Minha Inesquecível Paixão de Um Cristo Inesquecível!
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Fui um menino da rua. Mas por favor não confundam esse menino da rua, travesso, campeão de bola de gude e craque no pião, com os meninos de rua da minha cidade. Esses que todos os dias, infelizmente, morrem drogados pelas ruas da República do (i)Real. A rua era a Senhor (de todos os seus...) Passos. Ali, o menino costurava sonhos e tecia novas manhãs. Tinha uma predileção especial pela "festa" da Paixão de Cristo. O drama? Pouco interessava. Seu olhar comprido era para as roupas dos soldados romanos. Belíssimas! A Paixão era uma coadjuvante.
Das muitas Paixões encenadas no meu bairro Jaguaribe, uma ficou na memória. Mas não vou dizer que dessa vez as roupas dos soldados romanos foram esquecidas. Nada disso. Guardada primeiro na memória dos mais velhos, pouco tempo depois seria guardada na minha. Um guardião da nossa história contou, e nunca mais precisou repetir. Inusitada. Engraçada. Verdadeira. O seu humor, assim como a esperança, segundo o ex-sapo barbudo, que venceu o medo, embora respeitando a Paixão, venceu a lembrança da dor.
Naqueles tempos o ator escolhido para fazer o papel de Jesus, o Cristo, tinha que ser bonito. Um Jesus feio, significava um público terrível. Nem Nova Jerusalém se arriscava. Ora, quem iria cometer o pecado, por exemplo, de convidar um Lulu Santos ou Paulo Miklos para o papel de Cristo? E se tivesse os olhos azuis, cabelos longos e lisos ou longos e levemente cacheados, pronto: o sucesso da Paixão estava garantido! Mas naquela semana não foi muito difícil achar um Jesus bonito e "gostoso", acrescentaria, mais tarde, o diretor do espetáculo. Ele estava mais perto do que se imaginava.
O diretor do espetáculo há muito que tinha em mente aquele rapaz de um metro e oitenta de altura, atlético, e dentes perfeitos. E a coincidência?! Ele namorava há um bom tempo a atriz que faria o papel de Maria. Foi tiro e queda. E mesmo sem muito queda para a arte, convidado apenas pelo porte físico, sonhando, como confessara um dia, ser um "ator de verdade", aceitou o papel sem pestanejar. Sem pestanejar, vírgula, havia uma condição: a forte chuva que se preparava para cair naquele dia, teria que passar. Com uma gripe do estupor balaio, como fez questão de dizer, não arriscaria piorar. Se a Paixão pudesse esperar, tudo bem, seria Jesus dos pés à cabeça. Se não...
Mas a chuva não passava, e a paixão, por sua vez, não podia esperar. Foi aí que o elenco resolveu falar com o futuro Jesus. Tudo era apenas uma questão de fé, disse o diretor. O que poderia ser mais forte que a fé de uma pessoa que incorporaria o próprio Cristo? Perguntou o contra-regra. E se a chuva chegasse às vias de fato não passaria de uma chuvinha de nada. Não podia tomar chuva. Sabia. Se a saúde piorasse, pegaria uma pneumonia das brabas. Mais: obre na forma da lei, se precisasse de internação acabaria numa dessas enfermarias onde a infecção, generalizada ou civilizada, faz morada. Mas, por fim, depois de umas duas ou três insistências, aceitou o desafio.
Os ensaios começaram, e os problemas também. Todos queriam assistir. As beatas da Igreja do Rosário, uma referência do bairro, desconfiadas do jeitão de Jesus e Nossa Senhora, principalmente esses, rezavam todos os dias para aquela paixão acabar bem. E tinham razão. Acontece que o namorado da atriz que fazia Nossa Senhora, uma menina bonitinha mas sem nada de Santa, assim que deixava a sua cruz, feita com paus de cupiúba, roubados na vizinha Mata do Buraquinho, um resto de mata atlântica que ainda hoje arboriza toda capital parahybana, atracava-se com Nossa Senhora e... tome sarro! Não tiravam nem os trajes típicos! Ela, com aquele roupão de Borboleta Azul – seita surgida por aqui nos anos 60 e que previu que no dia 13 de maio de 1980 o mundo acabaria num dilúvio -, ele, usando uma tanguinha tamanho de nada, e a cruz de espinhos na cabeça!
