Chora o Choro Brasileiro, Canhoto Morreu!
 |
|
Nessa minha curta vida de consumidor de arte, mais por aqui que por tantos outros lugares pelos quais andei, tenho me deparado com a Santa Ignorância em cada esquina e a Santa Hipocrisia nos atos, quase todos hipócritas, e intenções, mais hipócritas ainda, dos chamados homens de boa vontade. Nessa última sexta-feira, com a morte - ele começou a morrer, como o meu pai Heráclito de Almeida, depois que foi impedido de tocar a vida através do instrumento que tocava - de Francisco Soares de Araújo, o Canhoto, se a Santa Ignorância ficou em casa, a Hipocrisia respondeu por ela.
Depois que a indesejada da gente e por tantos,infelizmente, entre a vida e morte, sobrevivendo com um salário mínimo, desejando-a a cada manhã, levou o Canhoto para tocar ao lado de Sivuca, outro desejado que a indesejada levou quase abandonado, fico a imaginar os mil elogios que ele receberá. E, por incrível que os colegas possam achar, mais aqui que em Paulista, cidade pernambucana que ele escolheu para se guardar com a sua música. No seu velório e no caminho, agora com outra roupa, de volta para casa.
Canhoto morreu de morte morrida, na cidade pernambucana de Paulista. Dizem que só a escolheu para viver com a sua música , porque sentiu que não havia sido escolhido pelo estado no qual nascera, mas ,especificamente, em Princesa Isabel, "que ele tanto amava e que visitou já perto do fim pelas mãos do amigo irmão Antonio Delano", segundo jornalista e escritor Sebastião Lucena, bom caráter, pena afiada e digno representante daquele "livre território". Canhoto é a mais conhecida das figuras ilustres dessa cidade, espalhadas na Wikipédia. Sobre a técnica do violonista, costumava responder, sem nada de professoral, que não ia a inventar nada., " O violão estava lá, certinho! Foi só pegar e tocar!".
Ele não gostava de estúdios. Era muito mais ele, o bom menino de Princesa, quando estava numa roda de amigos tocando as coisas que gostava. Pensei em fazer-lhe uma visita na vizinha cidade pernambucana. Não fiz. Aquela pressa do Paulinho da Viola, a alma desses meus negócios que pedem pressa em suas resoluções, fundamentados em fatos e testemunhas, cheios de prazos, não raras vezes deixando-me puto com tudo e com todos, impediram-me a visita. que pensei em fazer.
Hoje, infelizmente, com o cabresto da calma no pescoço do tempo, o bom Canhoto me pareceu apressado. Ele não voltou, como desejava, segundo um amigo que, sem pressa, fizera-lhe uma visita, à capital da Parahyba. Disse que gostaria de ficar perto dos amigos e da família. Mas, felizmente, infelizmente assim digo, não satisfez o seu desejo. Talvez não soubesse que a família e os amigos de sua Princesa Isabel, esses verdadeiros, sempre estiveram do e ao seu lado. Bastavam-lhe. O que, afinal, Canhoto viria fazer aqui ? A madrasta capital não tolera filhos como ele. Nem como o meu irmão.
Enquanto falo da simplicidade e ternura do "menino canhoto", das homenagens que nesse momento deve estar recebendo, todas merecidas, lembro que um dia esse meu irmão, morando há 30 anos em Rondônia, chamou a minha Parahyba de madrasta. Nada lhe disse no momento. Mas, agora, passado o susto primeiro, escrevo: madrastas assim, iguais a tua Parahyba, existem muitas por esse Brasil Izoneiro. Acho, porém, que esse princesence que tocou de forma errada um dos violões mais certos deste Verde e Amarelo, concordaria contigo.
Os elogios irão continuar. Serão muitos e virão de todas partes. Mas não posso deixar de lembrar que Canhoto morreu quase mendigando - embora nunca pedisse - uma ajudazinha dos colegas artistas. Um fato: desta terra que criou uma Lei com o seu nome mas pouco ou quase nada lhe ajudou em nome dessa lei, Canhoto recebia um pensãozinha de nada, que pouco ou de quase nada servia para atenuar-lhe o sofrimento. Comovente era a sua resignação. Um fatalista. Embora impedido por um Acidente Vascular Cerebral de fazer a coisa que mais gostava na vida, tocar o seu violão pelo avesso, nunca reclamava. "Faz parte da vida", dizia. Era outro "Santo Pixinguinha.
Impossível não lembrar, ainda, da pensão vitalícia com que os nossos parlamentares mirins, super mirins, queriam presentear a viúva de um dos nossos secretários municipais que estourou os miolos, pelos "relevantes serviços" prestados - os miolos não, o suicidado secretário - à capital parahybana. Diferente daquela aguardente que ficou quase famosa como uma Boa Idéia, uma idéia péssima. Nessa mesma época, Canhoto já agonizava com o AVC que o impederia, dali em diante, de afinar o seu violão no tom do coração cansado.
Poderia muito bem estar mal-escrevinhando sobre a sonora e bela obra do Canhoto. Mas, nesse momento, quando a filha que o acompanhou até o dia de ele ir morar n'outra cidade está a implorar que o show que colegas iriam fazer em seu favor, mesmo com a sua morte, seja realizado, fica difícil, meu bom Francci. Tudo bem. O Inzoneiro Verde e Amarelo já está mostrando esse lado. A família precisa, disse a filha, num tom nada melódico. Mas quem sabe, em Pernambuco, agora morto, o seu pai receba as homenagens que lhe foram negadas ao vivo - e em preto e branco, estou de luto fechado - quando na Parahyba estava.
Santa Hipocrisia! Os seus discos?! Claro que irão tombá-los como Patrimônio Musical da Paraíba! Canhoto da Paraíba - Violão Tocado Pelo Avesso; Único Amor; Com Mais de Mil e Pisando em Brasa. Se Canhoto não tivesse nascido para fazê-los, "hipócritas disfarçados, rondando ao redor" repetirão, teria que ser inventado. Pausa. Faço uma aposta: se uma entre cem pessoas não consumidoras de arte ouviu uma só de suas composições, mudo o meu nome para 1 Berto.
O bom Canhoto, assim como outros ilustres parahybanos, morreu longe da "madrasta", que, por mais que uns queiram negar, também madrasta foi do Pedro Américo, que Morreu em Florença; Augusto dos Anjos, que morreu em Leopoldina, Zé Lins e Paulo Pontes que morreram no Rio de Janeiro. E, por fim, o cômico, se o momento não fosse tão trágico: Canhoto recebeu o título de Patrimônio Vivo de... Pernambuco!
Em Tempo: Só espero que diferente desses "ilustres desconhecidos", o meu irmão, conhecido e ilustre meu, arrependida, a madrasta o receba em vida como mãe.
...........................................................................................................................................................
Humberto de Almeida é escritor
Voltar | Capa
|