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1bertodealmeida1@gmail.com

» JOÃO PESSOA, 24 DE ABRIL DE 2008

O MEU AMOR POR TETÊ ESPÍNDOLA

Um dia, lá pela metade dos nos 80, se essa memória um tanto sacana não me prega mais uma das suas, quando ela era ainda uma paraibana que nunca sonhou em ser baiana ou carioca, mas nordestina e paraibana assumida, escrevi que "não acreditava" que Elba Ramalho pudesse conquistar o sucesso que – negar ninguém há de – com muita luta e o auxílio luxuoso do Viva o Cordão Encarnado, merecidamente, conquistou. Sou réu confesso.

Por outro lado, para que ninguém se arvore a dizer que meti a minha colher onde não fui chamado e peguei o prato vazio, o bom Zé Nêumanne Pinto, aquele mesmo cara do humorista Shao Lin, um razoável comentarista político e bom escritor, também sifu: "Nunca acreditei em Elba Ramalho!". Disse, Morena, e  disse bem. Somente os leigos em carne e osso e ouvidos distantes das melodias fabricadas pelas gargantas de Elizeth Cardoso e Elis Regina, poderiam acreditar na voz da gralha de Conceição de Piancó.

Hoje, dentro do meu carro a menos de cem por hora, com ou sem o meu amor, ouvi mais uma vez e outras vezes, uma coisa rara, a Tetê Espíndola cantando O Meu Amor, ou melhor, o amor do Chico Buarque. E aí, 1Berto? Ora, aí a gente vê que a nossa Elba Maria Nunes Ramalho está a quilômetros de distância de ser uma cantora com a qualidade de uma Tetê Espíndola. O estilo, muitos dirão. Ora, cada macaco no seu galho, diria o saudoso compositor baiano, hoje, um político distante do poeta e do esfomeado.

Mas nem tanto, Dapenha, nem tanto. Mesmo se o escriba pensasse em puxar a brasa para a sua sardinha ou sua sardinha para a sua brasa, o que não é a mesma coisa, seria em vão. O estilo - tudo bem, vamos dizer assim - da mato-grossense é mais assimilável pelos bons ouvidos que o dessa boa intérprete que esses olhos viram um dia, magra como um ponto de exclamação, trocando de roupa numa rodinha de amigos, único "camarim" existente no velho colégio estadual do bairro do Roger, cantando para não morrer de silêncio.

Naqueles tempos idos, quase um menino, escrevendo vez por outra roteiros de shows, dispersas letras musicais e cometendo alguns poemas inspirados nas precoces dores-de-cotevelo - "O bar não é doutor que cure a dor de cotovelo" -, ali se instalara a Escola Piolim, fundada pelo nosso Luiz Carlos Vasconcelos. Por esses tempos ele criou o Xuxu (com "xis"), "palhaço cidadão", segundo o próprio, e sempre presente no circo da história do ilustre filho de Umbuzeiro.

Mas isso é história para outras mal-traçadas. Ou melhor: duas histórias que este escriba, cheio encontros e histórias na cabeça, espalhará neste espaço carioca. Uma, Elba trocando o vestido velho e cheirando mal - não há duplo sentido - numa rodinha de amigos, estraçalhando os versos, mais atriz que cantora, e que mais tarde seriam reunidos em seu ótimo Ave de Prata; a outra, essa mais engraçada, do palhaço Xuxu, que entrou pela porta da frente da história do gran circus parahybanus  e nunca  mais saiu.

Ah, quase esquecia da Tetê Espíndola. Aviso: quem não ouviu ainda a Terezinha Maria Miranda Espíndola (o seu nome de batismo), com a sua voz agudíssima, capaz de quebrar copos "vidraças, louças, livros, sim", cantando o Amor do Chico Buarque, não imagina a suavidade e a doçura que a voz dessa artista emprestou a essa bela composição, em primeira mão interpretada por Elba Ramalho e Marieta Severo. Se fiquei boquiaberto? Além da boca, super abertos os ouvidos.

Os meus dois leitores, esses que têm o mesmo bom gosto deste escriba, e que apesar do confessar o seu bom gosto às vezes têm uma recaída, manda o bom gosto à putaquepariu e escuta até a Alcione, se não ouviram essa música do Chico Buarque na voz de Tetê Espíndola, corram, esqueçam o Diogo Nogueira e o Daniel Gonzaga, pobres cópias desbotadas dos pais originais, e naveguem sem medo, céleres, em busca desse porto seguro da canção. Vocês não sabem o que estão perdendo.

Há pouco ouvi-a - disse "ouvi-a", mas podem ler "ouvia" - mais uma vez. Os agudos estão longe daqueles bem colocados na canção do Arnaldo Black e Carlos Rennó (Escrito nas Estrelas). No Amor do Chico Meu Amor soam como a mais linda das canções de amor. As oscilações nos agudos, super educados, parecem nos levar aquele estado de graça de quem está a cochilar numa rede na varanda. A voz de Tetê sai como um solo de flauta de um Copinha ou Altamiro Carrilho. Não dá mesmo para descrever. Portanto, ouçam.

Dizer mais o quê? Que vou ouvir outras vezes, pois, ouvindo O Meu Amor cantado assim não me cansa nunca? Pois é, vou mesmo. Por fim, chamo ainda a atenção dos meus dois leitores para o suspirar cheio de tesão que abre a canção, e antecede cada uma de suas estrofes. Aí é demais! Vai, Tetê, mata-me com a tua Espíndola!

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Humberto de Almeida é escritor


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Crônicas Cariocas® - 2006 / 2008
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