A FLECHA PRETA DO CIÚME
Arte: Francci

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Não sei se é por força da profissão. Mas, livre e espontaneamente, sempre gostei de começar um assunto, polêmico ou não, como por exemplo o daquele em aquele em que o Marcelo Madureira atirou Glauber no ventilador, com uma confissão. Sendo assim, nessas mal-traçadas, como o ciúme é o mérito da questão, não posso deixar de confessar: nunca tive essa coisa doída e cantada em versos e prosa, chamada de ciúme. Mas, com as desculpas antecipadas aos ciumentos, confesso ainda que sempre achei o ciúme uma frescura de quem vive com o rabo preso ou medo que lhe roubem o rabo.
O ciúme, segundo os entendidos (no melhor dos sentidos) é aquele famigerado sentimento doloroso que as exigências de uma amor inquieto, o desejo de posse da pessoa amada, a suspeita ou certeza de infidelidade, fazem nascer em alguém. O ciúme, como se vê, não é uma coisa boa. Na definição deixa claro a dor, a exigência, a inquietação, a suspeita e infidelidade. Respondam-me, então: isso pode prestar?
O ciúme é um chá indigesto que alguns doentes de amor, embora neguem esse desejo, continuam ingerindo a cada declaração apaixonada. Mas há um ciúme que eu ainda escuto falar – ou seria "cantar"? – e permaneço um bom tempo sem ir ao banheiro. É aquele famigerado ciúme cantado e responsável por belas canções nascidas de uma suportável dor de... isso mesmo, corno. Essa em que os apaixonados se entregam bêbedos de paixão, mas, mesmo bêbedos de matar de lenço, desconfiados da fidelidade da mulher amada.
Gosto de ouvir, embora com algumas restrições pelo derramamento exacerbado, o ciúme cantado por Chico Buarque (Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci"); Lupicínio Rodrigues (Amigo Ciúme), Noel Rosa (Com ciúmes do gerente impertinente) Herivelton Martins ("Foi o ciúme que se debruçou sobre o meu coração") Caetano Veloso ("O ciúme lançou sua flecha preta") e, entre outros, Roberto Carlos, que não vou citar porque são muitas e de poucas eu gosto. Porém, algumas confissões ciumentas agridem tanto a música que dão um dó maior dentro do peito de quem as ouvem. As suas letras sofredoras, feitas naquele ritmo de "sou o mais lascado de todos os apaixonados", acabam maltratando esses ouvidos cheios das "lapadas nas rachadas".
Ora, quem tem saco para ouvir e gostar e curtir uma coisa como "tenho ciúme do sol, do luar e do mar, tenho ciúme de tudo, tenho ciúme até da roupa que tu veste?" A letra, além de ser de um mau gosto feladaputa, é uma confissão de loucura. Uma pessoa assim, podem escrever: precisa urgentemente de um tratamento de choque. O problema não é do compositor Waldir Machado. Ele, sujeito inteligente, está apenas vendendo o peixe dele, e muito bem. O povão encornecido (Guimarães Rosa não pode?) e besta gosta. Fim de papo. O mesmo que continua enchendo as "burras" das nossas duplas sertanejas e achando que estão pagando por um produto de boa qualidade.
E aquele outro grupinho idiota que em tempos idos saiu por aí gritando para a infiel "eu me mordo de ciúmes"? Para o escriba, mordida é pouco. Merece mais um ultraje sem rigor algum. Sendo ele, tomaria estricnina ou colocaria "chumbinho" na salsicha do cachorro-quente. Andar se mordendo por aí de ciúmes, convenhamos, não é uma coisa normal. Pior que se morder de inveja ou morrer de medo. Não sei quem foi que disse que o ciúme era a lepra do amor. Então, botem lepra nisso...
E quem não se lembra de Deni e Dino, duplinha sem graça que tentava animar as "jovens tardes de domingo" com uma musiquinha em que dizia '"se há ciúme é porque existe amor/ muito ciúme também pode causar dor"? A dor, pelo que imagino, pois não posso afirmar com certeza, uma vez que nunca senti a dita cuja, deve ser – de novo! – isso que chamam por aí de "dor de corno". Se há ciúme é porque existe amor... Então o amor é o Ping e o ciúme o Pong. Não podem viver separados. E haja frescura.
Até que gosto do João Bosco e do Aldir Blanc, dupla responsável por uma das mais belas figuras da nossa MPB ("Nuvens lá no mata-borrão do céu /Chupavam manchas torturadas"), quando dizem em sua Latin Lover que '"hoje morre, sem revólver, sem ciúme, sem remédio. De tédio...". Um tiro certeiro no Álvaro!
Pois é justamente isso o que ocorre com o escriba, quando ele escuta essas confissões lamentosas. É certo que tem muito gente por aí caindo pelas tabelas e morrendo de ciúmes. De minha parte, porém, revelo aos meus dois leitores que prefiro morrer de tédio. E acrescento mais um motivo: nunca gostei de vodka. Agora, se o ciumento morresse mesmo de ciúmes, este escriba seria o primeiro a mandar flores e desejar ao finado "muitos anos de morte!"
Em tempo: Aguardem. Em breve Humberto de Almeida também no EU PLURAL!
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*Humberto de Almeida é escritor
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