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» JOÃO PESSOA, 17 DE ABRIL DE 2008

ASSISTI AO BAIXIO E NÃO ACHEI TÃO BESTA ASSIM


Fernando Teixeira com Mariah Teixeira, em cena de Baixio das Bestas

Não vou mentir. Essa não é a minha prática. E por não ser essa uma pratica minha, mesmo conhecendo muito bem o Fernando Teixeira, esse excelente ator e contador de histórias, um sujeito tinhoso, como costuma dizer, somente me interessei em assistir ao Baixio das Bestas, o bom filme do Cláudio Assis, nesses dias de muita chuva e solidariedade desse povo que sofre em ter que ter um pouco para dar aquilo que não lhe sombra. Foi assim que fuçando aqui e ali para encontrar o Baixio das Bestas no original, como foi o caso, ou mesmo um piratinha, como carinhosamente chama o Dapenha uma das muitas cópias piratas que navegam neste navio Parahyba, finalmente encontrei.

Baixio das Bestas, embora somente agora assistido por este consumidor de arte cheio de idéias na cabeça e sem nunca ter andado com uma câmara, - nem mesmo fotográfica - na mão, foi lançado lá pela metade do ano passado. Mas, por incrível que pareça, apesar dos artistas da terra, é muito pouco conhecido por aqui. O filme traz no elenco feras como Matheus Nachtergaele, tão bom no papel do raparigueiro Everardo quanto no do homossexual Dunga de Amarelo Manga, Caio Blat, Dira Paes e outros. Lembrando em particular as nossas Marcélia Cartaxo, Mariah Teixeira e o nosso bom Fernando Teixeira.

Nos últimos anos Cláudio Assis tem sido o responsável pela descoberta de um cinema genuinamente nordestino, sem grandes estruturas e produções. Os seus filmes, sem exceção, são todos BO, isto é, Baixo Orçamento, aviso para que ninguém confunda com o famigerado Bom para Otário. Apesar da besteira de chamar o Hector Babenco - sem dúvidas melhor cineasta que ele - de imbecil no último TAM do Cinema Brasileiro em que perdeu com o seu bom Amarelo Manga para o Babenco com o seu melhor Carandiru, e cara de viúva do Glauber Rocha sair vomitando ódio contra o Marcelo Madureira porque o humorista falou sério e disse que "Glauber Rocha é uma merda!", tem sido um dos "reinventores" do nosso chamado novo cinema.

A história do Baixio das Bestas, como sempre tem ocorrido com as histórias de Cláudio Assis, é a mais simples possível. Um avô (Fernando Teixeira) expõe a neta, uma baixinha de peitinhos saltitantes (Mariah Teixeira), em troca de alguns trocados, tendo como palco um velho posto de gasolina. Tem outras coisas. O  ululante óbvio. Mas não conto para não tirar a graça dos que irão (ainda) assisti-lo. Pergunto então aos meus dois leitores: existe história mais comum?

Notem que estou sendo sucinto; notem, também, assistindo ao filme, a excelente atuação do nosso Fernando Teixeira na pele de Heitor, um avô sacana que todos os dias num excesso de zelo, "discretamente", usa o maior de todos para certificar-se de que o selinho da neta ainda está no mesmo lugar. E intacto! Uma coisa, porém, fica certa: Fernando Teixeira convence. No tempo certo, o tom de voz na medida e, se não bastasse, natural como o Fernando que encontro quase todos os dias por estas plagas contando os seus causos e comendo teatro.

Poderia escrever mais um pouco sobre o filme de Cláudio Assis. Mas, curtindo o sensual banho de Auxiliadora (Mariah Teixeira) num riozinho tamanho de nada, mão fora e dentro da calcinha (sintam!) naquele lavar gostoso e o papo entre as meninas da casa de Dona Margarida, (Conceição Camaroti), livre, leve e solto em assistir e dividir aquele prazer quase juvenil (o estético, leitores, o estético), correria o risco de contar todo o filme.

Se o Cláudio Assim pretendeu chocar com a violência (não vou citar, entre as muitas, aquela mais gratuita) e os palavrões (muitos gratuitos) que ponteiam a trilha sonora do seu filme não me chocou. Fiquei com a beleza da escuridão das fotografias acentuando a angústia dos personagens e o impagável show do maracatu rural. Ele fez o que queria. E se tudo isso não bastasse para justificar o acontecido, pela boca do Everardo, o Cláudio de Assis se justifica: "O bom do cinema é que você pode fazer o que quiser". Então, tá.

P.S:
Sabendo das dificuldades para encontrar por estas plagas a arte que se procura (e olhem que vivemos numa capital onde a arte é servida em cada esquina), o grande Fernando Teixeira enviou ao escriba e-mail que faço questão de passar aos meus dois leitores. Nele, uma puta declaração de um ator e cidadão antenado com a nossa realidade (pirateada ou não) artítisca. Ah, e também boas dicas para uma melhor compreensão do filme de Cláudio Assis.

Fala Fernando:
Grande Humberto,
Existe um monte de artistas (bons, + ou - e maravilhosos) que gostariam demais de verem suas obras pirateadas, pois o hábito de ver ou ouvir qualquer arte caiu em desuso hoje em dia, resume-se, em grande parte, exclusivamente a esta iniciativa. Mas a inversão dos valores, como disse o Rui Barbosa, está firme entre nós, o que antes pra gente era desonestidade, virou hoje um recurso de propagação das artes. Viva então os pirateiros! O Baixio foi uma experiência incrível, 75 dias em Nazaré da Mata, trabalhando cada detalhe. O Cláudio é um diretor exigente o que faz com que seus trabalhos sejam importantes. Obrigado pelo seu reconhecimento.
Abraços,
Fernando Teixeira

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Humberto de Almeida é escritor


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