Regina Brown ou Celi Marrom: O mesmo Talento, A mesma Bossa!
Fotos: Divulgação

Uma das perguntas mais ouvidas por estas bandas quando se trata da Banda Absurdus, conhecida por estas plagas como uma das referências de um bom show musical na década de 90, novidade por aqui por ser composta somente de mulheres, é se Regina Brown, a ex-vocalista, uma baixinha talvez um pouquinho menor que a baixinha Elis Regina, nasceu antes ou depois dela. Mas de uma coisa, porém, pelo menos por aqui, ninguém também duvidada: sem Regina Brown, a sua personalidade, a mais carismática de todas as componentes, a Absurdus não teria sido a mesma.
Regina Coeli Evangelista dos Santos nasceu no bairro da Torre, um dos mais populares da capital. A única influência musical que recebeu na infância foi a do seu avô, João dos Santos, conhecido pelo apelido de João Pirrita, e ainda hoje lembrado pelo bom cavaquinho que tocava. Assim, logo cedo, antes mesmo de passar por vários corais da capital parahybana e ouvir muita música popular através das estações de rádio, sem esquecer às vezes que pescava as novidades que vinham pelos LPs de uma prima, hoje, morando na Alemanha, Regina ouviu os acordes que acordariam a artista para o caminho que escolheu. A voz afinada e limpa, instrumento que aprendeu a dominar pelos bares da vida, capaz de passear com dignidade por sambas, funk, reggae, pop, sobretudo esse, maracatus e outros ritmos, foi a sua régua e o seu compasso.
Não lembro quando ouvi falar pela primeira vez na filha de Antonio dos Santos e Aldaíra Evangelista como Regina Brown, líder de fato - tanto que com a sua saída, a banda foi pouco a pouco se transformando em uma fotografia desbotada na parede da memória da música paraibana - e vocalista da Banda Absurdus, composta pelas boas Tânia Gomes (violão e vocal), Socorro Estrela (baixo) e Silvana Moura (bateria), que ainda hoje, mesmo quadro na parede, tem um público cativo e fiel. Sei, porém, que o Brown que viria juntar-se ao Regina para nunca mais sair, apesar do nome que depois adotaria na Alemanha, foi coisa do acaso. Um colunista local ao dar uma nota sobre um show da Absurdus, acrescentou-o, sem querer, ao seu nome, e o nome Regina Brown ficou.
Mas confesso que nunca entendi o porquê daquela menina que cantava - e continua cantando - como gente grande, nascida no meio de Maria e Rita, as duas únicas irmãs, dois nomes comuns e característicos de famílias pobres e nordestinas, tinha adotado o Brown como nome artístico. Afinal, nunca vi no seu jeito de cantar, embora muitos o definam como suingado, um tom ou uma ginga sequer que justificasse o nome americanizado. Ora, Regina Brown canta mesmo é música brasileira, a melhor do nosso rico acervo musical, com um jeito e a ginga das nossas melhores intérpretes. Mas, mesmo assim, a sorte estava lançada: o Brown, assim como o Brown do criativo Carlinhos, pegou e afastou para sempre o bonito Coeli.
Apesar das pernas no mundo por aqui e, agora, lá por fora, como diria o Gonzaguinha, o nome de Regina Brown esteve sempre ligado a Banda Absurdus. Ou, como muitos preferem, a Banda Absurdus sempre esteve ligada a Regina Brown. Até que enfim, em 1998, o cansaço natural, a repetição e a necessidade de buscar novos caminhos, tudo somando ao desejo de cada componente de aprimorar, individualmente, o seu trabalho, Regina Brown, como escrevi certa vez, deixou as nossas praias e foi desaguar no Rio de Janeiro.
