Um Chorar Baixinho no Hospital do Amado Batista
Se me pedissem para escolher um dia para homenagear os bêbedos e equilibristas que sobrevivem com um salário mínimo e bebem para esquecer o salário que os mantém nesse estado zumbi de ser, escolheria a sexta-feira. O dia de sexta-feira é, para eles, o último da semana. Isso mesmo que sempre estejam de férias. Dia em que tiram as imaginárias sandálias franciscanas, camisas de linho e calças de veludo. É o dia, finalmente, para os que têm casas, embriagarem-se nos seus quintais de cachaça de cabeça com tira-gosto de sardinha.
Nunca fui daquele tipo "a minha vida era de bar em bar". E, se fui, confesso que esqueci. Dos bares que freqüentei um dia, somente um e no máximo dois entraram para a história dos meus bares, doces lares. Nessa sexta-feira, porém, após o costumeiro passeio pelo centro da cidade, procurando "filmes e livros velhos" para comprar e ler, uma vez que jovem não tinha informações suficientes para entendê-los e, sem trabalhar, poder aquisitivo para comprá-los também não tinha, parei num barzinho do meu bairro Jaguaribe, e pedi uma cerveja com um tira-gosto de queijo coalho assado.
Embora o verão tenha passado em outras plagas, por aqui ele é o ano todo (vou cobrar pelo comercial!). Pois bem. O calor estava de fritar ovos no asfalto. Das árvores um só galho não me acenava com o seu verde-esperança. Agarrava-se solidário ao seu tronco. Grave, pareciam em posição de sentido. Um sol de rachar. Expressão usada pela minha mãe Chiquinha como superlativo absoluto. Dona Chiquinha, como lembrei outro dia, trocou sua roupa de carne e osso e foi morar n’outra cidade sem acreditar que o homem tivesse ido à lua. Foi ao exterior, e disse que foi à lua. Também nunca acreditou que São Jorge, com aquela perturbação, mudou-se com cavalo e tudo para outra lua distante dos nossos olhos.
Mas, como ia dizendo. No barzinho aconchegante e perfumado como quarto dessas meninas de vidas difíceis que tornam as vidas de muitos fáceis e prazerosas, sentei em uma das duas cadeiras de plástico que guardavam a pequena mesa, também de plástico, postas na calçada. Lembro que antes da escolha da mesa, olhos vazios de outras imagens, dei uma olhadela para o interior do barzinho e vi um balcão magro, como a mulher que atendia, e mais duas mesinhas iguais a que servia de "chama" na calçada. E, ainda em pé, percebi na parede amarelada pelo tempo enorme calendário, ano 2007, com uma mulher, quase nua, exibindo uma bunda maior que a da Rita Cadilac. Estava sorridente e convidativa. Segurando com as duas mãos uma garrafa de cachaça, ar de fêmea fatal, passava a língua carnuda nos lábios vermelhos de carmim.
Para completar a decoração, uma caixa de som velha com os dois alto-falantes estourados, como constataria depois de ligado, de onde sairiam agudos e graves uma briga eletrizante. A única música que se ouvia, saía da boca de um sujeito de quase dois metros de altura por um de largura. Um repertório mais pobre era impossível. Constatei. Em apenas dez minutos, ou dois copos de cerveja depois, usando uma medida etílica e mais apropriada para a ocasião, o sujeito quase gigante cantou com o coração, mas desafinado, Carinhoso do Pixinguinha e João de Barros quatro vezes seguidas. Mas achando pouco, uma vez que vi nos olhos de seus outros dois cúmplices a alegria desenhada, cantou ainda não sei quantas vezes uns versos do Moacyr Franco que dizia "minha cara eu mudei/ minha cara eu mudei/mas por dentro eu não mudo". Estava quase cheio. E não era de cerveja.
O quase gigante, finalmente, parou de cantar. O silêncio respondeu presente. Nunca uma ausência musical me fez tão bem. Estava no terceiro copo de cerveja. E mesmo que estivesse fria, o silêncio seria o melhor dos tira-gostos. Melhor que o queijo de coalho que demorava a sair, e começava a tirar o gosto meu. O quase gigante, mais uma vez, finalmente, foi embora. Foi aí que, como se estivesse só esperando aquele momento, entrou um sujeito baixinho, quase tamanho da Elis Regina, e sentou em uma das cadeiras da mesa de dentro do bar. Os olhos estavam fixos na caixa de som velha e silenciosa. "E o som, tá legal?". Depois de tensos minutos, perguntou a mulher magra como o balcão. Ela, então, cara de fastio, tipo "comeu mas não gostou", respondeu afirmativamente com um balançar de cabeça. "Dá pra colocar uma música, não?". Dessa vez nem com a cabeça respondeu. Apanhou um CD que estava ao lado da caixinha de madeira com alguns poucos garfos – não vi faca nem colher -, sem capa, e automaticamente jogou num aparelho que guardava debaixo do magro balcão.
