Vai, 1Berto, ser mais um pela vida!
Quando este escriba nasceu um anjo sacana desses que nunca viveram na sombra, boêmio e cheio de malandragem, embora não tenha dito muita coisa, deixou no ar o recado: "Vai, cara, nunca desejes ser mais de um nessa Vida Severina! És apenas um, e disso não passarás!" Fechando a sentença com aquela cara de não-tem-mais-conversa, bateu o martelo: "És apenas 1Berto!" E assim, sempre com o rosto na janela, cão louco uivando para a lua, cavalo selvagem nos campos de caça, cumprindo o profetizado pelo sacana, até hoje vivo e sobrevivo por aí contando histórias.
E assim, escriba inocente puro e besta e que não veio do interior, desde priscas eras, saiu por aí a contar histórias aqui e alhures de anjos sacanas e as suas sacanagens. Sacou a caneta que sempre carregava – e carrega – no bolso esquerdo do peito e danou-se a escrever o que via e o que os outros viam e lhe contava. Daquele dia em diante, ele que só acreditava em fadas, gnomos e num salário mínimo que desse para um trabalhador viver com dignidade ao lado de sua família, passou a acreditar também em santos.
Danado como um cão louco uivando para a lua começou a escrever poesias e acreditar que todos os poemas fossem feitos mais por necessidade que inspiração. No princípio, era quase nada. Sabia-se as horas e alguns números de telefone, um samba de Ary Barroso e quando terminariam as aulas. Quase nada. Mas a pressão interna aumentou na medida em que fomos mártires do cotidiano. E, em breve, havia mais temas nas conversas noturnas.
Os anjos de hoje são assim. No sul, ao lado, ou de frente pro Equador, a posição não importa, eles querem mesmo é gozar. Uns gozadores, além de sacanas. E fomos em frente jogando bola e fazendo poesia. Juntos a outros sacanas, todos anjos, soubemos quem era o responsável pela desgraça do país. E quem se aventurava a uma postura messiânica. Começamos a nos interessar por poesia, pela biografia dos "santos". Iniciamos correspondência com algumas autoridades (as que aceitaram o jogo...).
Enquanto divago ratificando para o colega carioca que me enviou um comprido e bem-humorado imeio falando do meu bom-humor e da manhã que nunca perdi a esperança de encontrar, lembro que Dona Esperança, embora seja última a morrer, um dia morre. E se não fica podre como podre ficará a roupa que este escriba veste por aqui, deixará no ar um cheiro indecifrável de uma segunda-feira cinzenta. Mas, caminhando e segundo o caminho da poesia do anjo sacana, volto ao poema.
O escriba mantém o rosto na janela e os pés no chão. Não adiantam as porradas. Sem o seu rosto, a janela é um quadro vazio. Apenas. Foi com o rosto na janela que ele soube da mais nova das palhaçadas da República do (i)Real e da fantasia. Seria cômico se o trágico não estancasse a gargalhada que a noticia merecia. Na distante e macunaímica cidade São Paulo empregada é demitida por justa causa por não poder dominar os flautos – não confundir com flautas -, apertados como bomba-de-sete-tiros, que carrega dentro do saco do estômago. Trocando em miúdos: rabo solto dá cadeia!
Talvez esteja aí a resposta para os muitos políticos e honrados cidadão que fazem de suas vidas públicas as suas privadas. Sabendo que o rabo solto na profissão que escolheram pode dá até cadeia, trazem-nos seguros e devidamente presos. Nada contra a prisão dos mesmos. Dos rabos e os respectivos donos, claro. Mas tudo a favor daqueles que os usam e, como foi o caso, sendo cerceado nesse divino direito, recebem R$ 10 mil como indenização pelos danos sofridos.
O anjo sacana que me deu a régua e compasso dizendo vai, 1 Berto, ser mais 1 sacana nesta vida, também se diverte com as sacanagens pescadas por esses olhos de águia em vôo solitário, como bem descobrira Dona Chiquinha, olhando e morrendo de amor por seu filho caçula. Os políticos de rabos presos, se não cometem flatos cometem faltas violentas e por trás. Antes de quaisquer mensagens flatulentas, sem vergonha que são, botam para fora as suas marcas registradas. Sem dúvidas. Todo político não é um cagão. Mas, até que me provem o contrário, não existe um só cagão que não seja político.
Mostrando que passa longe das sete faces do poema daquele outro anjo que nada tem a ver com ele, talvez por sacanagem, o sacana tem apenas uma face, limpa e lisa, como diria o Compadre Heráclito. "Vai, 1 Berto, pensou, mas não disse, cuidar da vergonha, essa herança maior que o teu pai te deixou! Nesses tempos de corrupção correndo fácil nos meios políticos, só mesmo sendo um grande idiota ou depositário fiel dessa herança-vergonha deixada pelo teu pai, para não entrar para a política e, como diria o Lula, enricar!". Tudo bem, brincou o safado, nessa idiotice, porém, sou um gigante.
Sacanagem não se pega através de relações sexuais. Uma ótima notícia. Sendo assim, os amantes dos nossos crotos e ex-crotos políticos de plantão não correm o risco de contaminar as suas prendadas esposas, que, por sua vez, responsáveis e precavidas, nunca esquecem de lembrar aos seus jardineiro e motorista a importância do uso da camisinha. E quem quiser que conte outra.
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Humberto de Almeida é escritor
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