NOS CAMINHOS DE AUGUSTO, UM DOS ANJOS DA POESIA
Fotos: Humberto/Fátima Moreno
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A cabeça cheia de poesia e os olhos sedentos de novas paisagens, resolvi, mais uma vez, visitar a casa onde nasceu aquele que foi chamado por muitos de Doutor Tristeza, mas, para a minha alegria, mesmo nessa tristeza, poeta maior desta terra de muitos poetas e nem um como ele, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos. Nesse sábado, bem acompanhado, Fui à Vila do Espírito Santo, berço do poeta, hoje, parte do município de Sapé, localizado a pouco mais de 24km da capital.
O caminho até o local onde se localizava Engenho Pau D´arco, hoje engolido pela Usina Santa Helena, se oferece como uma loteria para o visitante. Ele aposta e, seguindo nessa aposta a orientação dos moradores da região, acaba encontrando a pista: depois de um vale (assim mesmo, eles falam "vale") de eucalipto, sentido Sapé, a nossa conhecida Cidade do Abacaxi, Espírito Santo, basta entrar a esquerda. Sem preocupação, acrescentam, todos acabam na casa desse – esse desse aí trouxe aquele ar de "tanto-faz-como-tanto-fez" – Augusto dos Anjos.
Ora, se o parahibano, mesmo sendo um desses que se orgulham do autor do Monólogo de Uma Sombra e Versos Íntimos, os mais citados entre os muitos e que muitos por aqui sabem de cor e salteado, está arriscado a se perder no caminho do poeta, esse por ele onde desfiou sua tristeza e dor, imaginem aquele que vem ao seu berço natal trazido apenas pelo seu Eu. Uma só placa, um só busto, um só... verso do poeta não avisa que a casa do poeta está próxima. A Morena, companhia poética em carne e osso que acompanhava o escriba, e Paulo de Almeida, irmão e sempre companheiro, só emoção em se imaginar debaixo do tamarindeiro augustiano, lamentaram durante todo o caminho.
E caminhamos ao sabor das lembranças, a favor do vento, com lenços e documentos, ávidos para pescar poesia no quintal do poeta. Aqui e ali, lembrava a visita que o meu pai, o Compadre Heráclito, fez a um "rapaz irmão do grande poeta Augusto dos Anjos, o Aprígio", apresentado em tempos idos a um dos muitos irmãos, quando este escriba ainda não era nem nascido, no seu bairro Jaguaribe. E foi justamente ao Aprígio, o irmão que o meu pai conhecera, que o poeta dedicou o seu belo poema A Minha Estrela (E eu disse - Vai-te, estrela do Passado! /Esconde-te no Azul da Imensidade, /Lá onde nunca chegue esta saudade, /- A sombra deste afeto estiolado.)
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Infelizmente ainda são muitos os paraibanos que apenas ouviram falar num "tal poeta de palavras difíceis e sofredor", e muitos outros ainda, obtemperava a Morena, que sequer desconfiam que ele nasceu ali tão pertinho, num velho engenho , onde passou a sua infância e juventude, dividindo o silêncio com o seu tamarindeiro e destilando a dor do poeta que inventou. Para que melhor ilustração? Perguntei ao cidadão que estava sentado na calçada da igrejinha onde fora batizado o poeta, se ele sabia quem havia nascido na casa vizinha, e, se por acaso, também ouvira falar em "tal tamarindeiro" sob o qual um poeta escrevera a maioria de seus poemas. "... Sei, não! Mas nessa casa – apontou justamente para a casa onde nasceu o poeta! – alguém deve saber!". E mais triste: ele havia nascido naquelas plagas.
Estávamos no caminho certo. O escriba sentia no ar os anjos de agosto, setembro, outubro e, claro, fevereiro. Todos os anjos os poeta. A estrada que deságua no velho Engenho Parco D'arco é sinuosa, cheias de armadilhas para o motorista inexperiente. Lembrei a Procissão do compositor popular que parecia arrastar-se que nem cobra pelo chão. Pausa. Respirando a poesia dos canaviais, qualquer um, poeta ou não, também tem o direito de imaginar a sua estrada feito cobra se arrastando pelos canaviais.
Depois de uma boa caminhada, o som do carro ligado e tocando a minha Eu Plural, uma das muitas parcerias feitas com Gilberto Nascimento, parahibano radicado em Barra Bonita (SP) e doido pra voltar à terra natal, onde poetiso(sic) em cima da pluralidade do poeta ("Magnífico pronome/Do poeta e do homem/É plural no sentimento) e do tamarindo que sempre lembra o Rosebud do Cidadão Kane ("Debaixo do Tamarindo/Poemas em galhos se abrindo/Onde deseja ficar!), chegamos ao Memorial Augusto dos Anjos, localizado na antiga casa de Guilhermina, a mãe de leite de Augusto dos Anjos.
