Geraldo Vandré: "Quero Que Me Esqueçam!"
Para Dapenha e Paulo, que gostam das minhas histórias vandrenianas.
Foto: GloboOnline (Magda Botafogo)

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Não lembro mais quem me contou a história. Lembro apenas que foi no ano de 1979, quando a Simone, ainda não famosa pela péssima pronúncia e os esses engolidos, pegando uma boa carona no trabalho dele, gravou Pra Não Dizer Que Não Falei de Flores, uma de suas mais simples composições, melodia fácil em dois acordes mais fáceis ainda. Conto a história da forma que me fora contada. Pois bem. Nesse dia, pelo menos por aqui, não se tinha ouvido ainda um acorde sequer da sua mais famosa. Era noite. Telefonaram para ele, que nesse momento dividia a sua angústia com alguns poucos amigos num barzinho beira-mar, e deram-lhe aquela que imaginaram ser uma boa notícia, a esperada.
- Grande merda!
Deu para perceber - e vocês perceberam - que a noticia não tinha nada de boa. Uma resposta, como vocês estão lendo, curta e grossa. E, se não bastasse, ainda hoje uma de suas características, grávida do mais puro rancor. A lembrança é amarga. Não raras vezes me deparo nesse rancor com que ele, diferente do Gonzaguinha que pouco a pouco foi afrouxando o nó da gravata angústia que lhe apertava o pescoço, se despediu do mundo no qual escolhera viver ainda moço - "eu quero ser cantor de rádio, mãe" - com as suas fortes e muitas belas composições e a mala cheia de desilusões. Hoje, 40 anos depois de sua caminhada em direção ao sucesso com a sua Pra Não Dizer que Falei de Flores, embora nunca tenha, como assegura, pretendido fazer sucesso com ela, volta à cena negando tudo que fez e pedindo tão-somente para ser esquecido.
Por aqui, um de seus mais próximos colegas, isto se ele ainda consegue ter um colega e confiar nele, depois de inúmeras tentativas, finalmente, conseguiu com que ele atendesse a sua ligação, Segundo esse colega de batente, sem nenhuma surpresa, descobriu que agora, depois de viver entre São Paulo e a capital da Parahyba, escolheu Brasília para viver - ou sobreviver. Parece estar gostando de viver - ou sobreviver - no Planalto Central do País. Acha muito bom morar na capital de um país que não é o seu. Por que não é o seu? Porque, ainda hoje, costuma dizer, vive nele com um exilado.
Geraldo Vandré está mais desconfiado do que nunca. Não gosta, sob qualquer hipótese, de falar do seu passado. Nada a declarar. O que tinha para dizer foi dito. Hoje, a sua vida, diferente do que muitos pensam, nada tem de interessante. Aos 73 anos (quando setembro vier), um velho esquisito e de poucas palavras, Vandré não fala, parece resmungar. E resmunga ainda mais ainda quando fala sobre a venda da casa onde nasceu, no centro da capital, por um de seus parentes. Segundo o colega, desde esse dia, não veio mais à Parahyba. "Fazer o quê?". A pergunta tem sentido. Afinal, nada mais lhe prende por aqui.
Como advogado e um dos legítimos herdeiros - com certeza, não foi nomeado inventariante - bem que poderia intervir na transação. Não o fez. Também, embora o colega não tenha perguntado, nada disse a respeito do negócio. Foi mais uma frustração. Há muito que tinha na cabeça a idéia de transformar a velha casa, caindo aos pedaços, em fundação. Segundo o colega, o nome da fundação já estava definido: VanMar. Não perguntou o porquê do nome, nem ele, conforme o colega deixou transparecer, pensou em explicar. Insiste em continuar confundindo o que diz, e fingir - é o que se deduz - esquecer o que um dia foi. Ora, com mais esse sonho destruído, viria fazer o quê mesmo por aqui?! Depois dessa, desabafa, pensa em não vir tão cedo à pátria, agora, desamada.
Falei noutras mal-traçadas que Geraldo não aceita o Vandré Artista. Hoje, como declarou no papo Brasília versus Cidade das Acácias com o colega, não passa de um cidadão comum. O Vandré morreu. E se insistem em lembrar o compositor, o assunto é a sua Fabiana, canção dedicada à Força Aérea Brasileira.
Não faz tempo que um governador por aqui, esse, metido a artista, razoável poeta e bom papo, sabendo que ele estava perambulando pela cidade, arranjou-lhe - vejam só - um emprego de fotógrafo do Palácio da Redenção, como é chamada a casa do governador, no centro da capital. Depois da "Carteira assinada", só satisfação, era comum vê-lo perfilado em festas cívicas realizadas em praças públicas, a mão direita no peito esquerdo, cantando, mais patriota do que nunca, o Hino Nacional. Segundo o colega, hoje ele diz ser admirador da disciplina dos quartéis(?). Tudo bem. Era o cidadão comum, Geraldo, e não o artista, Vandré, quem cantava, impávido e colosso, o "Ouviram do Ipiranga".
É costume antigo do compositor de Pequeno Conserto Que virou Canção estar sempre na defensiva. Falam muitas mentiras a respeito dele, inventam muitas histórias, dizem coisas que nunca a ocorreram em sua trajetória artística. Muito pouco é verdadeiro. No entanto, o que chama maia a atenção dos que viveram, leram ou ouviram falar do compositor de Disparada (não esquecer o Theo de Barros), é a sua negação do quase ídolo - não tenho ídolos, continuo insistindo, pois, todo ele, sem distinção, tem pés de barro e os cu de hemorróidas - que Vandré poderia ter sido meu um dia e de muitos que conheço, especialmente, do meu irmão Paulo de Almeida.
Recentemente, sem quaisquer explicações plausíveis, lembrando aquele presidente de triste memória que pediu para ser esquecido, pediu para ser esquecido. E demonstrando uma coerência incomum, embora puto com tudo aquilo que é proibido, proibiu Elba Ramalho de gravar a sua Canção a Despedida, essa que repetidas vezes negou a parceria do Geraldo Azevedo. Nada demais. Apenas não deseja que gravem as canções que fez em um certo momento de sua vida. Não lhe faz bem lembrá-las. Só isso. E, para encerrar o papo, mais uma vez, segundo o colega, diz, bate no peito e reconhece a firma: "Nunca fui torturado. Meu exílio foi espontâneo". Ah, sobre a derrota de sua Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores para a Sabiá do Tom e Chico, 40 anos depois, é sucinto:" Nada a contestar, como nunca contestei".
Mas, como pediu um dia o colega que conseguiu descobri-lo, em Brasília, cada vez mais contraditório, deixemos que esse quase genial ancião faça o que bem entender com o seu Vandré. É pai da criatura, e tem todo o direito. "I want to be alone". Tudo bem. Vamos deixá-lo sozinho.
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Humberto de Almeida é escritor
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