nome é brasileiro e corrupto convicto. Desde menino aprendeu com o pai a sonhar alto. Ou rouba para construir o maior edifício de São Paulo, ou não comete a besteira de roubar para comprar apenas um apartamento. Só concorre a mandato de prefeito pra cima. Não tem currículo, mas Folha Corrida. Não tem amigos, mas comparsas. Depois de eleito, nunca dará as costas para o leitor.  No seu sotaque carregado de coisas ruins, todas roubadas, diz "que o voto foi dado livre e espontaneamente". Por isso, retribuir nunca. Ou recebe, ou rouba. Tem o nome associado ao trabalho. Um gozo. Mas os invejosos, esses que não chegam nem perto dele em corrupção, desejam é um dia é vê-lo associado ao trabalho forçado. Ficha suja? Só a ficha, não. Um rei Midas ao contrário, em tudo que ele toca vira lama.

CONCLUSÃO: O eleitor percebe que são muitos os candidatos a uma boquinha.  Portanto, escolha o seu sanguessuga com calma; vote sabendo que, se votar num ladrão com firma reconhecida, respeitado e conhecido de todos, ele nunca trairá a sua origem, jamais praticará um ato honesto. Eles são - quase que escrevo eleição! – iguais aquele escorpião da história que não conseguindo dominar o instinto picou o batráquio, depois que ele o ajudou a atravessar o rio. São desonestos, ingratos e ladrões. Não mudarão nunca.

Até quinta, Isabelas.

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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