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A casa onde viveu Guilhermina é modesta. Uma pequena cozinha, sala de estar um pouco maior, uma segunda sala, essa, grande demais para o conjunto, e uma área livre de bom tamanho. Um pé de cajá ao lado que na safra, como agora, pinta todo o chão de amarelo com o seus fruto, e um outro de graviola, podada em excesso, mostrando somente folhas. As paredes são tomado por fotografias e inúmeros livros sobre o poeta e a sua poesia. Isto claro, sem esquecer a famosa foto do homem magro e triste, chapéu na cabeça, e um guarda-chuva que parece nunca chuva ter guardado, mas apenas sol, o sol do Engenho Pau D'arco.
E ficamos ali, a Morena, Paulo e este escriba, mais silêncio que curiosidade, fotografando com o olhar as coisas do Augusto e arrumando na estante dos sentimentos as coisas da Guilhermina que os olhos não conseguiam pescar. Ninguém percebeu, pelo menos enquanto estava ali entre as lembranças e fotografias de Augusto dos Anjos na parede, muitas doídas, nem o escriba falou. Mas era Guilhermina quem me falava das coisas que o poeta, naquele momento, escondia de todos. Era Guilhermina quem me fazia lembrar o poeta. Não resisti.
E ali mesmo, baixinho, bem baixinho, passei aquele poema que, assim como o Versos Íntimos (Vês?! Ninguém assistiu ao formidável enterro de tua última quimera), decorei para numa mais esquecer: "A minha ama-de-leite Guilhermina/Furtava as moedas que o Doutor me dava./Sinhá-Mocinha, minha mãe, ralhava...Via naquilo a minha própria ruína! ". E fechando o soneto com chave poética das melhores, concluía: "vejo, /entretanto, agora, em minha cama,/Que a mim somente cabe o furto feito.../Tu só furtaste a moeda, o oiro que brilha...Furtaste a moeda só, mas eu, minha ama,/Eu furtei mais, porque furtei o peito/ Que dava leite para a tua filha!
O Memorial ficou para trás. Só o Memorial, pois, Guilhermina, mesmo depois do poema recitado baixinho, permaneceu no eco do verso "que dava leite para tua filha!". Em seguida, após pararmos para admirar o mural tamanho gigante que cobre quase toda a parede do grupo escolar Usina Santa Helena – por que não Augusto dos Anjos? –, onde mostra o poeta, a casa de Guilhermina e o seu inseparável tamarindeiro, chegamos a igrejinha. Estava fechada. Uma capelinha. Batizada de Senhor do Bonfim. Ali, em 27 de fevereiro de 1885, o poeta se batizou. Uma constatação: não vai demorar muito para virar escombros. E, assim como o poeta, mais uma fotografia na parede da memória. E haja dor...
E os gigantescos tamarindos adotados pelo poeta? E aquele que sob os seus galhos , segundo poeta, sua sombra permanece? E ali, debaixo de um dos tamarindos, a Morena e Paulo, emocionados, ficaram a procurar o poeta. Pura emoção! "Acho que ele escolheu este, disse-me ela, a vista para rio é mais bonita!". Nada mais disse, nem foi preciso. Era o mistério do " molambo da língua paralítica" do qual falara o poeta. Os tamarindeiros, um ao lado de um velho cacimbão, e outro fazendo sombra para um rio morto com cara de açude velho ou vice e versa, pareciam guardas da "paleontologia dos Carvalhos". Não paramos os nossos relógios, mas ficamos parados, debaixo do tamarindo, saboreando a poesia daqueles galhos-braços nos abraçando.
No final, em respeito a tristeza do poeta, sentida ali, debaixo do tamarindeiro em toda a sua intensidade, não poderíamos destoar. Quando o deixamos não havia em nossos olhares, em nem um deles, um só olhar de até logo, mas todos de adeus. Os seus troncos destruídos pelas intempéries do tempo e visível (note-se o abandono em que se encontra o que antes fora o vistoso pátio da casa grande onde nasceu o poeta) falta de respeito a história do poeta, a nossa história, cheios de cimento, emenda ruim para um soneto perfeito, pareciam chorar, clamar por socorro.
Em particular, confesso a minha dor pela dor que sentem os Tamarindos de Augusto dos Anjos. Assim, partimos lembrando aquele "tipo excêntrico de pássaro molhado", como disse dele o Orris Soares, hoje, somente sombra, pois a árvore ficou plantada em Minas Gerais e a família reluta em não trazê-la à terra desamada - dizem, mas o poeta sempre amou esta terra ingrata -, que parecia nos dizer na despedida: "Eu sou aquele que ficou sozinho/Cantando sobre os ossos do caminho/ A poesia de tudo quanto é morto!"
E despedida mais triste não poderia existir.
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Humberto de Almeida é escritor
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