Um sacrilégio!
Abdon Luiz – o seu nome de batismo – não tinha nada de Jesus! Não pegava uma só letra! Por sua vez, Jezebel, a parceira, também nada tinha de Nossa Senhora. Abdon era o capeta na arte da conquista! Todas às vezes, depois de cada ensaio, cansado do peso da cruz e sem peso algum na consciência, ele fingia ir ao banheiro improvisado no "Monte das Oliveiras", e... Crau! Dessa vez era Maria Madalena, mocinha conhecida dos meninos do bairro pelo apelido Garganta Profunda. Pior em cena que o Jean Claude Van Damme, famoso pela duas únicas expressões, uma de cabelos curtos e outra de cabelos longos que empresta aos seus personagens, ganhou a vaga, segundo as más línguas, só porque deu pro contra-regra. E foi assim durante os ensaios: Jesus sarrava com Nossa Senhora nos intervalos, e traçava Maria Madalena no Monte das Oliveiras!
Finalmente veio a estréia. No céu nem uma estrela. A noite parecia ser mesmo de menstruação da lua. Pensativo, Jesus esperava pelas suas estações. A da chuva, porém, olhando para cima, sentia que seria a primeira. Por sua vez, Abdon sabia que a sua fé, embora encarnando personagem tão poderoso, não evitaria a pneumonia anunciada. Cheio de tudo aquilo. Primeiro, como todos viram, não gostou do beijo do Judas, uma bichinha enrustida que insistira em beijar-lhe o rosto inúmeras vezes. Só por frescura, como todos também viram, errara o local do fatídico beijo – beijou várias vezes Jesus na boca! –, só para repetir a cena. E, se não bastasse, como descobriria logo após a sofrida descida da cruz, o sacripanta do Judas aproveitara um dos beijos para deixar um bilhetinho dentro de sua tanga, dizendo-se perdidamente apaixonado por "esse corpão(sic) chicoteado!".
Tudo ia bem. Mas eis que de repente, no exato momento em que Jesus estava pregado na cruz, veio o que Abdon mais temia: a chuva impiedosa! Foram muitos os guarda-chuvas destruídos pelo peso da água. Chuva de fazer Noé pedir socorro. Cachoeiras. Comportas abertas no céu. E para recrudescer o arrependimento do grupo pela escolha do rapaz para Cristo, agora, amarrado, sem ninguém para livrá-lo daquele sofrimento, uma vez que todos os outros atores correram em busca de abrigo, Jesus, que havia se guardado desde o princípio, soltou o verbo:
- Estão todos lascados comigo! Quando eu descer dessa porra vou phoder meio mundo! Eu avisei, seus frescos, que não podia tomar chuva! Vou pegar um a um! Vou enfiar essa coroa de espinhos no rabo desse diretor féladaputa! Eu avisei! Eu avisei! Eu avisei! Não tem paixão, não tem porra nenhuma! Vou phoder todos esses féladaputa que estiveram nessa ceia de merda comigo!
Não é preciso descrever os rostos das antes compenetradas beatas. A expressão do único padre presente? Também, não. O difícil foi contar quantas "por minha culpa, minha própria culpa", olhando para o céu, disse o diretor ameaçado de receber a cruz de espinhos lá dentro. Enfim, a história dessa Paixão entrou na história do meu bairro e nunca mais saiu. Ora, quem iria esquecer a retirada da cruz de um Jesus tossindo como se estivesse com uma teia de aranha na garganta, febre de estourar o termômetro e atirando pragas para todos os lados?! Em meu Jaguaribe, nunca mais houve uma paixão como aquela. E nunca mais houve um Jesus como Abdon Luiz.
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Humberto de Almeida é escritor
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