"Amor perfeito, existia entre nós dois, sem esperar que depois fosse tudo se acabar..."
Nos primeiros acordes percebi que o sujeito tamanho Elis Regina era só concentração. Minutos antes escutara na voz de Gilberto Nascimento, compositor, cantor e parceiro paraibano, radicado na Paulicéia Desvairada, a música Velas, um "quase fado" nosso, embalada pelos compassos das ondas de Tambaú. Os meus ouvidos, acostumados a esse som, estranhavam. Mas, por educação, educados que são, naquele dia abriram-se para a musiquinha do Baixinho. A verdade é que apesar de todos os esforços, o hit brega não descia redondo como pedia o cartaz da cerveja que amarelava na parede. Em respeito ao Baixinho procurei ajustá-los – os ouvidos – aquele tom. Diapasão? Não precisei.
O Baixinho se deleitava. E nesse deleite, os olhos fechados e cabeça nas nuvens, pediu a mulher-balcão para aumentar o volume: "Mais som na caixa!". Não era possível. Infelizmente para ele e felizmente para mim, só iria até ali. Retifico: "Só vai até aí!", respondeu a mulher. Notei nos olhos do Baixinho a decepção escrita em letras maiúsculas. Não pode aumentar?!", obtemperou. Silêncio. "NÃO PODE AUMENTAR?!". Agora, como vocês estão lendo, o Baixinho gritou. Mas não obteve resposta. Sem dar a mínima atenção para o grito do Baixinho, foi até a cozinha, um espaço quente como um microondas ligado na temperatura máxima, a dois passos dali. Mas, ligeirinha como coceira de cachorro, voltou trazendo num pratinho, limpo como farda de Almirante, os dois ovos cozidos que um cliente, até agora silencioso, solicitara a mais de meia hora.
"No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via você sofrendo a sorrir...".
Você sofrendo a sorrir... Sorri com a frase que fez o Baixinho encher os olhos de lágrima. Você sofrendo a sorrir. Não era preciso quaisquer esforços para perceber que ele chorava. Lágrimas preguiçosas desciam pelo seu rosto. A letra da música que o baixinho ouvia era das mais tristes. Ora, coopto não chorar com versos como "Nosso senhor, para sempre te levou, nem ao menos me deixou o fruto do amor!"? Senti-me o mais seco dos mortais. Não chorava. Se chorasse, podem acreditar, seria pelo choro do Baixinho.
Nessa altura do show – ninguém pode negar que nessa altura do campeonato, como diria se de futebol estivesse falando, o Baixinho não era o próprio. - percebi que se a cana no seu copo tivesse sido servida gelada, como a cerveja que bebia não foi, teria esquentado. Até que enfim, o refrão "na sala de cirurgia" e as repetições entregaram o cantor. Amado Batista. Uma descoberta que pedia liberdade para os ouvidos ainda que tardia. O Baixinho, tinha certeza, descobriu na introdução da música.
"E seu sorriso aos poucos se desfazendo, então vi você morrendo sem poder me despedir"
Se o quase gigante ainda estivesse ali, educadamente, juro que pediria para cantar quantas vezes desejasse o Carinhoso do Pixinguinha! Estava quase entregando os pontos O CD parecia um daqueles velhos discos de vinil que se engasgava numa só faixa, e forçava o sujeito a aprender até música japonesa. Ouvir Amado Batista – eu contei – seis vezes seguidas é pior que ouvir, uma só vez, um discurso do Fidel Castro antes da última necropsia.
"Daria para tocar mais uma vez?!"
A magra do balcão, dessa vez, soltou o verbo: "Sinto muito. Nem eu agüento mais! O senhor se incomodaria em ouvir Odair José?". Foi educada. Mas o Baixinho, não. Odair José? De jeito nenhum! Levantou-se, atirou uma nota de R$ 5 reais em cima do magro balcão, e saiu enxugando as lágrimas que ainda caíam. Também saí. Sem o Baixinho ali chorando as suas mágoas a cerveja, mesmo que estivesse gelada, não desceria. Foi aí que pedi a conta: duas cervejas e um tira-gosto de queijo assado que chegou atrasado e, diferente da cerveja, frio. Paguei. Em seguida entrei no carro, liguei o motor, dei partida, e saí cantarolando:
"No hospital, na sala de cirurgia, pela vidraça eu via você sofrendo a sorrir...".
...........................................................................................................................................................
Humberto de Almeida é escritor
Voltar | Capa |