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1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 08 DE MAIO DE 2008

Livardo Alves e a Verdadeira História da Marcha da Cueca

Eu mato! Eu Mato!
Quem roubou minha cueca
Pra fazer pano de prato” - L.A

Maria Nita Vieira Alves, simplesmente Nita, como ele carinhosamente chamava a companheira, que esteve ao seu lado até o dia em que trocou de roupa e foi mora n’outra cidade, conta entre a tristeza e uma saudade, apesar dos anos, não menos doída, que não sabe precisar o dia. Uma sexta, talvez. Mas, talvez também, um daqueles sábados, dia de feira livre por aqui, quando os tira-gostos eram mais gostosos. E, por isso mesmo, longe de tirar os gostos dos presentes, davam aos seus gostos aquele gosto que, sem eles, o mesmo gosto não teriam.

Nita pensa um pouco, e confirma: foi mesmo num sábado. Uma noite de sábado. E nesse dia, os boêmios, felizes por não desejarem um lugar ao sol, abriam-se de corpos e almas para recebê-la. Naqueles anos, a cachaça da Turma de Jaguaribe era a Coca-cola, gelo e limão, que, misturados como os mais antigos lembram com as bocas salivando de saudades, acabavam numa Cuba Libre. Era o nosso mojito, dizia esse herói e bandido do meu bairro, no Bar de Rufino, como se ali fosse sua La Bodeguita Del Médio.

O lugar é comum, mas inevitável. Para ele, compor era respirar. Sem a música, morreria por falta de ar. Lembro um dia, entre umas e outras, num barzinho somente plantas e descoberto por ele, vizinho a nossa Universidade Federal, essa mesma que o autor de A Bagaceira, em sua fundação, mostrando o quão bom frasista era, vociferou para os estudantes “Eu vos dei raízes, outros vos darão asas!”, em que me falou horas sobre a sua forma de compor, para, no final, concluir que não sabia explicar como a música surgia em sua cabeça: “De repente vem aquela coisa, e fica mastigando lá dentro. Porra! O que é isso que não me deixa pensar! Aí eu paro, e digo pra mim: “Cara, isso é música! O interessante é que eu não vou atrás dela, é ela quem vem a mim!”. Foi o que disse numa longa entrevista - mais um bate-papo - que, pouco a pouco, espalharei neste espaço internético.

Livardo Alves é compositor, também, de Eu Dou Mil, umas das primeiras músicas de duplo-sentido desse país, não raras vezes, sem sentido duas vezes: “Eu dou mil, você dá mil, é mil meu, com mil teu, vai ser legal, são dois mil pra brincar o carnaval!”. Era uma frase chistosa; um ar de não estou nem aí; um arrastar despretensioso de chinelo; o canto do sabiá; um vôo do bem-te-vi; o Ponto de Cem Réis, nossa boca maldita; a praia de Tambaú; um cachorro vira-lata e, como costumava lembrar, a Mata do Buraquinho, pedaço de mata atlântica, localizada quase no centro da capital parahybana, que ele me dizia ser a sua casa. Suas composições tinham vida, porque Livardo vivia o que escrevia.

Nesse dia, como a Paris do Hemingway, o Bar do Rufino era uma festa. Excelente caráter, bom papo, prestativo, Livardo Alves estava sempre cercado de amigos de verdade, de copo e de cruz. Era maneiro como um sapateador. O último dos nossos boêmios. Pois bem. Foi justamente nesse dia de festa, que Jackson, um dos notívagos presentes, assim como ele, resolveu ir - e foi - ao banheiro.

Lá chegando, como todos de fora perceberam, para desovar os ovos que acabara de comer, sentou-se na velha bacia sanitária, e fez diferente: tirou os sapatos, a calça e... a cueca! Em seguida, como uma roupa comum dependurada na corda qual bandeira agitada, deixou-a exposta em uma das divisórias que separavam o banheiro da área de lazer. Os amigos - Livardo Alves nunca assumiu a autoria da peça -, então, brincalhões, vendo aquela peça íntima mais pública do que nunca, pegaram e esconderam a dita cuja. E, enquanto isso, Jackson dava vazão ao pandeiro.

Depois de desovado, barriga aliviada, antes mesmo de pensar nos sapatos e calça, o óbvio ululante, Jackson procurou a cueca. Puto susto! Olhou para o chão, nada; deu uma daquelas famosas olhadas trezentos e oitenta graus, nada também. Afinal, onde foi parar sua cueca?! Não demorou muito para a conclusão, aos gritos, vir à tona: “Eu mato! Eu mato! Eu mato! Mato o feladaputa que roubou minha cueca!”.

Bem, o resto é lenda. Livardo Alves que tudo ouvia, compositor que aos dez anos faria a sua primeira composição, o Buraco do Bombeiro, também baseada em fato real, uma de suas características, a tragédia de um bombeiro que caíra num buraco no quintal do vizinho, não pensou duas vezes: “Porra! o cara me entregou a marcha prontinha, 1 Berto!” E entregou mesmo. A maçã acabara de cair sobre a cabeça genial do mais eclético dos nossos compositores.

Poderia ter começado estas mal-traçadas dizendo simplesmente que Livardo Alves da Costa, falecido em 16/02/2002, segundo o escrito por aí, é apenas mais um dos compositores d’A Marcha da Cueca. Lendo-as, um dos meus dois leitores, por sua vez, diria já ter ouvido A Marcha da Cueca. O outro, porém, mais antenado, diria que a música era uma espécie de Hino Carnavalesco composto pelo Mendes, Sardinha e “um tal” de Livardo Alves. Mentira. A Marcha saiu da cueca de uma homem só, transformada numa das mais autênticas marchinhas carnavalescas pelo meu amigo Livardo Alves.

Comecei as minhas mal-traçadas contando a história do nascimento d’A Marcha da Cueca, certo de que os poucos leitores meus, gostem ou não do carnaval,  ouviram  o canto desse galo carnavalesco, mas não sabiam de onde esse canto  vinha. Pois bem. A Marcha da Cueca é uma composição do meu amigo Livardo Alves, mas, infelizmente, por direito conquistado, na força e na marra também, passou a ser dividida com um tal de Mendes e outro tal de Sardinha.

“Ora, 1 Berto, fiz a Marcha da Cueca e, como tantas outras coisas minhas, nunca pensei nessa coisa de registrar. Uma marchinha (e que marchinha!) tão simples! Cantava com amigos sem aquela intenção mesquinha - mais uma prova de sua pureza - de comercializar uma coisa que já era do povo! O meu pagamento era a felicidade de ouvir pela sua boca uma “brincadeira” que fiz em menos de um minuto! Uma multidão com cheiro de carnaval! No meu tempo carnaval tinha cheiro!”. Livardo Alves era puro como puras eram as coisas que fazia.

Por fim, nesta primeira parte sobre esse grande compositor, procurei uma foto para ilustrar estas mal-traçadas, e não encontrei. Nem mostrar a sua cara poderia, pois, para que o meu amigo fosse visto por aqui, precisei do auxílio luxuoso de Antonio David, artista que tudo capta com o seu olho-pescador de imagens. Uma só foto, apenas uma, Dapenha, não jazia no cemitério artístico da Internet.

Em tempo: Na próxima quinta-feira volto a falar desse compositor e bom caráter e amigo que escolhi para ser mais um irmão; parceiro de Vital Farias e tantos outros; compositor de O Meu País e um cara simples  que via tudo, mas, bico calado, fazia de conta que era mudo.

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Humberto de Almeida é escritor


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