No Rio de Janeiro fez parte de um grupo meio pagodeiro, o Batuke de Saias - ou seria Batuque de Saia(s)? - que, assim como a Absurdus, era formado somente por mulheres. Naqueles dias, segundo Regina, "as meninas estranharam o fato de ela vir da terra do forró, do coco e do xaxado, como muitos continuam achando ser esta terra musical apenas isso, e aprender em tão pouco tempo cantar samba com a ginga carioca". Mas, como ressalta ainda, o Batuke foi mais um aprendizado. Uma novidade, pois, como sabe muito bem, apesar de cantar muito e bem esse ritmo, nunca foi uma sambista. Mas aquela, sem dúvidas, era mais uma oportunidade de mostrar que sabia cantar. A linha e o ritmo não importavam. A única linha que estava decidida a seguir era aquela que o seu canto pedia.
Um ano antes da morte anunciada da Absurdus, uma vez que as suas componentes, assim como Regina, também estavam se distanciando e procurando outros caminhos solos ou acompanhadas, em 1997, a Banda lançou o seu primeiro CD, Pedaços de Nós, onde a balada Espelhos, Pedaços de Nós e É da Paraíba, passaram a tocar, sem que fosse preciso pagar o famigerado jabá, pois, jabá as meninas não tinham, em nossas FMs. Era o pop em toda a sua simplicidade. Duas notinhas e três acordes bem colocados, e nada mais. A Absurdus mostrava assim que com uma boa produção, superadas as dificuldades para distribuição do CD em nível nacional, o fim não estaria tão próximo.
Pedaços de Nós foi o presente que a Banda deixou para o seu público fiel. Um único filho que, assim como o Paêbirú de Lula Cortês e Zé Ramalho, poderá vir a ser o Rosebud de Regina Brown. O CD, se não entrou para a história da música paraibana, serviu para mostrar uma banda afinada e sintonizada com o gosto e a cara dos anos noventa na Parahyba. Mas quem ouvir Regina Brown cantando, por exemplo, Estilhaços, da boa e injustiçada (depois contarei a sua história) Cátia de França, para quem essa torrelandense é a intérprete preferida; Paris, Tókio e Nova Iorque, do Tadeu Mathias, e tantas outras sem a luxuosa ajuda do Absurdus, concluirá que, se com a Banda ela estava bem, hoje, sem ela, está muito melhor.
Pouco tempo depois, o Rio, mesmo sendo de Janeiro, assim como o Absurdus, também passou pela sua vida. Depois de um bom tempo sambando no Batuke (ou seria Batuque?) e na noite, vez por outra, aparando as arestas de uma voz que cuida como poucas, consciente de ser esse o seu único instrumento de trabalho - nunca bebeu ou fumou e sempre preferiu a água em seu estado natural -, convidada pela irmã que há muito trocara a sua bucólica capital parahybana pela fria Alemanha, onde casou e morou por muitos anos, Regina, ainda Brown, aceitou o convite e foi esquentar as noites alemães com a sua voz Morena(sic).
Na sua estada na Alemanha - por enquanto, aportou na Província das Acácias, onde finaliza o primeiro CD solo -, cantando bossa-nova com a bossa da mulher brasileira, Regina Brown adotou o nome artístico de Celi Marrom. Entre músicos alemães - o marido é uma espécie de band líder - e brasileiros ali radicados, sintonizados com o seu repertório, conseguiu estruturar duas bandas e manter um roteiro de shows em diversos países da Europa. Uma, denominada Pano e Água, para propostas de Bossa Nova e Jazz: a outra, sem denominação, para performances de músicas dançante e Popular Brasileira.
Regina Brown, que na Alemanha virou Celi Marrom, tem página na Internet (vale acessar, ouvir Estilhaços e outros), criada pelo produtor de mídia alemão, Volker Garbisch, e uma produtora estruturada por Rita Garbisch, sediada em Munster, fronteira com a Holanda. De passagem pela terra natal, onde finaliza CD cujo título ainda é uma incógnita, foi uma das atrações do segundo – o primeiro canta de Galo da Madrugada - maior bloco de arrasto do país, Muriçocas do Miramar, ao lado de Chico César, Renata Arruda e outros. Agora, como costumamos dizer por aqui, é só aguardar para ouvir o solo de Regina Brown.
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Humberto de Almeida é escritor
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