» CRÔNICAS ANTERIORES |

07|08|08 | Zé da Luz: um alfaiate que vestiu sua poesia de ritmo e melodia

31|07|08 | Carrego os meus mortos dentro do peito, pois sou todo coração!

24|07|08 | UMA MARIA LIVRE POR FORA, MAS PRESA POR DENTRO AO SEU PRESO HOMEM

17|07|08 | VISITE O ENGENHO CORREDOR DE ZÉ LINS, MAS VOLTE CORRENDO!

10|07|08 | No Voto Ninguém se Perde, Ou Como Escolher o Seu Sanguessuga!

03|07|08 | Lembranças de Lúcio Lins

26|06|08 | A Flecha Preta do Ciúme

20|06|08 | A Música de São João, Sem Fogueira, é Um Verso de Pé Quebrado!

12|06|08 | Como Era Verde o Meu Vale!


05|06|08 | 1968 - O Ano Que Não Vivi

29|05|08 | Existe Algo de Podre no Reino Deles, e Podres Vão Continuar!

22|05|08 | Em Busca do Engenho de Zé Lins e Outras Histórias

15|05|08 | Vandré: "Quero Que Me Esqueçam!"

08|05|08 | Livardo Alves e a Verdadeira História da Marcha da Cueca

01|05|08 | Chora o choro brasileiro, Canhoto morreu!

24|04|08 | O Meu Amor por Tetê Espíndola

17|04|08 | Assisti ao Baixio e Não o Achei Tão Besta Assim

10|04|08 | Se Não Der Pra Segurar, Explode Gonzaguinha!

3|04|08 | Um chorar baixinho no hospital do Amado Batista

27|03|08 | Um Passeio Quase Musical em Simenon

20|03|08 | Minha Inesquecível Paixão de Um Cristo Inesquecível!

13|03|08 | Regina Brown ou Celi Marrom: O mesmo Talento, A mesma Bossa!

06|03|08 | Vai, 1Berto, ser mais um pela vida!

28|02|08 | Se todos fossem iguais a ele, ele seria diferente!

21|02|08 | Nos Caminhos de Augusto, um dos Anjos da Poesia


14|02|08 | Uma Cápsula do Tempo Made In PB


07|02|08 | Arte e Fatos de Uma Noite de Verão

31|01|08 | A Maior Seleção de Todos os Tempos

24|01|08 | Um Vandré Vindo e Bem-Vindo das Terras do Benvirá

17|01|08 | Adolf Hitler: “Só detesto Negros, Judeus e... Racistas!"

10|01|08 | Vital Farias: A Volta do Canta a Dor das Matas e Rios

05|01|08 | Vou Sempre Preferir o Ano Velho, Esse Eu já Conheço

Crônicas do ano de 2007 »


Outros textos deste autor:

2 Dedos de Prosa

 
» este autor escrevE ÀS QUINTAS-FEIRAS


1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 01 DE MAIO DE 2008

Chora o Choro Brasileiro, Canhoto Morreu!

Nessa minha curta vida  de consumidor de arte, mais por aqui que por tantos outros lugares pelos quais andei, tenho me deparado com a Santa Ignorância em cada esquina e a Santa  Hipocrisia  nos  atos, quase todos hipócritas,   e intenções, mais hipócritas ainda, dos chamados homens de boa vontade. Nessa última sexta-feira, com a morte - ele começou a morrer, como o meu pai Heráclito de Almeida, depois que foi impedido de tocar a vida através do instrumento que tocava -  de Francisco Soares de Araújo, o Canhoto, se a  Santa Ignorância ficou em casa, a  Hipocrisia respondeu por ela.

Depois que a indesejada da gente e por tantos,infelizmente, entre a vida e morte, sobrevivendo com um salário mínimo, desejando-a a cada manhã, levou o Canhoto para tocar ao lado de Sivuca, outro desejado que a indesejada levou quase abandonado, fico a  imaginar  os mil elogios que ele receberá. E, por incrível que os colegas possam achar,  mais aqui que em  Paulista, cidade pernambucana que ele escolheu para se guardar com a sua música. No seu velório e no caminho, agora com outra roupa, de volta para casa.

Canhoto morreu de morte morrida, na cidade pernambucana de Paulista. Dizem que só a escolheu para viver com a sua música , porque sentiu que não havia sido escolhido pelo estado no qual  nascera, mas ,especificamente, em Princesa Isabel, "que ele  tanto amava e que visitou já perto do fim pelas mãos do amigo irmão Antonio Delano", segundo  jornalista e escritor Sebastião Lucena,  bom caráter, pena afiada e digno representante daquele "livre território". Canhoto é a mais conhecida das figuras ilustres dessa cidade, espalhadas na Wikipédia.  Sobre a técnica do violonista, costumava responder, sem nada de professoral, que não ia a inventar nada., " O violão estava lá, certinho! Foi só pegar e tocar!".

Ele  não  gostava de estúdios. Era muito mais ele, o bom menino de Princesa, quando estava numa roda de amigos tocando as coisas que gostava. Pensei em fazer-lhe uma visita na vizinha cidade pernambucana. Não fiz. Aquela pressa do Paulinho da Viola, a alma desses meus negócios que pedem pressa em suas resoluções, fundamentados em fatos e testemunhas, cheios de prazos, não raras vezes deixando-me puto com tudo e com todos, impediram-me a visita. que pensei  em fazer.

