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» JOÃO PESSOA, 12 de junho DE 2008

Como Era Verde O Meu Vale!


Era um menino besta e sonhador que achava que o grito que não ouvira nas margens plácidas do Ipiranga também valeria para ele. E costumava dizer para as suas alpargatas havaianas, compradas por João Heráclito, o irmão mais velho, que, depois dele, nunca mais seríamos os mesmos. Nem o menino, nem o rio Ipiranga, nem o dono do grito. Por muito tempo um sujeito todo engalanado, cara forçada de homem-mau, montando um cavalo que parecia ter acabado de sair de um quadro de Pedro Américo, desfilou na passarela de sua memória. E, para ilustrar mais ainda a cena, outros cavalos na sua rasteira.

Um grito forte e retumbante. O que era forte ele sabia. O seu pai sempre lhe falava do Forte de Santa Catarina, na cidade portuária de Cabedelo, e que hoje, quase inservível, deixa todos que vão ali a ver navios. Forte, ele sabia que ele era. O retumbante, não. Somente anos depois, talvez por achar a palavra horrível - perde apenas para a palavra "fome" -, viria a saber o verdadeiro significado. E por implicância, essa que nem Jung, esse mais Freud do que nunca, esteja o escriba usando-a pela primeira vez em minhas mal-traçadas.

Nos anos sessenta, pés descalços, calças curtas, braços nus e nada nos bolsos ou nas mãos, por mais que me esforçasse não encontrava um só significado para aquela exposição narcisista de canhões, metralhadoras, tanques, milhares de soldados pelas ruas, sérios como se fossem de chumbo. Lembrando o Tex Willer, seu herói dos quadrinhos, revistinha que depois de lida por um colega professor universitário, toda semana, recebia de presente, achava que aqueles jovens vestidos de verde da cabeça aos pés fossem a nossa Cavalaria. Um Caxias na frente, pose de duque, representando o invencível (quase, pois, lascou-se, recebeu no rabo um Pequeno Grande Chifre) George Armstrong Custer, preparada para fuzilar qualquer um que ameaçasse a nossa soberania.

Os canhões nas ruas e os tanques sobre esteiras retumbantes (risos), destruindo o calçamento e os ouvidos do menino, demonstravam o peso (leia-se medo) daquele pelotão verde como a esperança de uma democracia que não viria, como diria a minha mãe Chiquinha, de mão beijada, mas conquistada anos depois. Ela veio aos pouquinhos, em  gotas, remédio indispensável à vida do povo brasileiro. Uma recomendação, porém, todos traziam na cabeça:" tomar sem agitar". A semana era da pátria, não dos brasileiros. E a pátria, desconhecendo a sua língua, não era a sua.

Mais tarde, descobrindo as próclises, mesóclises e ênclises, escolhendo entre muitas a mais bela das figuras de sintaxe, ficou amigo das metonímias, anacolutos e, principalmente, das cacofonias. Só não gostava daquele "solés mãe gentil". O que era, afinal, um solés? E o pai, sério como um daqueles soldados que desfilavam, respondia à queima-roupa que os seus ouvidos precisavam melhorar. Embora cantassem "solés", dizia, ouvissem "solo és". Era o velho clarinetista escandindo as palavras e dividindo os tempos da música do Chico da Silva. Sendo que, também Manoel, esse não poderia nunca ser confundido com o Chico da Silva sambista.

Independência ou Morte, ou Eu Quero é Mocotó? A dúvida que a turma do Pasquim botava no ar, via - e lia - Jaguar, confundia ainda mais a cabeça do menino. E, olhando bem, bem que parecia. Imaginava um sujeito ressacado, usando roupa própria de quem estava próximo a entrar  numa fria,  acordando  e perguntando  a  sua – dele – mulher se tinha conseguido a independência que sonhara ou estava só o  cadáver.

Passados os anos de chumbo, leve como uma pluma,  sorrindo mesmo, lembro o menino e assisto na parada da memória o seu desfile quase carlitiano, botas maiores que os pés, farda maior do que ele, e mosquetão enferrujado no ombro. Se deu alguns tiros com ele, para sua felicidade, errou todos. Entrou no exército, esse mesmo que "desapareceu" Jerônimo, como contei outro dia por aqui, e saiu como se nele nunca tivesse entrado. Ah, ficou uma lembrança: no dia que sentou praça, como diria, mais uma vez, o meu Compadre Heráclito, ouviu o Zé Américo de Almeida falando e desconheceu o autor das belas tiradas d'A Bagaceira. Sem o auxílio da palavra escrita, exaustivamente por outros revisada, o escritor era apenas mais um assassino da gramática.

Em Tempo:
O escriba poderia, como pensou, chamar estas suas mal-traçadas de "O Meu 7 de Setembro Era Uma Parada". Mas, réu confesso, fã declarado desse sujeito que sabia fazer westerns - "eu faço westerns!" - como nem um outro, lembrou que o seu filme tinha tudo a ver com a sua história.  Então, tá.

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Humberto de Almeida é escritor


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