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» Humberto de Almeida publica o blogue EU PLURAL // Este autor escreve às quintas-feiras

» JOÃO PESSOA, 3 de julho DE 2008

LEMBRANÇAS DE LÚCIO LINS, O POETA DO MAR

apaguem-me o nome para que eu morra em absoluto
Lúcio Lins


Foi numa sexta-feira branca a última vez que encontrei o poeta Lúcio Lins. Era um shopinzinho faltando pouca coisa para ser chamado de popular. Por coincidência, ambos com chapéus panamá nas cabeças e branquinhos feitos picolé de coco. Nem parecia que o meu amigo estava próximo a trocar de roupa e se mudar para outra cidade. A Morena que me acompanhava nesse dia, como em quase todos, alegria sempre em alta, só percebeu a sua presença quando eu mostrei. Ela também gostava um bocado daquele companheiro de poesia, letras e bares.

- Olha lá o poeta sonhando com mares nunca d'antes navegados!

Senti que era o mesmo Lúcio que meses atrás me convidara o para uma associação de Fato & Direito. Sabia há muito que nas horas vazias de poesia, que eram raras, o poeta exercia a arte do Direito. No entanto, para mim, vez que não o encontrava fazendo outra coisa a não ser contando as suas b histórias de marinheiros e astrolábios perdidos, vê-lo trabalhando com Leis, Artigos e Incisos era estranho. Trabalhar juntos?!  Era impossível. O tempo para o Direito era pouco, e a poesia tomava-lhe todo o tempo.   

Lembro que ao me ver sorrindo com a proposta, balançou a cabeça, empinou-se feito galo de briga, e acrescento um forte "nunca falei tão sério".  Não esperaria mais, justificou, iria ganhar dinheiro com o Direito, "especializar-se em dano morais".  Ainda pensei em responder-lhe que da minha parte continuaria ganhando o meu parco salário e vivendo com a esquerda. Mesmo não sendo canhoto. Mas, sentindo-o mais sério que o de costume, preferi silenciar. A barra para o poeta não estava nada boa.  Viver de poesia era como alimentar-se de vento.

Trabalhamos juntos pouco tempo.  Porém, a fome de poesia dele somada a minha sede lítero-musical, secaram o rio na nascente. Mesmo no exercício do Direito, Lúcio era poeta. Não adiantava. Suas petições eram verdadeiros poemas de sínteses e comparações. "Ora, 1 Berto, por que complicar se a coisa pode sair sem complicação? Direito não é somente prova e prazo? Tenho as provas e serei tempestivo - ele não gostava dessas palavras de paletó e gravata jurídicas - O resto virá com a Sentença!".  Se tudo fosse tão prático como sonhava o poeta, o Direito nunca daria tão errado.

Naquele dia no shopinzinho quase popular, Lúcio estava mais calado do que nunca. Dessa vez, pensei, alguma coisa está mesmo fora da ordem. Por mais que me esforçasse, naquela tarde, se não tivesse dito eu nunca saberia. Sempre magro, não percebi que nesse dia ele estava mais magro ainda. Tomava chope como um peregrino que acabou de atravessar o Saara.   Não me viu chegar, diria depois. E só não me chamou de primeira – ele gostava dessas expressões – porque tinha certeza de que eu não ouviria. Tinha razão. Os primeiros acordes dos artistas contratados para animarem o espaço daquela "casa de plástico" começavam a soar – e doer – em nossos ouvidos.

- Diga lá, Poeta!

A sua marca registrada. Todos os amigos eram chamados assim, poeta.  Mas se faz necessária uma ressalva. Não existiam quaisquer ironias no tratamento. Ele chamava poeta como se poeta fosse o nome primeiro do amigo que encontrava. Também não existia no tratamento um vaidoso e latente desejo de receber em troca uma resposta carinhosa, eximindo-se dessa poética homenagem, e creditando-a ao poeta verdadeiro que era ele. Lúcio Lins era simples como a sua poesia.

