1968 - O Ano Que Não Vivi

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PARA OS LEITORES que não me conhecem, uma confissão: sou um sujeito que costuma e gosta muito de escrever sobre aquilo que vive ou viveu. Tenho esse defeito. Não saberia transformar em verdade, por mais que insistisse, uma mentira vivida ou contada por quem acha que viveu essa mentira. Na ficção, tudo bem, a coisa é outra. Tudo é permitido. Se dou vida a um personagem na esquina, na próxima, sem nenhum remorso, antes mesmo de ela estar atenta e forte, sem temer a morte, mato-o de morte morrida ou matada.
POR TUDO ISSO, embora tenha estudado e vivido - por que não? - Augusto dos Anos, Zé Lins do Rego, Guimarães Rosa, Mário Quintana - esse eu conheci de perto -, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drumonnd de Andrade e tantos que dividiram comigo Essa Terra do bom baiano Antonio Torres, não falo deles como se estivesse falando, por exemplo, do irmão que deixei em Ji-paraná, mas que sempre viveu comigo e comigo dividiu as suas histórias.
NESSA MINHA curta vida de consumidor de arte, sempre pautei os meus escritos e as minhas histórias de encontros e desencontros na verdade. Escrevo e falo neles, mas não deles. Se de perto ninguém é normal, como cantou um dia o Tolstoi e o Caetano Veloso, assim como o nosso Zé Ramalho que também cultiva esse péssimo costume, cantou sem dizer o nome do galo que cantou primeiro, ratificando o que disse o principezinho cor de rosa do qual tanto gosta o meu irmão de que nada (e ninguém) é perfeito, a distância em que vivo desses sujeitos impede-me de falar de suas pessoas, como se próximas elas estivessem. As pessoas dos artistas. Vocês entendem.
ISTO TAMBÉM me acontece com o ano - e o livro - do Zuenir Ventura, o 1968 - O Ano que, se para ele Não Terminou, para este escriba estava apenas começando. As minhas histórias de 1968, principalmente as do não menos famoso mês de maio não são histórias contadas pela criança que naquele ano acabava de sair dos cueiros, mas por quem as viveu e, por mais que tentem, não conseguem esquecê-las.
MEIO aos muitos imeios que por acaso caíram em meu saite neste mês de maio alguns perguntavam o que este escriba, cheio de palavras nas pontas dos dedos e frases na ponta da língua, estava fazendo no fatídico mês de maio de 1968. Se não respondi a todos - só tomei ciência do nosso Correio das Artes, quando a edição já estava fechada -, para alguns deixei claro que ainda inocente puro e besta, nascido às margens das águas de Tambaú, estava em casa guardado por Deus, sem contar o vil metal, com Dona Chiquinha e o Compadre Heráclito falando sobre - a minha - "nova consciência e juventude".
SOMENTE ANOS depois, vez que naquele ano ainda não era um amalucado por cinema, um cinemaníaco, entre as muitas manias musicais e literárias que também adquiriria com o passar do tempo, viria saber que só no ano de 1968 houve a estréia de - uma diversão para os cineastas! - de 5.289 filmes! Uma tentação! E assim, sem pressa, jogando bola-de-gude e ouvindo música pela clarineta do Compadre Heráclito, pouco a pouco, descobriria o cinema de Jean Luc Godard, Alain Resnais e, principalmente, um dos marcos daquele ano, John Richard Schlesinger, com o seu Perdidos da Noite, exaustivamente exibido em um dos nossos cinemas.
ENTRE AS HISTÓRIAS que me seriam contadas mais tarde pelos sobreviventes daquele ano, entre Beatles, Marx, Vietnã, Tropicália, Bossa Nova, Tropicalismo, Primavera de Praga e patati e patatá e, segundo os viventes e sobreviventes do ano do Zuenir Ventura, a intransigência do reitor da Universidade Nanterre, proibindo que alguns porraloucas que ali estudavam dormissem com a suas Dulcinéias, todos, sem querer, Don Quixotes por acaso, muitas jamais deixariam a parede da minha memória.
UM DOS IRMÃOS mais velhos, estudante de letras do Liceu, colégio onde o nosso Augusto dos Anjos estudara e, posteriormente, viria a ensinar, comprara uma bolsa em onde estava escrito Poder Jovem, com uma UNE bem pequenininha lá embaixo. O meu pai, sabedor das coisas mas um tanto arredio por saber do perigo que corria quem dessas coisas soubesse, pedia insistentemente para que ele não a usasse. Uma simples bolsa de plástico de segunda categoria, colorida, mãos se apertando, e nela escrito Poder Jovem. Foi mais ou menos por essa época que, por subverter a ordem, soldado gritando para o tenente, ele tirou os seus primeiros e únicos meses de cadeia em sua vida.
NO QUARTEL próximo a minha casa, o primeiro Grupamento de Engenharia e, graças Deus, o último em minha vida, agora, longe do meu bairro Jaguaribe, uma decisão tomada pelos meus pais que, como falei, menino saído dos cueiros não poderia contrariar e, mesmo se crescido estivesse não o contrariaria, a família de Jerônimo procurara notícias suas. A mãe, falando baixinho, como se estivesse contando o segredo de sua vida, informara que contrariando a ordem dos homens de pés de chumbo e consciências leves como a pluma que o vento levava pelos ares verdejantes, Jerônimo, desobedecendo-a, fora ao centro da cidade gritar palavras de ordem e desaparecera.
O SILÊNCIO era dos mais barulhentos. Ninguém sabia. Ninguém viu. Ninguém ouviu falar o seu nome. Os militares, porém, do soldado raso ao oficial mais fundo, sabiam que Jerônimo chegara ali pela madrugada, capuz na cabeça, somente equimoses e hematomas. Naqueles anos não havia coluna de "desaparecidos" nos jornais locais. Também não havia programa televisivo mostrando fotografia 3 x 4 do "desaparecido", pedindo para quem soubesse do paradeiro do fotografado entrar em contato com Maria ou João. Jerônimo, lembra um colega foi entregue aos militares como um produto a ser descartado com urgência. E, para não contrariar a escuridão na qual vivia o país, chegara pela madrugada.
ENQUANTO ISSO, lá fora, na Casa do Corpo da Guarda, distante poucos passos dos passos limitados pelo cubículo de 3 x 2 onde Jerônimo ficara "hospedado", tudo pago pelo presidente Costa & Silva, Jerônimo ouvia falar em Pink Floyd, Dee Purple, Led Zepellin, Beatles, Rolling Stones, Santana, Jimi Hendrix e Janis Joplin; Mutantes, Caetano, Gil e Geraldo Vandré.
AS NOTÍCIAS musicais que vinham do exterior eram trazidas pelo soldado Sólon, roqueiro antenado com esse mundo. Por outro lado, Bezerra, outro soldado, esse mais literário, sacava como ninguém as coisas de Nietsche, Roland Barthes, Karl Marx, Josué de Castro, José Marti e, principalmente, do Che Guevara. O Bob Dylan? Esse, como falei, era com o Sólon. E assim o papo seguia embalado pela literatura de Bezerra e a música de Sólon. Dentro do seu cubículo, Jerônimo não lia, não cantava e, há dois meses, já não era carnaval.
O MEU MAIO de Meia-Oito, mais que um mês, foi um marco (desculpem a figura). As histórias de um Jerônimo que nada tinha de Herói do Sertão, marcaram o menino. Porém, as do meu pai tirando na clarineta o Hino Nacional e a do meu irmão, testemunha da história, carregando na bolsa o sonho de um Poder Jovem, marcaram muito mais.
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Humberto de Almeida é escritor
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