Em Busca do Engenho de Zé Lins e Outras Histórias
Foto: Divulgação

Vladimir Carvalho e o cartaz do dkcumentário "O Engenho de Zé Lins"
ESTOU SEGUINDO para a terra de Zé Lins do Rego. Embora conheça muito bem os seus campos de pelada, onde, sem nenhum sonho na cabeça de ser Pelé ou Garrincha, muitas peladas bati, nunca visitei Pilar, distante poucos quilômetros da minha amada e idolatrada Província da Acácias, capital parahybana, com tamanha curiosidade para conhecê-la melhor e, no descuido dos velhos guardiões, roubar do Engenho Corredor uns pés de sua cana doce como mel.
ENQUANTO A VISTA se perde no verde do canavial, lembro o Menino de Engenho. Não esqueço, porém, de lembrar do Ataulfo de Paiva, seu antecessor na Academia Brasileira de Letras - cadeira nº 25 -, famoso por ter chegado àquela casa "sem nunca ter gostado de um poema". Por duas vezes essa Academia sacaneou o meu poeta Mario Quintana. Uma, preterindo-o pelo José Sarney, autor do intragável Maribondos de Fogo; outra, pelo Eduardo Portela, dono de uma obra desconhecida por muitos, mas por muitos, conhecido como um "competente" ministro do famigerado regime militar. A cabeça, teimosa, continua a fabricar pequenas historias.
"DEIXOU QUE O MARIDO erguesse meio corpo fora da cama, depois de haver gritado por socorro, repetidas vezes, agudamente. As três horas da manhã. Morto de sono, ele perguntava "o que foi? O que foi?". Muito expedita, ela enfeixou o despertador com a mão direita e esmigalhou-o contra o crânio do companheiro. E, como se nada tivesse acontecido, apagou a luz, virou de lado e dormiu outra vez, com um sorriso leve na boca".
NÃO LEMBRO do meu velho e saudoso pai Compadre Heráclito lembrando - como lembrava do "parente do grande Augusto dos Anjos" - ter visto por aqui, especialmente no colégio Pio X, onde estudou, esse flamenguista que fez o nosso Vladimir Carvalho ser flamenguista também. De minha parte, ser Flamengo nunca teve nada a ver com os dois. Mas, uma ressalva: em primeiro lugar, sou 1 Berto; em segundo, 1 Berto de novo. Somente em terceiro, depois de ratificada essa minha condição de ser, sou Flamengo sou até morrer.
DENTRO DO CARRO, sem o meu amor, a menos de 100 km por hora, pois o asfalto não está lá essas coisas, "um verde que chega a doer", como escreveu a nossa Cátia de França em sua - nossa - Ponta do Seixas, sigo em busca da terra do Zé Lins. E, eis que de repente, ou mais que de repente, como diria, se vivo estivesse, o Vinícius de Moraes, meus dedos fabricam outra historiazinha.
"SEU MAIOR orgulho era a coleção de retratos dele mesmo. Sua mãe tinha iniciado o álbum e ele, tão logo pode, continuaria a tarefa. Um homem com mais de quarenta anos e sete mil fotografias! Tinha o costume de afugentar os amigos com uma risadinha cínica e a proposta: "querem ver-me?”.
OS DEDOS param sobre as teclas do computador. O Sávio Rolim é a bola da vez. A memória dá um drible seco nas lembranças, e o coloca na marca do pênalti. Paira no ar um grito de gol. Sávio Rolim. O menino, hoje, mais bagaceira que de engenho, esqueceu o Zé Lins, para no final do seu triste depoimento, lembrar que o poema era do Walter Lima Jr., tão-somente pelo fato de ele ter conseguido transformar a simplicidade do seu texto em belas imagens. Fica o silêncio de Carlinhos, seu personagem, que pontua todo o filme. Sávio Rolim não fala. Não precisou. Mas, o que é isso?! Outra historiazinha.
"PEGOU A CANETA e pensou: "Por que eu vou ter de aceitar isso?" Por que ele é o patrão?! Tudo bem. Pode ser o patrão, mas não tem três bolas!" E depois dessa reflexão psico-fisiológica, escreveu: "Seu Gonçalves, a resposta é não. Posso ser capacho por profissão, mas não vou ser penico por escolha própria!".
NUM PAPO com Hildeberto Barbosa Filho, crítico e poeta que sabe de poesia e de crítica como poucos, Vladimir Carvalho falou das dificuldades - e de sua bela visão - encontradas para fazer o seu O Engenho de Zé Lins, vencedor do Troféu Câmara Legislativa do Distrito Federal na categoria longa-metragem. Nas vezes outras que visitei Pilar e bati pelada no campo do Engenho de Zé Lins, o engenho ainda não era só escombros. Está melhor, disse, pelo menos o casarão onde viveu a família do escritor - e flamenguista - está bem conservado. Mas, estaria mesmo? Pergunto e, como resposta, outra historiazinha responde presente.
"PEGOU A CANETA e pensou: "Se eu ainda fosse romântico, talvez mandasse flores, junto com um bilhete perfumado. Mas acontece que o passar do tempo e o assumir de compromissos castrou o meu romantismo". Estas reflexões passavam rápidas por sua mente. O expediente ia em meio. Para rematar, foi direito ao assunto: "Como é gostosura?! Posso pagar com cheque?!"
AH, FELIZMENTE - ou seria infeliz mente? -, terra à vista: avisto Pilar! As historiarizinhas então dão lugar a HistóriA, com letras maiúsculas no começo e no fim, do genial Zé Lins. Na próxima semana, se outra história não aparecer no caminho, vocês ficarão sabendo como encontrei o Engenho dele e, claro, como ele continua. Até quinta, Isabelas.
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Humberto de Almeida é escritor
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