Se Todos Fossem Iguais a Ele, Ele Seria Diferente!
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Ele é um tipo comum. A primeira vista, por sinal, uma das poucas músicas do Chico César que ele gosta, não tem nada mais do que qualquer um dos muitos sujeitos comuns que a gente não conhece e, por isso mesmo, acha que de comum nunca irão passar. Não toca violão, não canta, não é um intelectual, ator ou jogador de futebol. Mais: não é daquele tipo de fazer tipo que sai por aí dizendo que gosta da música de Mozart e dos clássicos do Gabriel Garcia Marquez.
Se alguém fosse associá-lo a uma palavra, uma só, que pudesse defini-lo, corpo e alma e o constante bom-humor, seria simplicidade. Percebe-se nele - pelo menos eu percebo - é que tem muito do nostálgico e muito mais da doce figura de Simpatia, esse famoso andarilho que coloriu o Rio de Janeiro com frases de amor ao próximo e aos distantes. Um bom sujeito, como gostaria de ser um dia, e acredito que não tenha conseguido, o Caetano Veloso.
Uma das muitas virtudes que ele tem é de saber e confessar - um Sócrates tupiniquim? - que não sabe de nada nem pretende saber muita coisa. – o que sabe, lhe basta. Mas é um não saber consciente, sem aquele ar de estou apenas filosofando para agradar a platéia ávida por novos ídolos. Um tanto diferente deste escriba que acha que todo o ídolo tem os pés de barro e o cu de hemorróidas, tem os seus ídolos. E, entre o poucos, o pai, esse que sempre está no lugar mais alto do pódio.
Não estudou muito. Mas, numa análise fria, sem tomar partido, como diria a sua mãe, mesmo que tivesse estudado e aprendido todas as coisas do mundo e de Deus, não iria mudar em nada a sua maneira de ser. Um médico, um advogado, um engenheiro, um político não safado, ou outra profissão de destaque, não seria diferente. Seria aquele sujeito simples e bom e solidário que sempre foi. Título? O único que tem é um de eleitor que nunca foi usado para eleger um desses políticos safados para quem pai palavra honestidade é mais feia que a boca do senador Heráclito Fortes.
Ele é leve como um Carlitos e muito melhor que Jeremias, o Bom, ótimo personagem do Ziraldo. Um sujeito capaz de mesmo nu dá a um irmão que precisa a roupa do próprio corpo. Podem até não entender a comparação, mas quando se trata de ajudar ele é capaz de tudo. E se acham que não existe essa tal roupa de quem vive nu – existe sim, e tem cor de pele - podem ter certeza, ele inventa. Uma prova maior de sua solidariedade é a sua capacidade – podem chamar de doação – de dividir com o amigo os próprios sonhos. E um sonho dividido, todos sabem, acaba se tornando realidade.
O seu gosto? Só não gosta e não aceita imaginar é que alguém o acuse de não gostar dos seus. Tem os seus gostos e deles não abre mão nem para receber, nessa mesma mão aberta, o CD do Ney Matogrosso, seu ídolo na canção popular. Desde os tempos do Secos & Molhados, quando aquela figura magra e andrógina apareceu contorcendo-se no palco e se arrastando que nem cobra pela chão, ele tacou o olho e disse: é um artista! E de lá pra cá, mesmo demonstrando um gosto musical entre o chamado brega e o cultuado chique, diz que não apareceu mais ninguém.
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Não posso deixar de lembrar que não existe nada mais cômico, mais natural, mais inocente que os seus trejeitos e requebros, pura brincadeira, imitando o seu ídolo, estando seco ou molhado, banhando-se no Rio Gurugi. E diante de tamanha naturalidade, tenho a certeza que o próprio Ney aplaudiria. Ele não faz uma coisa caricatural nem brinca de ser Ney Matogrosso. É o próprio Ney, mas sem deixar em nenhum momento de ser ele mesmo, o excelente pai, irmão e amigo.
Não lembro do último filme a que assistiu nem do livro que leu nos últimos anos. Ou melhor: neste ano. No ano passado, empolgado, disse que estava lendo a Moreninha – ou teria sido o Cortiço? –, o clássico romance da literatura brasileira que tem a Ilha de Paquetá como cenário e uma Pedra (a da Moreninha) no seu caminho, escrito por um jovem de apenas 23 anos. Divertia-se muito, também disse. Verdade. A sua alegria narrando os encontros e desencontros de Carolina e Augusto era a prova dos nove.
Se vocês perguntarem se ele, agarrado a sua Moreninha, estava preocupado comigo, mergulhado nesse momento - pela segunda vez! - de olhos, corpo e alma no denso Montanha Mágica do Thomas Mann e do seu Hans Castorp, responderei que não estava nem aí. E se insistisse, acrescentaria que ali nunca esteve. Por aí se vê que a sua leitura, assim como ele, é a mais simples possível. De complicado, ele sabe – basta a vida. Sim, o filme? Volto a confessar: não lembro.
Mas, afinal, perguntarão os dois leitores que tenho: quem é esse personagem tão rico assim? E eu, assumido consumidor de arte e consciente de que uma análise a respeito do que foi aquela Semana onde a Arte não passou de uma brincadeira de um Oswald de Andrade, recém-chegado da Europa que acabara de conhecer e cheio de histórias para contar, vale menos que um relato sobre a sua vida, responderei: Paulo Bezerra de Almeida, filho do Compadre Heráclito e Dona Chiquinha, que para a minha felicidade também são meus pais!
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Humberto de Almeida é escritor
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