Hoje, infelizmente, com o  cabresto da calma no pescoço do tempo, o bom Canhoto me pareceu apressado. Ele não voltou, como desejava, segundo um amigo que, sem pressa, fizera-lhe uma visita, à capital da Parahyba. Disse que gostaria de ficar perto dos amigos e da família. Mas, felizmente, infelizmente assim digo, não satisfez o seu desejo. Talvez não soubesse que a  família e os amigos de sua  Princesa Isabel, esses verdadeiros, sempre estiveram do e ao seu lado. Bastavam-lhe. O que, afinal, Canhoto viria fazer aqui ? A madrasta capital não tolera filhos como ele.  Nem como o meu  irmão.

Enquanto falo da simplicidade e ternura do "menino canhoto", das homenagens que nesse momento deve estar recebendo, todas merecidas,  lembro que um  dia  esse  meu irmão,  morando há 30 anos em Rondônia, chamou a minha Parahyba de madrasta.  Nada  lhe disse no momento. Mas, agora, passado o susto primeiro, escrevo: madrastas assim, iguais a tua Parahyba,  existem muitas por esse  Brasil Izoneiro.  Acho, porém, que esse  princesence  que tocou de forma errada um dos violões mais certos deste Verde e Amarelo, concordaria contigo.  

Os elogios irão continuar.  Serão muitos e virão de todas partes. Mas não posso deixar de lembrar que Canhoto morreu quase mendigando - embora nunca pedisse -  uma ajudazinha dos colegas artistas. Um fato: desta  terra que criou uma Lei com o seu nome mas pouco ou quase nada lhe ajudou em nome dessa lei, Canhoto recebia um  pensãozinha de nada, que pouco ou de quase nada servia para atenuar-lhe o sofrimento. Comovente era a sua resignação. Um fatalista. Embora impedido por um Acidente Vascular Cerebral de fazer a coisa que mais gostava na vida, tocar o seu violão pelo avesso, nunca reclamava. "Faz parte da vida", dizia. Era outro "Santo Pixinguinha.

Impossível  não lembrar, ainda, da pensão vitalícia com que os nossos parlamentares  mirins, super mirins, queriam presentear a viúva de um dos nossos secretários municipais que estourou os miolos, pelos "relevantes serviços"  prestados - os miolos não, o suicidado secretário -  à capital parahybana. Diferente daquela aguardente que ficou quase famosa como uma Boa Idéia, uma idéia péssima. Nessa mesma época, Canhoto já agonizava com o AVC que o impederia, dali em diante, de afinar o  seu violão  no tom do coração cansado.

Poderia muito bem estar mal-escrevinhando sobre a sonora e bela obra do Canhoto. Mas, nesse momento, quando a filha que o acompanhou até o dia de ele  ir morar n'outra cidade está  a  implorar que  o show  que colegas iriam fazer em  seu favor,  mesmo com a sua morte, seja  realizado, fica difícil, meu bom Francci. Tudo bem. O  Inzoneiro Verde e Amarelo já está mostrando esse lado.  A família precisa, disse  a filha, num tom nada melódico. Mas quem sabe, em Pernambuco,  agora morto,  o seu pai  receba as  homenagens que lhe foram negadas  ao vivo  -  e em  preto e branco, estou de luto fechado - quando na Parahyba estava.

Santa Hipocrisia!  Os seus discos?! Claro que irão tombá-los como Patrimônio Musical da Paraíba!  Canhoto da Paraíba - Violão Tocado Pelo Avesso;  Único Amor;  Com Mais de Mil e Pisando em Brasa. Se Canhoto não tivesse nascido para fazê-los, "hipócritas disfarçados, rondando ao redor" repetirão,  teria que ser inventado. Pausa. Faço uma aposta: se uma entre cem pessoas não consumidoras de arte ouviu uma só de suas composições, mudo o meu nome para 1 Berto.

O bom Canhoto, assim como outros ilustres parahybanos, morreu longe da "madrasta", que, por mais que uns queiram negar, também madrasta foi do Pedro Américo, que Morreu em Florença; Augusto dos Anjos, que morreu em Leopoldina, Zé Lins e Paulo Pontes que  morreram  no Rio de Janeiro.  E, por fim, o cômico, se o momento não fosse tão trágico: Canhoto recebeu o título de Patrimônio Vivo de... Pernambuco!

Em Tempo: Só espero que diferente desses "ilustres desconhecidos", o meu irmão, conhecido e ilustre meu, arrependida, a madrasta o receba em vida como mãe.

...........................................................................................................................................................
Humberto de Almeida é escritor


Voltar | Capa


   
Crônicas Cariocas® - 2006 / 2008
Matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores
» Outros Canais | 2 Dedos de Prosa | Artes das Ruas | Caderno de Cultura | 1º Concurso Crônicas Cariocas 2008 | Cultura: agenda | Cultura: artes plásticas | Cultura: eventos | Cultura: meu clássico favorito | Cultura: show | Cultura: teatro | Cinema | Cinema Falado | Cinemão | Cinematógrafo | Mise en Scène | Respirando Cinema | TelaGrande | Festival do Rio 2007 | Contos | Contos de Terror! | Convidado Especial | Copa 2014 | Cristo Redentor | CrônicasTur | Dicas de Português | Editorial | Entrevistas | Esportes & Saúde | Exclusivo | HQ's | Infantil | Infantil: english | Literatura | Meu Bairro | Música | Música & Voz - Tatiane Vidal | Oise | O Que Estou Lendo | O Rio em P&B | Pan2007 | Poesias | Reportagens | RsRsRs | Crônicas Sociais |