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1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 29 DE MAIO DE 2008

Existe Algo de Podre no Reino Deles, e Podres Vão Continuar!


Não sei se já aconteceu com o leitor, pois, com este escriba, aconteceu e não foi só uma vez. Ouvi a frase, gostei, usei duas ou três vezes e, por fim, cansado de ficar naquela do "como alguém já disse", procurei saber de quem era a dita cuja. Um Beto Bom de Bola no meu bairro Jaguaribe, sem saber nada ainda do Sérgio Ricardo, aquele famoso pela violada em pleno festival, toda frase que o menino ouvisse e dissesse um pouco do que ele gostaria de dizer, mas, por falta de mais "adultice", como amenizava a mãe Dona Chiquinha, não conseguia, citava inúmeras vezes em seus escritos para não esquecer.

Foi isso mesmo que se deu com o William, o  Shakespeare, sujeito  genial, cheio de problemas, intrigas e maldades, que ele descobriu com o seu Romeu e Julieta, no finado Cinema Jaguaribe, décadas passadas, o Paradiso do meu bairro. A descoberta, porém, diferente da tragédia entre os Montagues e os Capulet, se deu mesmo quando, outro dia, fora do cinema, desse vez no seu quarto de dormir, livro e mente abertas, deparou-se com aquela figura angustiada, dizendo frases desconexas, crânio na mão e um ar de quem acabara de sair de um leucotomia.

Por mais
que a pelada no Campo da Vila, hoje, feira livre onde poucos são aqueles que não estão presos aos seus cheques especiais e, menos ainda, aos seus cartões de crédito, chamassem o Beto Bom de Bola à disputa, ele relutava. Botou na cabeça e tinha que descobrir a quem pertencia aquele crânio que lhe tirava o sono. O Shakespeare era complicado demais para o gosto do menino. Ou melhor: ele gostava mesmo de complicar. A frase, porém, a famosa to be or no to be, exaustivamente repetida por um dos irmãos mais velhos, estudante de letras, tinha se tornado tão comum que parecia pertencer a sua língua. Ser ou não ser, eis a questão. Por que, afinal, uma frase tão simples, mais uma crise existencial, ficara tão famosa?

Não esqueçam
que a preocupação aí de cima era a do menino. Pois bem. Assim, preocupado, saiu em busca de sua questão. Era a casa de amigos, livrarias e sebos, que, na época, eram raridades por aqui. Em todos os lugares ele buscava obras do Gênio de Stanford. Agora, imaginem só a dificuldade. Num tempo em que, graças a Deus, não existia o Paulo Coelho, mas o Herman Hesse era a bola da vez, esse  milhares de vezes melhor que o parceiro do Raul Seixas, Shakespeare ainda era uma grande promessa (risos). Finalmente, ele descobriu o Hamlet. E descobria, também, que era nele que a frase estava. Veio, então, mais uma questão, que, por tabela, também caía no "ser ou não ser": em que momento a frase fora pronunciada?

O menino
foi em frente. Meteu a cara na leitura – como falei aí em cima, Shakespeare, para ele, poderia ser menos complicado – e, surpresa das surpresas, o inesperado, se desfazia o mistério: a frase fora proferida pelo próprio, o Príncipe da Dinamarca, no terceiro ato da tragédia! Até isso, descobrira. Terceiro ato. Ficara feliz. Hoje, descobre um tanto feliz, que a "sua frase", conhecida no mundo como sinônimo de indecisão, virou moda. E ele, inocente, puro e besta, passou um bom tempo de sua adolescência imaginando ser a questão do "ser ou não ser", mesmo sem Parada Gay naqueles tempos, coisa de bicha enrustida. Estava enganado. Ser ou não ser bicha, eis a questão. Só mais tarde, porém, tudo ficaria esclarecido.

Hoje,
porém, com quase dois metros de altura, crescidinho e cheio de adultice, lembrando, mais uma vez, Dona Chiquinha, não sei mesmo o porquê da tanta pose na cara do ator, um crânio sem graça na mão e uma loucura quase sempre excessiva, que interpreta o Hamlet. Lembro ainda que, por mais interessante que possa parecer, somente anos depois, na casa de uma amiga de copo e de cruz, o menino descobriria que naquele famoso solilóquio o Hamlet tinha as mãos vazias! Pois o crânio -  a pedra no caminho de sua leitura - somente chegaria às mãos do Príncipe da Dinamarca no quinto ato, na inesquecível cena do cemitério!  E demorou muito para ele aceitar um Hamlet sem aquele marca de ossos na mão - o crânio de Yorick, seu bobo predileto - proferindo sua frase mais famosa.

Tem uma
outra frase do Shakespeare que quase todo mundo sabe, cita, mas nem um - pelo menos para este escriba - conseguiu decifrar ainda o seu verdadeiro sentido. Sempre assim. Menino curioso e nada versado nas obras desse sujeito que ele achava complicado, tentava inúmeras vezes, mas nem perto chegava. Qual era mesmo frase? Tá na ponta da língua, e no meio destas mal-traçadas: "Há algo de podre no reino da Dinamarca". Agora que os meus poucos leitores sabem, embora crescido, peço que ajudem ao pobre escriba, pondo fim a indecisão do menino: esse podre aí se refere ao quê mesmo? Fosse por aqui, tudo bem, ele saberia. Mas, no reino da Dinamarca?

A frase,
hoje sem a dúvida do menino do to be or not to be, foi dita por Marcelo – não se espantem, estou com ele ao lado; o Marcelo, não, o livro –, na cena 4 do primeiro ato. Marcelo é o oficial de Hamlet. Mas, deixando o livro de lado, gostaria era de ouvir de algum especialista em Shakespeare a origem desse odor putrefato, sentido e reclamado pelo Marcelo. Mais um mistério. Estariam cozinhando o urubu flamenguista, após a surra que levou do América mexicano, no  Maracanã? Ou, depois de um lauto almoço, alguém próximo a Marcelo, teria dado um pum daqueles de cebola com ovo cozido? Como vocês lêem, são muitas interpretações. Mas nenhuma que nos faça sentir ou imaginar a podridão sentida por Marcelo.

Há algo
de podre no reino da Dinamarca. Teriam acabado de puxar a descarga de um banheiro público, aquele  usado por soldados rasos e populares? Fosse em nossos tempos, poderia a ir  adiante e encontrar o real sentido da frase de Marcelo. Poderia, por exemplo, dizer que o Marcelo era um senador e que o mau cheiro ali, no Congresso Nacional, era uma coisa corriqueira. Principalmente depois de cada votação dos nossos insignes - quase escrevo insign...ificantes  - representantes.

Mas, depois
de tantas lembranças e tentativas, confesso que até o momento em que escrevo estas mal-traçadas, não consegui imaginar que cheiro foi aquele sentido pelo Marcelo. Vou continuar tentando. Um dia, quem sabe, voltando à Brasília, eu possa encontrar alguma pista. Será a minha vez de reclamar. Não contra esse algo de podre que logo cairá no lugar comum, mas contra a podridão que há de ficar depois do cheiro passado.

Rosebud para todos.

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Humberto de Almeida é escritor


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