Ficava feliz às vezes que o encontrava. Mais ainda quando dividia com ele poesias & outras histórias pelos bares da vida regadas a enluarados copos de chope. O shopinzinho quase popular estava vazio nesse dia. Era cedo ainda. Apressados que somos nessa busca insensata por um lugar no futuro, chegamos primeiro. E Lúcio mais ainda.   Parecia--me tranqüilo. Tinha cara era de quem passou a noite tecendo poesias nos braços de Morfeu.

A notícia destoante não tardaria por vir.  Veio limpa como a sua poesia. Nada de tristeza ou rancor.  Foi como se estivesse falando de uma coisinha de nada, insignificante para a sua poesia e a sua vida poética. Se não tivesse falado, mesmo sendo a poesia uma língua capaz de traduzir os sentimentos dos poetas, suas dores e alegrias no rosto ou na alma, jamais desconfiaria que naquela tarde Lúcio Lins já estivesse de roupa pronta para se mudar para outra cidade.

- È, poeta, estive afastado das noites. Esse bicho tem dessas coisas... Quê bicho? O caranguejo, poeta, o caranguejo me pegou. Está acabando com os meus pulmões.

Não ousei socorrer-me da exclamação na sua confissão porque estaria pedindo o socorro errado. Estaria mentindo.  Lúcio Lins falou do caranguejo canceroso com a tranqüilidade de quem estava pedindo um desses cheios de patas para tirar o gosto da lapada da cana de cabeça que acabara de tomar. O caranguejo saiu leve como o vento que balança as palhas do coqueiro de sua praia Cabo Branco, uma de suas mais conhecidas fontes de inspiração.  


Naquele dia fui para casa certo de que o meu amigo estava indo embora. Era só esperar o dia da partida. Tinha pouco tempo. Talvez nem desse  para saber  se o paletó da despedida estava sob medida. Tempo para mais algumas poesias, pagar a conta do bar e deixar na mesa gorjeta do garçom.  Mas não pensem que nesse nosso último encontro pela vida - ainda o visitaria em seus estertores - o poeta estava triste. Ele brincava! Era como se em cada esquina a morte não lhe esperasse. Nunca esquecerei. Não vi o medo da morte no rosto do poeta.


Lúcio costumava dizer que a situação andava tão braba que foi contar a sua história para o carroceiro e até o burro chorou. Além de raro poeta que foi Lúcio tinha uma presença de espírito admirável. A história do burro chorão era apenas mais uma entre as tantas que imaginava na área de lazer do seu exercício poético. "Ora, se o sujeito não morrer, como vão acreditar que um dia ela passou por aqui?". Tudo bem, Lúcio, mas não precisavas provar isso tão cedo.


 Lembro que recebi a noticia de sua mudança pelo telefone. Senti no pesado silêncio que antecedeu a voz do mensageiro que outro colega acabava de partir.  Era Lúcio Lins.  O caranguejo, finalmente, venceu a batalha. Aos 57 anos, diferente de muitos, pois era do mar, Lúcio mergulhara nas profundezas de sua Cabo Branco. E como prova maior que passou por aqui nos deixou a sofrida lembrança e a sua poesia.

 Que a terra lhe tenha sido leve como as suas lãs da insônia.

Esses são os poemas que ele mais citava em nossos papos. talvez por serem curtos, belos e precisos.

Morte absoluta

quando morto aos cães
sirvam-me os ossos
aos urubus
sirvam-me a carne
sirvam-me a mim
o meu silêncio
e apaguem-me o nome
para que eu morra
em absoluto

 

Lado que cavo/que covas

quando de um lado
cavo
do um outro
covas

é no cimento armado
                         armando
a arquitetura prolixa
de não sobre sim sobre não
quando de um lado
cavo
covas
de um outro



Duas margens

quando o tempo
me cobrir os céus
com a anágua suja
da tua espera
e teus lábios
forem duas margens
um
gritando calmaria
outro
clamando tempestade
eu voltarei
de corpo e barco
e por ti
seguirei minha viagem

navegarei
entre teus braços
e segredos
eu
serei teu búzio
tu
serás o meu degredo

(um poema musicado por Chico César)

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    *Humberto de Almeida é escritor.


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