SE NÃO DER PRA SEGURAR, EXPLODE GONZAGUINHA!

Nada contra o filho desejar ser o pai encarnado, desde que seja rubro-negro, e esculpido, se o escultor for tão bom o Auguste Rodin. Ou ainda, como nunca fui contra nem a favor, mas a favor de quem está contra tudo isso, nas duas formas. Nunca fui contra o filho que se inspira no pai e aos trancos e barrancos, quase a força, parto à fórceps, quer buscar o espaço que um dia o pai ocupou. Muitas vezes acho até bonito. Por outro lado, esse o avesso, alguns filhos por mais que se esforcem conseguem pegar uma só letra do alfabeto artístico que o pai deixou. Esses despertam a compaixão do consumidor de arte.
Nesta minha curta vida de consumidor de arte estive algumas vezes com o Moleque Gonzaguinha, o Gonzaguinha da Vida, o filho de Odaléia, "heroína doente do peito" e de quem ainda guardava a triste lembrança, como me falou só amargura, do seu sangue avermelhando as paredes brancas do hospital. Passei uma boa parte da minha juventude ouvindo o ainda desconhecido Gonzaguinha e, com ele, anos depois do Movimento Artístico Universitário (MAU), agora, quase famoso, falando de suas harmonizações difíceis e politização de suas letras.
Num desses papos, ainda no palco do nosso Teatro Santa Roza, um dia chamado pelo Gilberto Gil de o "Grande Navio" por sua forma naviforme, enquanto procurava a luz que melhor casaria com o clima do seu Moleque, show ainda não casa cheia por aqui, Gonzaguinha me falou que jamais teve quaisquer identificações como seu "pai" Gonzagão, nunca pretendeu nem estava preocupado com isso. Disse mais: embora gostasse, nunca pensou em fazer o tipo de música que ele fazia. Não insisti. A lembrança das hemoptises de Odaléia o havia deixado mais amargo ainda. E sabem de uma coisa? Tinha razão. O sertão do Gonzagão nunca se uniu a cidade do Gonzaguinha.
Hoje, quase dezessete anos depois de ele trocar de roupa e ir morar n'outra cidade (Gonzaguinha morreu em 29 de abril de 1991), deixo o CD tocar e despertar, Sangrando, os meus tempos do "Grávido Gonzaguinha". E Vai me tocando. Enquanto toca o "cantor rancor", como fora chamado um dia e, infelizmente, endossado por este escriba, assisto pela televisão o meu sertão virar um mar de chuva e o meu mar de Tambaú ficar mais cheio de uma chuva que insiste em não parar. Lembranças... Lembro do filho que o Gonzagão não teve e nunca deu a atenção que o filho adotado merecia. "Gonzagão só vivia nos cabarés!O endosso do rancor e quase marca registrada do artista só foi retirado com o tempo. Depois de o Que é, o Que é?, sua maior louvação à vida, ele pegou aquele trem da alegria que prometia um sorriso mais barato e seguiu o trilho que não tem fim do Expresso 2222 do Gilberto Gil.
Se o Gonzaguinha era muito bom de letra - menos poético que o Paulo César Pinheiro e o Chico Buarque, porém, mais político que o Chico Buarque e Paulo César Pinheiro juntos -, harmonicamente era melhor ainda. As suas construções melódicas seguiam uma linha incomum dentro da música popular brasileira. Agora, quanto ao poético e o lírico que muita gente encontrava em suas letras, naquele dia, fez questão de repetir que na verdade elas nunca "falavam de amor".
Se não dizia nada, como num papo declarou, ficava puto quando achavam que sua "Não Dá Mais Pra Segurar", também conhecida por "Explode Coração", era uma "música de amor". Ora, disse-me naquela tarde fagueira no palco do Santa Roza, "Saiu porque não estava dando mais segurar! Puto com tudo isso que está aí, como encontrar tempo para escrever sobre amor?! Porra de música de amor!" Concluiu, mais amargo do que nunca. Se no corpo físico ele ainda estivesse, imagino o quanto triste ficaria - até que a Maria Betânia, sua melhor intérprete, maneira no tom - ouvindo a sua "Sangrando" cantada por esses conjuntinhos onde as bundas falam mais alto, como se fosse a música mais alegre da história da nossa bela Música Popular.
Se os meus dois leitores não perceberam, entrego de bandeja o que percebi. Pensava em dar uma passadinha pelo trabalho do Daniel Gonzaga, filho do Gonzaguinha, que ouvi outro dia num programa de televisão. Falaria que por mais que nele procurasse o pai, apesar do esforço do filho, não encontrei. Acho mesmo que a culpa deve ser deste escriba viciado em boa música, bons livros e ótimos filmes. No final, porém, conclui que qualquer semelhança com o pai era uma mera coincidência. Falaria, se a lembrança do Moleque não fosse mais forte. Deixo, pois, o filho para outras mal-traçadas. Afinal, quem lembra do pai não perde por esquecer o filho.
Em tempo: Diferente de Maria Rita, que demonstrando ser um pouquinho mais inteligente que a maioria não se arvorou ainda a gravar as músicas da mãe famosa, Daniel Gonzaga acaba de lançar um CD só com músicas do pai. Ó quanta criatividade! Esse moleque vai longe, bem para longe do Gonzaguinha. E, aproveitando o "em tempo", meus agradecimentos ao Dapenha pela lembrança e a boa idéia de contar no cronicascariocas.com esses meus papos com Gonzaguinha.
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Humberto de Almeida é escritor
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