Um Passeio Quase Musical em Simenon
Montagem sobre foto
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Passando a vista por velhos e empoeirados livros que dormem na minha estante, dando uma olhadinha aqui e outra li, terminei, por fim, topando com esse velho companheiro de tantas buscas policiais, o Georges Simenon. Indiscutivelmente um ótimo escritor. Simenon era - morreu em 1989 - belga e um dos autores mais produtivos desse mundo onde, infelizmente, Paulo Coelho vende mais que o Shakespeare.
Dizem os seus estudiosos que ele tem uma obra de quase 400 livros. Não li todas, claro. Para sobreviver, escrevendo pequenas histórias, escreveu com os pseudônimos de Jean du Perry, Georges Sim, Christian Brulls, Luc Dorsan, Gom Gut, Georges Martin-Georges, Georges d'Isly, Gaston Vialis, G. Vialo, Jean Dorsage, J. K. Charles, Germain d'Antibes, Jacques Dersonne e, quem sabe, outros que desconheço.
É o quarto autor da língua francesa - isso mesmo, Cléo, ele escrevia na língua Júlio Verne, o primeirão - mais traduzido do mundo. As tiragens acumuladas de sua obra, hoje, passam dos 500 milhões de exemplares. É muito, Lauro? É. Mas o Paulo Coelho, essa coisa, vai no seu encalço. Dizem que já vendeu cerca de 100 milhões. Mas, voltando à topada, como escrevi no parágrafo primeiro.
Assim, com a topada, corri para esse um não muito moderno computador, e falei para os meus botões, hoje, mais carne do que osso: esse indivíduo, Morena, é competente! E, por isso mesmo, merece todo o nosso elogio. O cara escreve fácil e gostoso tanto na forma quanto no conteúdo. Ah, não te preocupes, Dapenha, vou explicar.
Na forma: as palavras que ele emprega podemos empregar em uma carta a um amigo; a namorada, ao irmão que parte ou fica. Uma carta qualquer. E, para melhorar, os parágrafos que as contém estão longe de ser quilométricos. Uma coisa para não dificultar mesmo. Escritos de quem faz questão de ser entendido exatamente pelo que disse, feito um colegial esforçado compondo sua redação.
No conteúdo: o que ele escreve é o que está - ou estava - diante dos seus olhos, sem muita invenção. As tramas do dito cujo - que me desculpem os meus dois leitores, é que eu gosto dessa intimidade com os escritores que costumo chamá-los de meus. - são quase tolas, uns acontecimentozinhos, umas ninharias literárias. Mas o que ele consegue tirar delas, Paulo, justo são ninharias, é o que o faz genial.
Isso, com certeza, Dona Chiquinha, é o que o crítico chamaria de psicológico: um homem toma cerveja olhando de um certo jeito para o copo. Tudo está significado. Tudo será a - não existe palavra mais apropriada - "fazeção", a composição do clima. Sem grandes conseqüências, ele não aborrece ninguém com "profundidades". Tudo o que há é um homem, seu olhar, sua cerveja. Mas tais coisas receberam dele atenção ao serem narradas e tenho a certeza de que também receberão quando lidas.
É o psicológico, Erlandsson, tudo nele é este movimento, esta espécie de, vamos dizer, "atenção andante". Um clima que se cria e se recria, que atravessa a si mesmo, como num túnel, ou como um casaco que se puxasse pelas mangas. Uma coisa curtida, devagarzinho - tem-se até a impressão de que ele não sabia onde ia chegar quando pegou a caneta. Mas é claro que havia um clima, a raiva, o medo, a noite escura, a irritação, o desespero, a dúvida, ora, basta lembrar que o homem gerou mais de 400 livros por aí afora! E viveu feliz entregando-se a sua exploração ou desenrolar. Uma coisa perceptiva a qualquer leitor, João, desde que aquele do Guimarães Rosa, aquele da literatura de resultado - não li nem gostei - do Paulo Coelho.
Um dos últimos livros do Simenon que li, que já faz um bom tempo, havia uma ótima palavra na apresentação: acompanhamento. No sentido de que procuro dar a minha lembrança, Tota, é um verdadeiro palavrão. Acompanhamento. Simenon, faz bem isto. Ele acompanha o desenvolvimento da trama como um carreteiro, talvez, ao lado da carreta: conduz mas é acompanhante; dirige, mas lhe é dada outra imagem - a do companheirismo.
Em minhas viagens literárias - e como são muitas, Lígia. – sem profundidade, sem aquela preocupação crítica, lendo as minhas histórias como se estivesse assistindo a um filme de James Bond, descobri que o Simenon fez duas coisas muito boas. Fez a série Maigret (Jules), que se não é uma projeto perfeito da personalidade do seu criador é, sem duvidas, uma projeção de como seu criador gostaria de ter sido, um chefe de polícia parisiense e em tudo anti-Poirot: não tem nada de cerebralismo, da "genialidade" que Agatha Christie inventou para o seu principal herói, Lourdes. Maigret poderia ser encontrado na rua, visto, cheirado. Hercule Poirot, não, Maria.
Se não abri os velhos parênteses foi porque decidi que um parágrafo pegaria bem melhor. Pois bem. Aproveito para lembrar aos meus leitores Leane e Jorge, que Simenon criou o Comissário Jules Maigret aos 25 anos, quando já era tão conhecido quanto o - outra vez! - Paulo Coelho. Na verdade, quem o criou foi Christian Bulls, um dos seus inúmeros pseudônimos, através do romance La Nuit du Carrefour, conhecido por aqui como A Noite da Encruzilhada. Só uma observação: nunca confundir Jules Maigret com aquele outro do futebol, o Rimet; e que, como vocês viram, entrar nesse Supermercado é uma encruzilhada...
Mas Simenon também fez romances outros, Carolina, uns poucos de cunho essencialmente policialesco, para não perder o faro, é claro, mas uma grande maioria, não. A maioria presta atenção a uma espécie de gente de vida miudinha, anônima, esmagada pela mesmice de suas vidas miúdas e anônimas. Lembro que na Rússia – ou teria sido na União Soviética? – eles acham que Simenon fez isso tão bem que os seus livros são estudados nas universidades. Eles acham, ainda, que ali está uma vasta estamparia da pequena-burguesia ocidental. Mas que esse sujeito, o Simenon, é um grande tribuna, como costumava dizer o meu velho Compadre Heráclito, usando esse tribuno aí como um sujeito genial, honesto e amigo, isso é inegável, Morena. Vou continuar a minha leitura. Até quinta, Isabelas!
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Humberto de Almeida é escritor
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